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Como as redes sociais formam bolhas de radicalização e intolerância

Lógicas e algoritmos levam pessoas comuns a chegar até mesmo a atos extremos, como a invasão do plenário da Câmara nesta semana

Por: Letícia Duarte
18/11/2016 - 21h04min | Atualizada em 18/11/2016 - 21h21min
Como as redes sociais formam bolhas de radicalização e intolerância Fabio Rodrigues Pozzebom/ABR
Da mesa diretora da Câmara, manifestantes que se organizaram em redes sociais gritam pedidos de intervenção militar Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / ABR  

Num vídeo que viralizou na internet, uma das 50 manifestantes de direita que invadiram a Câmara dos Deputados na quarta-feira passada olha com expressão grave para a lente da câmera e diz, em tom de apocalipse:

— Preparem-se brasileiros, você, incauto, que ainda não se deu conta do que está acontecendo no Brasil, olha isso!

Ao apontar para um painel de celebração dos cem anos da imigração japonesa no Brasil como se fosse uma bandeira comunista e qualificá-la como "nojenta", a militante do grupo pró-intervenção militar, que tem entre suas causas a luta contra a "ditadura comunista", virou motivo de piada e memes nas redes sociais. Mas a natureza do protesto, que reuniu pessoas de diferentes Estados a partir de contatos virtuais e promoveu quebra-quebra no parlamento, suscita questões mais sérias.

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Em que medida a lógica das próprias redes e seus algoritmos contribui para radicalizar o comportamento de pessoas comuns, culminando em atos atípicos como esse em Brasília? Ao estimular a aproximação de usuários com pensamentos semelhantes, nossas timelines estariam nos empurrando para bolhas de polarização e intolerância?

Para Márcia Siqueira Costa Marques, professora do curso de Mídias Sociais Digitais do Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo, é preciso lembrar que as redes em si não são autônomas.

A inteligência artificial aprende e reproduz o comportamento humano com o objetivo de nos mostrar o que a gente gosta.

— Mesmo que tenhamos 2 mil amigos, a timeline não vai nos mostrar todos. Vai mostrar aqueles com que a gente mais interage dando likes, compartilhando, e, com isso, acaba fugindo da diversidade. Ficamos presos nas opiniões que fazem ecos a nossa, fechados nisso. Na rua, se você encontra uma pessoa com a qual não concorda, não tem como apertar um botãozinho e deletar, bloquear — analisa.

Na sua avaliação, uma das consequências desse estreitamento seria o aumento de casos de intolerância e racismo. Pessoas que antes poderiam ter pudores em manifestar uma opinião mais controversa ganham confiança ao encontrar outros com visões semelhantes, sendo encorajados a expressá-las.

— Se você é um idiota e percebe que tem um bando de idiotas ao seu redor, isso cria a ideia do "eu posso". Se tem muita gente pensando a minha ideia, então ela é válida — exemplifica.

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No texto "Considerações sobre a polarização", o escritor e jornalista de ciência Carlos Orsi reuniu dados de estudos internacionais que investigam o tema. Um deles, publicado em 2013 no Psychological Science, por exemplo, concluiu que as pessoas tendem a radicalizar-se quando acham que entenderam alguma coisa sobre determinado assunto — mesmo que não tenham entendido nada.

Na era em que notícias falsas e opiniões aleatórias disputam igual espaço nas redes com fontes de maior credibilidade, essa ilusão do entendimento só cresce — e os fanatismos também.

— Uma frase atribuída a Einstein diz assim: todo problema tem uma solução clara, simples e errada. E isso está acontecendo. As pessoas estão vendo soluções claras e simples, sem se darem conta do erro — compara, chamando atenção para outra constatação das pesquisas: pessoas que concordam moderadamente sobre determinado assunto, quando se reúnem para discutir, tendem a sair com pontos de vista mais extremados.

Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) do Rio de Janeiro e professor da ESPM Rio, chama atenção ao papel dos próprios veículos de comunicação tradicionais nesse cenário. Ao aparecerem nas notícias, grupos radicais como o que invadiu a Câmara ganham visibilidade e novos adeptos, o que reforça suas posições extremadas. O mesmo vale para o que cada um compartilha em suas redes.

— A economia da rede social é a atenção. E o que ganha atenção? O que você ama ou odeia. Se você lê uma notícia superinformativa e acha legalzinha, mas não interage, o algoritmo pensa que você não se importa. Aí, se você lê alguma declaração mais forte do (deputado Jair) Bolsonaro, tende a reagir. Então, a gente acaba indo para as bordas, o que é perfeito para os movimentos extremados — alerta.

Assim, mesmo quando você compartilha notícias que desaprova para criticá-las, contribuiu para aumentar o poder daquilo que condena.

— Sensacionalistas e extremistas tendem a criar mais ibope nas redes, é mais fácil reagir a uma publicação do Bolsonaro falando contra os gays do que a uma proposta de melhorias na educação — observa Steibel.

Por isso, o professor da ESPM aconselha aos que quiserem combater a intolerância a interagir mais com o "mundo dos vivos", conversando com pessoas diferentes nas ruas, para não cair no risco de se fechar na própria bolha. Outra dica é prestar maior atenção aos próprios likes, respirando antes de clicar o botão.

— Quando ver algo de que não gosta, ignore. É a única coisa que você pode fazer pela saúde do seu Facebook. Vá para a janela, grite, mas não informe o algoritmo, senão vai achar que você gostou — recomenda o diretor do ITS Rio.

 
 
 
 
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