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O presidente Michel Temer afirmou que alguns ministros podem se sentir desconfortáveis e deixar voluntariamente o governo, tendo em vista as revelações das delações da Odebrecht, que colocaram oito ministros de seu governo como alvos de inquéritos autorizados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin. A afirmação foi feita em entrevista concedida à Rádio Jovem Pan, na manhã desta segunda-feira.
Temer reforçou, no entanto, que só vai afastar temporariamente os ministros quando houver denúncia formal do Ministério Público. Já o afastamento definitivo só acontecerá no caso de os citados se tornarem réus.
– Não vou demitir simplesmente porque alguém falou, é preciso provas robustas. Se vier a denúncia, não significa culpabilidade completa, mas terá fortíssimas indicações de que essa delação é correta – disse.
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O presidente ainda disse acreditar que dificilmente as eventuais denúncias vão demorar para serem apresentadas.
– A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) está entrando com representação hoje (segunda-feira) para acelerar as investigações. Por isso, não creio que as denúncias venham só no ano que vem. Acho que virão rápido. E o governo está interessado em que tudo seja feito da forma mais rápida possível – afirmou.
Temer também admitiu que de fato as delações são estarrecedoras e preocupantes, principalmente porque transmitem uma imagem ruim do Brasil para o exterior.
– Sob esse ponto de vista é péssimo.
Temer destacou que o país precisa seguir em frente.
– O Brasil não pode parar. Temos reformas pela frente. Então (as delações) são estarrecedoras, mas não podem ser fator de paralisia. Agora precisamos deixar o Judiciário trabalhar – reforçou o presidente.
Sobre um possível acordão para paralisar com a Operação Lava-Jato entre ele e os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, Temer negou mais uma vez sua participação em qualquer pacto desse tipo.
– Não tem conversa na direção de um possível acordão, FHC já negou. Fazer acordão para problema que está no Judiciário é inviável. Não participo e nem promovo – disse.
Reforma da Previdência
O presidente Michel Temer admitiu que, devido às mudanças no projeto de revisão da Previdência enviado ao Congresso, talvez seja necessário fazer uma nova reforma em 10 ou 15 anos. O projeto como concebido pelo governo era para durar de 30 a 40 anos, mas pode ser necessária uma nova reformulação em período menor.
Mas o presidente reafirmou que a reforma da Previdência será aprovada e que as adaptações são necessárias e são fruto da negociação com o Congresso. Ele ainda reforçou que as mudanças no projeto original não significam recuo.
Temer reconheceu, na entrevista, que o país vive um momento difícil por causa do conteúdo das delações da Odebrecht e aos inquéritos autorizados pelo STF, mas afirmou que seu governo está mobilizado para dar resposta positiva para o Brasil.
– Lava-Jato faz seu trabalho, mas, na cabeça de alguns, pode indicar paralisia do país. Mas todo o governo está mobilizado.
Diante de perguntas sobre as dificuldades enfrentadas também no âmbito econômico, o peemedebista disse que assumiu o país depois de um "episódio traumático", o impeachment, e durante uma forte recessão.
O presidente então enumerou conquistas econômicas alcançadas em quase um ano de governo, como a aprovação da PEC do Teto, e voltou a citar a queda da inflação.
– Brasil tinha 10% inflação e até o final do ano estará abaixo do centro da meta.
Ele ainda garantiu que a reforma trabalhista será aprovada, principalmente porque foi resultado do diálogo entre trabalhadores e funcionários.
O presidente ainda rebateu a ideia de uma nova constituinte devido ao escândalo de corrupção, já que, segundo ele, as instituições estão funcionando normalmente. Ele, no entanto, defendeu uma reforma política.
– O que vale é uma reforma política, que sairá invariavelmente e é fundamental para o país – disse.
*Estadão Conteúdo