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As "previsões" de Jucá e Sergio Machado: há um ano, governo Temer enfrentava primeira crise

Divulgação de gravação resultou na queda do então ministro do Planejamento, Romero Jucá, que falava em "estancar sangria" da Lava-Jato 

23/05/2017 - 18h11min | Atualizada em 24/05/2017 - 07h41min
As "previsões" de Jucá e Sergio Machado: há um ano, governo Temer enfrentava primeira crise José Cruz / Agência Brasil/Agência Brasil
Foto: José Cruz / Agência Brasil / Agência Brasil  

Em maio de 2016, o governo Michel Temer vivia a sua primeira crise política com a divulgação da conversa entre o então ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB-RR), e o ex-presidente da Transpetro Sergio Machado, um dos delatores da Operação Lava-Jato. A gravação, que veio à tona 12 dias após Temer tomar posse como presidente interino, sugeria articulação para conter a Operação Lava-Jato, tendo como uma das estratégias o impeachment de Dilma Rousseff.

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Um dia após o jornal Folha de S.Paulo divulgar o áudio, Jucá pediu demissão do cargo. Foi a primeira baixa do governo Temer. Os diálogos entre o senador e Machado, que somam uma hora e 15 minutos, ocorreram em março de 2015, poucos dias antes da aprovação da abertura do processo de impeachment de Dilma na Câmara dos Deputados. Trechos da conversa viraram estampa de camisetas em protestos e há quem diga que o roteiro vem sendo cumprido à risca.

Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a abertura de inquérito para investigar Temer e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) por corrupção passiva, obstrução à Justiça e organização criminosa. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), eles teriam agido em conjunto para impedir avanço da Lava-Jato. Exatamente como o "previsto" por Jucá.

Confira trechos do diálogo entre Jucá e Machado, com desfechos um ano depois:

Impeachment de Dilma
SÉRGIO MACHADO - Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima.
ROMERO JUCÁ - Eu ontem fui muito claro. [...] Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está.
[...]
MACHADO - Tem que ter um impeachment.
JUCÁ - Tem que ter impeachment. Não tem saída.
MACHADO - E quem segurar, segura.

Desfecho: Com 367 votos favoráveis, 137 contrários e sete abstenções, a Câmara dos Deputados aprovou, em 17 de abril de 2016, o relatório pró-impeachment e autorizou o Senado Federal a julgar a ex-presidente da República, Dilma Rousseff, por crime de responsabilidade. Dilma foi afastada em maio e teve o mandato cassado pelos senadores em agosto do ano passado.

Delações em voga
MACHADO - Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar.
JUCÁ - Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer.
MACHADO - Odebrecht vai fazer.
JUCÁ - Seletiva, mas vai fazer.
MACHADO - Queiroz [Galvão] não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que... O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho.

Desfecho: Homologadas em janeiro de 2017, as delações de 77 executivos da Odebrecht — incluindo a do ex-presidente Marcelo Odebrecht, preso desde 2015 — citam como beneficiários ou participantes das engrenagens do esquema de corrupção pelo menos 415 políticos (entre eles o próprio Jucá) e 26 partidos.

Freio na Lava-Jato
JUCÁ - Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. [...] Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra... Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.
[...]
MACHADO - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ - Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha'. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ - Com o Supremo, com tudo.
MACHADO - Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ - É. Delimitava onde está, pronto.
[...]
MACHADO - O Renan [Calheiros] é totalmente 'voador'. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não.
JUCÁ - Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem.

Desfecho: Na semana passada, o STF autorizou abertura de inquérito para investigar o presidente Michel Temer e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) por corrupção passiva, obstrução à Justiça e organização criminosa. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), eles teriam agido em conjunto para impedir avanço da Lava-Jato.

Sob o governo Temer, a Polícia Federal reduziu a equipe destacada para a força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba, e contingenciou 44% do orçamento de custeio previsto para 2017. O número de delegados destacados para força-tarefa caiu de nove para quatro.

Preso desde outubro de 2016, o deputado cassado Eduardo Cunha foi condenado pelo juiz Sergio Moro, em março, a 15 anos e 4 meses de reclusão. Na delação premiada da JBS, o empresário Joesley Batista disse que Temer deu aval a uma operação para comprar o silêncio de Cunha.

O esquema de Aécio
MACHADO - A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado...
JUCÁ - Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com...
MACHADO - Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já.
JUCÁ - Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador].
MACHADO - Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu?
JUCÁ - Também. Todo mundo na bandeja para ser comido.
[...]
MACHADO - O primeiro a ser comido vai ser o Aécio.
JUCÁ - Todos, porra. E vão pegando e vão...
MACHADO - [Sussurrando] O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? [Mudando de assunto] Amigo, eu preciso da sua inteligência.
JUCÁ - Não, veja, eu estou à disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar.
[...]
MACHADO - É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma...
JUCÁ - Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.
MACHADO - O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...
JUCÁ - É, a gente viveu tudo.

Desfecho: Na semana passada, Aécio Neves foi alvo da Operação Patmos, deflagrada pela PF. O tucano foi afastado do cargo pelo ministro do STF Edson Fachin. Além disso, o Supremo autorizou abertura de inquérito para investigar o senador afastado por corrupção passiva, obstrução à Justiça e organização criminosa. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), ele teria agido para impedir avanço da Lava-Jato. Andrea Neves, irmã de Aécio, e um primo do tucano foram presos preventivamente pela PF.

Pacto
JUCÁ - [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem 'ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca'. Entendeu? Então... Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.
MACHADO - [...] Tem que ter uma paz, um...
JUCÁ - Eu acho que tem que ter um pacto.
[...]
MACHADO - Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki, relator da Lava Jato], mas parece que não tem ninguém.
JUCÁ - Não tem. É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou, um cara... Burocrata da... Ex-ministro do STJ [Superior Tribunal de Justiça].

Desfecho: O então relator da Lava-Jato no STF, Teori Zavascki, morreu em um acidente aéreo em janeiro, em Parati (RJ). Quatro meses após a queda do avião, a Força Aérea Brasileira ainda não concluiu a investigação do caso. Na semana passada, em um post publicado no Facebook, apagado logo depois, o filho do ex-ministro do STF, Francisco Prehn Zavascki, acusou o PMDB de tentar barrar a Operação Lava-Jato a qualquer custo. "Derrubaram a Dilma e assumiu o Temer. Do que eles são capazes? Será que só pagar pelo silêncio alheio? Ou será que derrubar avião também está valendo?", postou.

 
 
 
 
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