Delação da Odebrecht 

Uma reunião e quatro versões: Temer, Cunha e delatores divergem sobre propina de US$ 40 milhões

Não há consenso sobre o conteúdo de encontro em escritório político do presidente Michel Temer, em São Paulo

Por: Fábio Schaffner
18/04/2017 - 20h39min | Atualizada em 18/04/2017 - 21h07min

No cipoal de ações criminosas revelado nas delações da Odebrecht, o episódio mais intrigante detalha a presença do então candidato a vice-presidente Michel Temer em reunião na qual teria sido acertado pagamento da maior propina confessada no esquema. Para "abençoar" o repasse de US$ 40 milhões à cúpula do PMDB em troca de contrato bilionário com a Petrobras, dois executivos da empreiteira dizem ter sido convidados a conhecer pessoalmente Temer antes de autorizar o pagamento.

O encontro ocorreu em 15 de julho de 2010, no escritório político de Temer, em São Paulo. Embora ele não possa ser investigado por fatos anteriores ao mandato presidencial, a narrativa da reunião é a que mais o compromete em todos os depoimentos prestados pelos funcionários da Odebrecht. O presidente admitiu ter recebido os executivos, segundo ele a pedido do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), mas nega ter tratado de "contratos ou negócios escusos". Da cadeia, em Curitiba, Cunha rebateu a versão, afirmando que foi o próprio Temer quem agendou o encontro.

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Tal reunião já havia sido citada por Cunha em novembro, ao invocar Temer como sua testemunha de defesa. Na ocasião, ele submeteu ao juiz Sergio Moro 41 perguntas a serem feitas ao presidente. A trigésima quarta, indeferida pelo juiz, dizia: "Vossa Excelência tem conhecimento se houve alguma reunião sua com fornecedores da área internacional da Petrobras com vistas a doação de campanha para as eleições de 2010, no seu escritório político (...), juntamente com o Sr. João Augusto Henriques?"

O motivo para o encontro seria um contrato no valor de US$ 825,6 milhões entre a Odebrecht e a Petrobras. Gerenciado pela Diretoria Internacional da estatal, controlada pelo PMDB, o negócio envolvia serviços de segurança e meio ambiente em 10 países. Nas delações, Rogério Araújo, lobista da Odebrecht na Petrobras, e Márcio Faria, ex-presidente Odebrecht Engenharia Industrial, dizem que o contrato estaria condicionado a uma propina de 5% sobre o valor do negócio. O percentual teria sido exigido a Araújo por Cunha e o lobista João Augusto Henriques, operador do PMDB.

— Foi a solicitação mais ruidosa. O Rogério falou: "O projeto só vai voar com isso". Falei: "Vamos em frente, paciência, vamos pagar" — descreve Faria.

No depoimento, o executivo cita o endereço do escritório, a posição exata em que cada pessoa teria se sentado à mesa — Temer à cabeceira — e relata como foi tratado com informalidade pelo candidato que recém conhecera. Ao ser questionado sobre a convivência com Dilma Rousseff, cuja fama era de "muito complicada", Temer teria dito que qualquer problema seria resolvido por Cunha e pelo deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que segundo os relatos também estava presente. Mas ele nega.

— Pode deixar que ela vem e fica aqui — teria respondido Temer, apontando o próprio colo.

Faria sustenta que durante toda a reunião não se falou sobre valores. Contudo, Cunha teria feito uma explanação sobre como o contrato vinha sendo conduzido e que iria render uma "contribuição muito importante ao partido". O executivo diz ter consentido, afirmando que estava ali para "abençoar esse compromisso." No depoimento gravado em vídeo, o procurador pergunta a Faria se estava claro que a "contribuição era propina, era vantagem indevida":

— Totalmente vantagem indevida, doutor, porque era um percentual em cima de um contrato — responde o executivo.

O que dizem os personagens do encontro

Rogério Araújo (delator)
-Afirma que a reunião foi marcada a seu pedido pelo lobista João Augusto Henriques para garantir "o engajamento do PMDB". Admite que não se tratou de valores, mas estava claro se tratar de propina.

Márcio Faria (delator)
-Diz que foi chamado à reunião para "abençoar o compromisso" em razão do elevado valor do contrato e da propina. Admite que não se falou de cifras, mas estava claro se tratar de propina.

Michel Temer
-Admite a reunião, que teria sido agendada por Eduardo Cunha, mas diz que "a conversa, rápida e superficial, não versou sobre valores ou contratos na Petrobras".

Eduardo Cunha
-Admite a reunião, mas diz que foi "agendada diretamente" por Michel Temer, tendo ocorrido após almoço no restaurante Senzala, estabelecimento vizinho ao escritório político do peemedebista.

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