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De torneiro mecânico a presidente da Câmara dos Deputados – sem contar as quatro vezes em que assumiu, interinamente, a Presidência da República. A trajetória ascendente do canoense Marco Aurélio Spall Maia (PT-RS) na política é manchada, há um ano, por suspeitas envolvendo a Lava-Jato. Segundo delatores da operação, o deputado federal, que está prestes a completar 51 anos de idade, faz parte de um esquema de cobrança de "pedágio" para preservar empreiteiros na CPI da Petrobras, da qual o parlamentar era relator.
Nesta segunda-feira, a casa do petista localizada em um condomínio de Canoas foi vasculhada pela Polícia Federal, que recolheu documentos – entre eles, rascunhos do Imposto de Renda –, em busca de provas para o processo que tramita desde maio no Supremo Tribunal Federal (STF).
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Com histórico semelhante ao do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Maia iniciou sua militância política no Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas, na década de 1980. Nos anos seguintes, foi, ainda, membro do Sindicato dos Metalúrgicos de Nova Santa Rita, da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, da Confederação Nacional dos Metalúrgicos e da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Filiado ao PT desde 1985, Maia concorreu à prefeitura de Canoas três vezes - em 1988, 2000 (foto abaixo) e 2004. Foi derrotado em todas. Em 2001, assumiu a Secretaria Estadual de Administração e Recursos Humanos durante o governo do petista Olívio Dutra. Em 2003, presidiu a Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre S.A. (Trensurb), Lula, outro correligionário, estava no comando do governo federal.
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Maia chegou ao Congresso em 2005, como primeiro suplente do deputado Ary Vanazzi (PT-RS), que renunciou para assumir a prefeitura de São Leopoldo. Desde então, teve uma ascendência relâmpago na Câmara. Após se eleger deputado federal em 2006, ganhou projeção ao ser indicado relator da CPI do Apagão Aéreo, que investigou o acidente entre um Boeing da Gol e um jato Legacy, que matou 154 pessoas em 29 de setembro daquele ano.
Homem de confiança de Lula, conquistou espaço dentro do PT por ser ligado à corrente majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB) – mesmo grupo do ex-ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e do ex-dirigente petista José Dirceu. Essas relações colaboraram para que chegasse à Presidência da Câmara.
Em 17 de dezembro de 2010, assumiu o posto interinamente após a renúncia de Michel Temer para assumir a vice-presidência da República no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Em fevereiro do ano seguinte, concorreu à reeleição como presidente da Câmara, vencendo com 357 votos Sandro Mabel (PMDB-GO), que teve 106 votos, Chico Alencar (PSOL-RJ) com 16 votos, e Jair Bolsonaro (PSC-RJ) que teve nove votos.
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Durante os dois anos que Maia ficou no comando, a Câmara aprovou projetos polêmicos como o Estatuto da Juventude, que tramitava na Casa há mais de sete anos; o polêmico Novo Código Florestal, envolvendo interesses controversos de agricultores e ambientalistas; a Lei Geral da Copa, que definiu as regras para a realização do Mundial de 2014 no Brasil; o projeto que endureceu as punições da Lei Seca; e a distribuição dos royalties do Petróleo.
Durante os dois anos que ficou à frente da Câmara, Maia assumiu interinamente a Presidência da República por quatro vezes. É lembrado, inclusive, por ser o primeiro interino a convocar uma coletiva de imprensa para anunciar o mandato temporário. Foi em março de 2013, quando o governo travava disputa política com o Congresso Nacional para que projetos fossem votados.
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– Vou recomendar que a presidenta Dilma e o vice-presidente Temer viajem bastante – brincou à época. - Qualquer brasileiro gostaria de passar por essa experiência.
Dentre os projetos pautados, um dos que mais irritou a Presidência, segundo uma fonte do Planalto, foi o que reduz a carga horária dos enfermeiros para 30 horas semanais. A proposta não chegou a ser votada.
Na mira da Lava-Jato
Marco Maia foi reeleito deputado em 2004, 2010 e 2014. Foi durante o atual quarto mandato que seu nome começou a aparecer nas delações premiadas de figuras como o ex-senador Delcídio Amaral, o ex-consultor da Toyo Setal Julio Camargo e o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro.
Todos eles relataram que o petista, enquanto relator da CPMI da Petrobras na Câmara, fazia parte de um esquema de cobrança de “pedágio” para blindar empreiteiros. Em troca de dinheiro, livraram os empresários de irem depor na comissão.
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O pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) foi aceito pelo STF em maio deste ano, tornando Maia o primeiro nome do PT gaúcho investigado no âmbito da Lava-Jato no Supremo. Essa investigação que culminou nas buscas à sua casa, em Canoas, nesta segunda-feira.
Maia classificou como "exagerada" a ação da Polícia Federal. Por telefone, disse que está em Brasília, onde passou o final de semana participando de um encontro do PT. Ele nega as acusações de que tenha cobrado pedágio. O petista afirma que os delatores que o acusam de irregularidades fizeram isso porque foram citados em seu relatório da CPMI e estariam se vingando. Disse, ainda, que pretende consultar a área jurídica e a bancada do partido antes de se manifestar oficialmente.