Operação Lava-Jato

Como o governo Lula teria ajudado a Odebrecht a comprar a Ipiranga

Auxílios para campanhas contribuíram para a privatização da petroquímica, afirma delator

18/04/2017 - 22h00min | Atualizada em 18/04/2017 - 22h03min
Como o governo Lula teria ajudado a Odebrecht a comprar a Ipiranga Divulgação/Divulgação
Negócio fechado em 2007 permitiu à Braskem controle de ativos no polo petroquímico de Triunfo, no Estado Foto: Divulgação / Divulgação  

Maior negócio realizado no país até então, a venda do grupo gaúcho Ipiranga em 2007 teria passado por acertos de bastidores que incluíram compromissos assumidos pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci com a Odebrecht. Desde antes da eleição de 2002 haveria a garantia de que um futuro governo do PT não impediria a privatização e a concentração da petroquímica no país. Relatos sobre esse episódio estão nos depoimentos do empresário Emílio Odebrecht e do ex-diretor de relações de institucionais da empresa Alexandrino de Alencar a procuradores da Lava-Jato.

Emílio narra que, antes da chegada de Lula ao Planalto, a empresa temia que um governo petista voltasse a reforçar o papel da Petrobras na petroquímica, setor que passaria a ser prioridade da companhia. O empresário conta que, em reunião em 2001, Lula teria assegurado que não haveria retrocesso na privatização. Segundo Emílio, se a posição de Lula fosse diferente, a intenção seria não autorizar contribuições do grupo para a campanha petista no ano seguinte. Mas ele não afirma que, neste encontro, teria condicionado ajuda financeira ao compromisso.

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Seis meses depois, Lula teria pedido contribuição para a corrida eleitoral e indicado que Palocci trataria do assunto. Pela empresa, o interlocutor seria Pedro Novis, na época presidente da Odebrecht e hoje também delator.

O problema, relata Emílio, é que, ao contrário do indicado por Lula, nos anos seguintes a Petrobras, comandada por José Eduardo Dutra e depois por José Sergio Gabrielli, continuava tentando avançar na petroquímica. Enquanto isso, a Odebrecht, que investia no ramo desde 1979 e, em 2002, criou a Braskem, pretendia que a estatal fosse apenas fornecedora de matéria-prima (nafta, um derivado de petróleo) e sócia minoritária de empresas privadas no negócio – não uma concorrente. Em várias reuniões com o governo, relata o empresário, Lula reafirmava o compromisso e teria garantido que a Braskem seria ouvida em decisão que afetassse seus interesses.

Um dos episódios em que teria ocorrido intervenção de Lula foi em 2005, quando o então presidente teria agido para que a Petrobras, por meio do seu braço no segmento, a Petroquisa, não comprasse a Ipiranga Petroquímica (IPQ) – um dos negócios do grupo gaúcho, que também tinha postos de combustíveis e uma pequena refinaria.

A Braskem tinha unidades no polo petroquímico de Triunfo, assim como a IPQ, e as duas, com a Petroquisa, eram sócias na Copesul, central de matérias-primas do complexo. Se a Petroquisa adquirisse a IPQ, também controlaria a operação mais importante do polo.

– Ficaríamos capengas na Copesul e isolados em Camaçari (sede do polo petroquímico baiano). Do ponto de vista de estratégia de negócios e logística, seria um desastre – diz Emílio em um dos vídeos gravados com sua delação.

O empresário conta que esteve com Lula "para alertá-lo dessas manobras e a Petrobras acabou por não adquirir a Ipiranga, o que permitiu, em 2007, à Braskem, adquirir os ativos petroquímicos do grupo Ipiranga", narra em um dos anexos de seus depoimentos.

Compromisso para barrar a ambição da Petrobras

Embora não cite conversas mais explícitas sobre troca de contribuições por ajuda à empresa, Emílio Odebrecht diz compreender que o auxílio para as campanhas contribuiu para a continuidade da privatização da petroquímica e para que decisões do governo fossem "coincidentes" com os interesses da Braskem.

