Disputa da escassez

Lei restrita e menos recursos deixam campanha mais distante do eleitor

Com pintura de muros e cavaletes proibidos, candidatos de Porto Alegre investem em outras estratégias para apresentar suas propostas

22/09/2016 - 02h00min | Atualizada em 22/09/2016 - 02h00min
Lei restrita e menos recursos deixam campanha mais distante do eleitor Omar Freitas/Agencia RBS
Bandeiraços são permitidos, mas, com menos dinheiro, coligações diminuíram contratações para esses atos Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Às vésperas da eleição, algo mudou nas ruas e avenidas de Porto Alegre: ao contrário de disputas anteriores, marcadas pela poluição visual, a briga pela prefeitura da Capital passa quase despercebida na paisagem urbana. Com o fim da doação de empresas e a proibição de formas tradicionais de propaganda, como cavaletes, bonecos e faixas, a disputa de 2016 ganhou novo status: o da campanha da escassez.

Em comparação com 2012, o montante envolvido caiu 59%. Naquele ano, considerando a prestação parcial de contas divulgada no dia 7 de setembro, a arrecadação dos sete candidatos a prefeito somava R$ 4,4 milhões (valor corrigido). O período eleitoral durava 90 dias — hoje são 45 —, e as contribuições de pessoa jurídica eram permitidas. Neste ano, na mesma data, os nove concorrentes contabilizavam receitas de R$ 1,8 milhão — até terça-feira, o valor já estava em R$ 3,3 milhões. Dessa vez, as candidaturas podem contar apenas com doações de pessoas físicas e de dinheiro do fundo partidário. Além disso, há um teto menor para os gastos.

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A limitação financeira, associada a mudanças nas regras de publicidade, contribuíram para reduzir gastos e manter relativamente limpas as vias públicas. Mas os efeitos colaterais indesejados preocupam o promotor Rodrigo Zilio, coordenador do gabinete eleitoral do Ministério Público no Estado.

— Olho pela janela e nem parece que tem eleição. A cidade está limpa, é verdade, mas as pessoas têm cada vez menos informações, inclusive porque os programas de rádio e TV ficaram menores. Mal sabemos quem concorre a vereador, e isso é complicado. Não podemos simplesmente virar as costas para a política — avalia Zilio.

Quem circula pela Capital não vê mais canteiros apinhados de cavaletes nem postes repletos de cartazes. As muretas da Avenida Ipiranga, outrora cobertas por faixas, estão livres de propaganda política. Em bens particulares, como residências, a legislação só autoriza o uso de adesivos e de cartazes com, no máximo, meio metro quadrado. Até os bandeiraços estão mais tímidos.

Em razão das restrições, os coordenadores de marketing ficaram mais seletivos. Passou a ser fundamental, segundo o diretor da Associação Brasileira de Consultores Políticos no Estado, Paulo Di Vicenzi, estabelecer prioridades. No caso dos concorrentes à prefeitura da Capital, o horário eleitoral continua sendo o principal alvo de recursos, especialmente entre aqueles que têm mais tempo de exposição. Com uma diferença: as equipes de produção estão enxutas e os formatos, econômicos.

O contingenciamento de gastos também levou os candidatos a privilegiarem militantes voluntários em detrimento de pagos e a reduzirem o número de assessores e profissionais de mídias sociais. Também houve redução nos materiais gráficos. Se antes era comum, por exemplo, imprimir 15 mil adesivos perfurite (usados nos vidros traseiros de veículos), hoje a quantia dificilmente passa de 5 mil.

— Estamos vivendo um divisor de águas na forma de fazer campanha.

A dúvida é até que ponto as mudanças vão persistir. Quando chegar a vez dos deputados federais disputarem vagas, será que eles vão aceitar as mesmas limitações? Ou vão querer mudar tudo outra vez? — questiona Vicenzi.

Para convencer, folheto de 22 páginas

Foto: Fernanda Piccolo / PSOL

Com apenas 12 segundos nos programas de rádio e TV, Luciana Genro (PSOL) está entre os que mais economizam com gravações. Em razão disso, 51% das despesas envolvem a confecção de materiais impressos. O principal deles é um folheto de 22 páginas, com tiragem de 120 mil exemplares, que reúne as principais propostas da candidata. Com a revista em mãos, Luciana prioriza o contato direto com eleitores.

— A única mudança na legislação que não gostamos foi a redução do horário eleitoral, porque prejudicou muito o PSOL — afirma Roberto Robaina, coordenador da campanha.

Menos recursos, mais disposição

Foto: PTB / Divulgação

O PTB de Maurício Dziedricki tem a maior bancada na Câmara Municipal, com seis vereadores, e mantém estreitas relações com entidades de bairro. É nesse capital político que ele confia para superar as restrições legais e financeiras — dos cinco principais candidatos, Dziedricki é o que tem a menor receita (R$ 275,7 mil) —, além do apoio dos 99 candidatos a vereador da coligação.

— Com a limitação de recursos, não podemos mais contratar equipes de rua para dar visibilidade. Hoje é tudo com os militantes e os candidatos. Disposição e sola de sapato são palavras-chave — diz Everton Braz, coordenador de campanha.

Maior arrecadação, gastos na TV

Foto: Eduardo Beleske / Divulgação

O deputado federal Nelson Marchezan Júnior (PSDB) é o candidato que mais registrou doações (R$ 1,29 milhão) e, também, o que mais declarou despesas (R$ 584,6 mil). Mas isso não significa, segundo Kevin Krieger, coordenador da campanha, que as novas regras não trouxeram dificuldades.

— Hoje, os programas eleitorais são diários. Antes, eram veiculados às segundas, quartas e sextas. Isso aumentou os custos, e tivemos de nos adaptar para manter os gastos sob controle. Trabalhamos com apenas uma equipe e priorizamos gravações externas para evitar despesas com estúdio — descreve Krieger.

Equipe enxuta com aposta na militância

Foto: Divulgação / CAMPANHA RAUL PONT

O ex-prefeito Raul Pont (PT) conta com a força da militância petista — conhecida em Porto Alegre por "virar eleições", mesmo em situações adversas — e com o corpo a corpo para driblar as restrições da legislação.

— A limitação de despesas foi boa para equilibrar a disputa, mas, fora isso, vemos como mais uma tentativa de criminalizar a política. Discordamos disso — analisa Marcelo Danéris, coordenador de comunicação da campanha.

Um exemplo de contenção, segundo ele, é o tamanho da equipe de redes sociais, que tem apenas três pessoas na disputa deste ano. Em eleições passadas, havia no mínimo o dobro de profissionais para atuar neste segmento.

Propaganda reforçada por aliados

Foto: Evandro Oliveira / PMDB

O vice-prefeito Sebastião Melo (PMDB) aposta nos quadros do partido e no alcance dos 248 candidatos a vereador da coligação — que reúne 14 siglas — para atingir o maior número possível de eleitores, sem custos extras.

— Não fazemos mais bandeiraços com cem, 200 pessoas, como no passado. Hoje são grupos menores, não remunerados, de 10 militantes. Também são eles que cuidam das redes sociais e do WhatsApp, tudo de forma voluntária — diz Antenor Ferrari, coordenador da campanha.

Como Melo tem o maior tempo de rádio e TV, Ferrari conta que a saída foi manter apenas uma equipe de produção. 

 
 
 
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