Entrevista

"Acho que não tem a menor relação", diz youtuber que gravou vídeo com denúncia contra Zalewski

Coordenador da campanha de Sebastião Melo teria demonstrado incômodo com vídeo publicado por Arthur Moledo Do Val

18/10/2016 - 16h17min | Atualizada em 18/10/2016 - 20h54min
"Acho que não tem a menor relação", diz youtuber que gravou vídeo com denúncia contra Zalewski Reprodução/YouTube
Arthur Moledo Do Val publicou o vídeo em seu canal no YouTube em 29 de setembro Foto: Reprodução / YouTube

Criador do canal no YouTube Mamaefalei, o paulista Arthur Moledo Do Val, 30 anos, tornou-se, indiretamente, personagem da tensa campanha eleitoral em Porto Alegre. É ele o autor do vídeo que, segundo amigos de Plínio Zalewski, vinha perturbando, nas últimas semanas, o coordenador da campanha de Sebastião Melo (PMDB), encontrado morto na segunda-feira.

Na gravação de pouco mais de quatro minutos, Do Val aparece questionando Melo sobre a suposta participação de Zalewski na campanha em horário de expediente na Assembleia Legislativa, onde o responsável pelo plano de governo do peemedebista era funcionário. 

Em seguida, segue para o Legislativo à procura de Zalewski. Publicado em 29 de setembro, o vídeo soma quase 36 mil visualizações. No mesmo dia, Zalewski pediu exoneração do cargo em comissão na Assembleia.

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Do Val considera-se um liberal e diz que trabalha unicamente por ideologia. Ele diz ter viajado a Porto Alegre para a produção de vídeos para o seu canal depois de um contato com o candidato a vereador Matheus Sperry (Novo), intermediado pelo Movimento Brasil Livre (MBL).

Criado há cerca de um ano e meio, o Mamaefalei popularizou-se depois de vídeos gravados com militantes em manifestações de esquerda, ideologicamente contrários a sua visão. Do Val não acredita que o vídeo tenha relação com a morte de Zalewski – que – segundo a Polícia Civil, trata-se de um suicídio.

O que 0 mobilizou a viajar para Porto Alegre?
Quando comecei a fazer os vídeos, o pessoal do MBL entrou em contato e perguntou quais eram meus ideais. Disse que tenho ideais de liberdade, bem parecidos com os do MBL. Eles me chamaram para uma parceria, para divulgarem meus vídeos. Eles falaram: "Ó, a gente te passa onde vai ter manifestação, você vai lá, faz e a gente divulga pra você". Falei: "Beleza". Isso ajudou o meu canal a crescer bastante. 

Em Porto Alegre, foi justamente uma pauta dessas. Falaram que tinha um candidato a vereador no Sul chamado Matheus Sperry, que tem ideais liberais e que e o MBL está alinhado com as propostas liberais dele. Falaram que seria interessante se eu fosse para Porto Alegre porque conheceria o Sperry, e tem a PUC de Porto Alegre, que tem bastante pessoas de esquerda, e a Esquina Democrática, que tem bastante pessoas desse viés político de esquerda. Então, falei: "Vamos embora".

Quem pagou as suas despesas?
Paguei tudo. Saiu tudo do meu bolso.

Tudo por amor?
Tudo por ideologia, completamente ideologia. Paguei minha alimentação, tudo foi por minha conta. O pessoal pergunta por que faço isso se não ganho um centavo com o canal. Não ganho um centavo, meu canal não é grande o suficiente para me dar dinheiro. Faço 100% de maneira ideológica. O canal é 100% eu, não tem outra pessoa, não tem discussão política, o que decidir, faço. Decidi fazer isso, fui lá e fiz.

Mesmo que isso te faça gastar com viagem e hospedagem, por exemplo.
Isso aí... Fazer o quê? Infelizmente, a gente acaba gastando com isso, né. Em vez de ganhar dinheiro, acaba gastando.

Você veio para Porto Alegre com pautas?
Não. Isso foi o bacana. Não fui com pauta nenhuma. Fui para conhecer o Sperry, conhecer as propostas dele, fazer um vídeo na Esquina Democrática, que nem conhecia, e acabei fazendo um vídeo na PUC. Fiz esse vídeo do Melo, coincidentemente, e foi isso.

Onde você encontrou o Melo?
Participei de uma entrevista com o Diego Casagrande (apresentador da Rádio Bandeirantes) e três convidados. Cheguei antes na Band, almocei, e, daí, passou o Melo. Uma oportunidade única. Não estava nem com câmera, nada. Peguei o celular. Em uma das perguntas, ele falou pra mim: "Você vai lá e protocola um pedido de esclarecimento, uma denúncia". Falei: "Tudo bem, vou fazer isso". Como cidadão tenho esse direito? Tenho. Então fui fazer isso.

No vídeo com o Melo, você cita a denúncia de que Plínio era funcionário da Assembleia e estava trabalhando na sua campanha. Como essa informação chegou até você, em São Paulo?
Quando vou fazer uma entrevista com alguém, não que seja repórter profissional, mas pesquiso, justamente para perguntar o que o cara não quer responder. Se você dá um Google no Melo, ver o que tem do Melo e ele não gosta... Daí achei esse trecho. Achei bacana perguntar isso.

Mas você disse que, quando chegou na Band, nem sabia que o Melo estava lá.
Não, não sabia. Foi uma coincidência. Mas, assim, quando fui para Porto Alegre, já sabia quem eram os candidatos. Na verdade, achava que a Luciana Genro iria para o segundo turno e fui preparado para procurar ela. Acabou que ela não foi, as pesquisas, nem sei, mostraram o Marchezan e o Melo no segundo turno. Então acabei indo mais para o Melo mesmo. Foi uma coisa, assim, uma coincidência de sorte, mesmo. Cruzei com o cara bem na saída da Band. Daí, pensei: "É a minha chance". Mas já estava com o gatilho armado, por dizer assim.