Alexandrino de Alencar faz relato mais incisivo. O executivo não situa a data, mas afirma que "antes do primeiro mandato de Lula" se encontrou com o então candidato e Antonio Palocci no apartamento de Pedro Novis, em São Paulo. Emílio também estaria presente.

"Na oportunidade, deixamos claro ao candidato Lula que o setor petroquímico era prioritário para a Odebrecht, considerada 'a joia da coroa' para o grupo", relatou Alexandrino.

Um dos motivos seria o fato de o setor exigir muitos investimentos. Diante disso, o apoio financeiro expressivo à campanha estava condicionado ao compromisso, caso Lula fosse eleito, de que o setor de fato passasse de forma efetiva às mãos da iniciativa privada. Lula teria concordado, "assumindo o compromisso com a Organização Odebrecht", afirma em outra passagem. Conforme Alexandrino, os pedidos para que a Petrobras não tentasse ser protagonista na área eram encaminhados a Palocci.

Alexandrino lembra o episódio da Ipiranga. Relata que, em 2006, a Odebrecht usou sua influência para barrar os planos da Petrobras. "A solução encontrada pela companhia foi incluir o assunto na pauta das reuniões com o presidente Lula e Antonio Palocci, para que nos auxiliassem a convencer a Petrobras a adquirir a Ipiranga em parceria conosco e com o grupo Ultra, o que efetivamente ocorreu a partir de 2007", diz um dos anexos do depoimento do executivo com forte atuação no Estado.

No mesmo ponto, Alexandrino prossegue afirmando que, como contrapartida ao apoio de Lula e Palocci, afirma ter conhecimento "de relevantes doações em 2002 e 2006 a Palocci". Em 2006, lembra Alexandrino, foram US$ 650 mil à campanha do ex-ministro, afirmando terem sido feitos provavelmente por caixa 2 por serem valores bem acima do que a Odebrecht costumava contribuir para candidatos a deputado federal.

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CONTRAPONTOS

- Luiz Inácio Lula da Silva e Antonio Palocci:
Zero Hora não teve retorno da defesa de Palocci e do Instituto Lula sobre as afirmações dos dois delatores.

- Emílio Odebrecht:
"Hoje compreendo que a nossa presteza e o nosso volume de pagamentos feitos a pretexto de contribuição para campanhas eleitorais, além da nossa confiança estabelecida há mais de 12 anos à época, contribuíram para a continuidade da privatização do setor petroquímico e nas decisões que tanto o ex-presidente Lula quanto outros integrantes do quadro do PT tomaram durante a sua gestão, que foram coincidentes com nossos interesses e fundamentais para o crescimento e consolidação da Braskem", disse Emílio, patriarca da Odebrecht, em depoimento à Lava-Jato.

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O que a Braskem queria

Que o governo petista permitisse a continuidade do processo de concentração – com menos empresas, de maior porte – no setor petroquímico, por mãos privadas, com a criação de dois grandes grupos nacionais. Um seria a Braskem. O outro poderia ser a Suzano, que também atua em celulose e papel.

Para isso, era necessário que a Petrobras assumisse papel secundário. Continuaria apenas como sócia minoritária das empresas do segmento. A Petrobras é importante por ser a única fornecedora no país de nafta, matéria-prima para eteno e propeno, principais insumos da primeira etapa da produção de plástico.

A Braskem não queria a Petrobras como concorrente porque teria a estatal como sócia, fornecedora e concorrente no setor. No processo de concentração, a Braskem se tornou quase um monopólio no Brasil.

Como foi a aquisição do grupo Ipiranga

O valor do negócio foi de US$ 4 bilhões, maior do país até então.

À época, a Ipiranga tinha faturamento superior a R$ 30 bilhões (na época, cerca de US$ 15 bilhões).

A Braskem ficou com as unidades petroquímicas. Com isso, assumiu o controle da Copesul, que tinha o grupo gaúcho como acionista.

A Petrobras ficou com os postos de combustíveis do Centro-Oeste, Norte e Nordeste do país.

A Ultrapar ficou com a rede de distribuição e a bandeira Ipiranga nos postos do Sul e do Sudeste.

A refinaria de Rio Grande, que era da Ipiranga, foi repartida entre Braskem, Ultrapar e Petrobras.

 
 
 
 
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