Então você já estava preparado caso o encontrasse.
Com certeza. Porque saí de São Paulo para ir até Porto Alegre. Se encontrasse, por exemplo, o Melo, a Luciana Genro, ou o candidato do PT, como meu canal é pequeno, para mim é algo expressivo. Então, vou preparado para o que acontecer.

De onde você tirou a denúncia sobre o Plínio? Alguém lhe soprou?
Como essa história veio à tona, agora ficou muito fácil de achar. Mas, se você entrar na internet e procurar, vê inclusive prints do que estava acontecendo. Ele foi numa rádio numa hora que não podia. Vou ser sincero para você, não tenho esse conhecimento técnico para analisar as horas que o Plínio deveria ou não trabalhar. Fui para fazer perguntas. Se o Melo respondesse: "O Plínio não estava em horário de trabalho", eu diria: "Tá bom". 

Não ia ter mais combustível para queimar. Entendeu? Mas ele levantou a bola. Ele disse: "Faz o seguinte, pede um esclarecimento". Pensei, opa, essa resposta está muito política. Nem sabia que, como cidadão, tinha esse poder de protocolar um pedido. Ia finalizar o vídeo, editar e postar o Melo. Estava com preguiça de fazer o resto. Mas pensei: "Estou aqui em Porto Alegre, cara, não vou perder por preguiça a continuação". Então resolvi fazer o resto. Mas jamais ia imaginar que acarretaria nisso. 

Inclusive, se puder dar a minha opinião pessoal, e isso não conta, acho que essa história está muito mal contada. Mesmo porque, no dia em que fui fazer o vídeo, antes de editar e pôr no ar, ele mesmo (Zalewski) tinha feito um ataque a minha página no Facebook. Está muito estranho isso. Tem uma pessoa que faleceu. Não sei qual o histórico de campanha em Porto Alegre, mas acredito que... Nossa, fiquei chocado quando fiquei sabendo. Que coisa estranha, olha o nível que chegou.

Mas como você chegou ao nome do Plínio, especificamente?
Agora ficaria fácil, porque é só dar um Google e aparecem milhares de coisas dele, mas é uma pesquisa. Esse foi o tiro que acertei, vamos dizer assim. Teve outros que errei e que não usei. Por exemplo, se encontrasse com a Luciana Genro, tenho folhas e folhas da Luciana Genro. Assim, a gente vai com uma bagagem, senão, perco a viagem. 

Daria muito mais sorte se tivesse encontrado a Luciana Genro, seria muito bom para mim, porque ela é um símbolo da esquerda. Mas encontrei o Melo e foi o Melo. Esse negócio do Plínio, vou ser sincero para você, achei que era nada, uma azeitona, e, depois do vídeo, recebi várias mensagens falando que era verdade, que ele era assessor da Assembleia Legislativa e realmente não aparecia para trabalhar. Mas a maior prova que tive foi o próprio Melo. 

Na hora em que falei para o Melo e ele me deu aquela resposta, falei: "Nossa". Achei que ele fosse tirar de letra, que fosse uma coisa irrelevante, que ele fosse falar: "Garoto, quem é você, você não sabe nada". Quando ele me deu aquela resposta, pensei: "Aqui tem coisa".

Tem se dito que haviam invadido o Facebook do Plínio e desferido ataques contra ele e a sua família.
Querendo ou não, o Facebook tem uma credibilidade absurda... A empresa do Mark Zuckerberg, muito do que eles cuidam é da proteção de dados. Se realmente tivesse acontecido, quem sou eu para falar, mas acho que seria um assunto inclusive internacional, não regional, de Porto Alegre. Se alguém tivesse invadido uma conta de Facebook de uma pessoa, então, realmente, estamos falando de hackers internacionais.

Você em momento algum desferiu ataques ou o perseguiu?
De jeito nenhum.

O vídeo está sendo apontado como um dos motivos de abalo psicológico de Plínio. Como você reage a isso?
Sinceramente, acho que a matéria de Zero Hora foi a mais sensacionalista, a que mais quis "linkar" uma coisa na outra. Acho que não tem a menor relação. Acho que sou muito pequeno para ter esse poder todo. Acho que vocês estão superestimando o meu poder, não tenho esse poder. Imagina. Isso não existe, uma pessoa se matar por causa de um vídeo. Isso não existe. Além do mais, estou achando esquisita essa história. Com certeza, acho que tem algum crime aí no meio. Mas isso vamos saber no futuro.

Não relacionei um fato ao outro, apenas disse que pessoas próximas a ele relataram que o vídeo o abalou muito, tanto que, no dia da publicação do vídeo, ele pediu exoneração da Assembleia.
Não fiquei sabendo disso. Isso é uma coisa que choca as pessoas. Quando recebi a notícia, pensei: "Não é possível o que está acontecendo". Você lê uma, duas, dez vezes e pensa: "Caramba, aconteceu mesmo". Tá louco, o negócio está complicado. Você fica com medo, triste, ansioso. 

Então, assim, estou muito ansioso para que haja investigação e para que realmente venha à tona o que realmente causou a morte dele. É uma tragédia. E muito mais ainda quando você tem uma nuvem de suspeitas no ar. Muito estranho mesmo. A gente fica ansioso para que haja investigação.

Em algum momento você acha que, no vídeo, passou do limite?
Não, acho que não. Fui lá e fiz uma pergunta. Perguntei. Foi só isso o que fiz.


 
 
 
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