Explosão arrasadora

Delação da JBS abala três partidos de uma só vez

Colaboração premiada colocou governo de Michel Temer em xeque, arruinou carreira de Aécio Neves e jogou novas suspeitas sobre o PT

18/05/2017 - 18h47min | Atualizada em 18/05/2017 - 20h41min
Delação da JBS abala três partidos de uma só vez Montagem sobre fotos de Alan Santos (Palácio do Planalto), Pedro França (Agência Senado) e Marcelo Camargo (Agência Brasil)/
Temer, Aécio e Mantega Foto: Montagem sobre fotos de Alan Santos (Palácio do Planalto), Pedro França (Agência Senado) e Marcelo Camargo (Agência Brasil)  

Devastadora a ponto de prender a respiração do país, a delação premiada dos donos da JBS colocou o governo do presidente Michel Temer em xeque-mate e arruinou a carreira política do tucano Aécio Neves, que conquistou 51 milhões de votos no segundo turno da eleição presidencial de 2014.

Em uma tacada, PMDB e PSDB receberam os mais duros golpes de suas histórias. O presidente da República foi gravado dando aval à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Aécio, já afastado do mandato de senador e da presidência do PSDB, pediu R$ 2 milhões a Joesley Batista, da JBS, o que também foi registrado em áudio. 

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O PT, embora tenha sentido gosto de vingança com as revelações que fazem balançar o ex-aliado e atual inimigo Temer, também sofrerá implicações: a JBS afirmou na colaboração, firmada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), que distribuía dinheiro ilícito a parlamentares petistas por intermédio do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. E a ex-presidente Dilma Rousseff teria solicitado o repasse de R$ 30 milhões à campanha de Fernando Pimentel (PT) ao governo de Minas Gerais, em 2014.

Não à toa, Cunha teria dito, da prisão, que "se a JBS delatar, será o fim da República". De fato, a revelação explodiu arrasadora contra os três maiores partidos políticos brasileiros. Depois do fim da ditadura, à exceção de Fernando Collor, somente PMDB, PSDB e PT governaram o país.

Homologada nesta quinta-feira pelo ministro Edson Fachin, relator da operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), a delação premiada da JBS é ainda um terreno a ser desbravado, com expectativa de divulgação dos vídeos, áudios e outros conteúdos de ações criminosas relatadas pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, a maior produtora de proteína animal do mundo.

Outros parlamentares e líderes políticos que receberam propina serão conhecidos e novas legendas, comprometidas. O caso deverá sair da esfera de Brasília e atingir também homens públicos de expressão regional. Na lista dos beneficiados por dinheiro ilícito, estaria pelo menos um deputado estadual do Rio Grande do Sul.

A exemplo do que aconteceu com diversas companhias privadas de grande porte, as benesses distribuídas pela JBS nos altos gabinetes do poder serviam para conquistar vantagens de mercado. O deputado federal Rocha Loures (PMDB-PR), também afastado do cargo, foi indicado por Temer para supostamente resolver um tema de interesse da indústria. Em troca, recebeu propina. Joesley afirmou na delação que devia R$ 20 milhões a Cunha por conta da tramitação de projeto sobre desoneração tributária do frango. Assim funcionava a engrenagem da corrupção.

Acordo livraria irmãos Batista da pena de prisão

As informações disponíveis até o momento indicam que o acordo feito entre os irmãos Batista e a PGR os livrará da prisão. Como tomaram a iniciativa de colaborar, eles conseguiram negociar rapidamente condições favoráveis. Pelas informações apresentadas por ambos, a PGR poderá deixar de denunciá-los. A tendência é de que possam permanecer à frente dos negócios da família. Para desfrutar da liberdade, os Batista terão de pagar uma multa superior aos R$ 200 milhões, além de delatar todos os negócios ilícitos da JBS. Nos bastidores, a avaliação é de que o acordo dos irmãos foi melhor do que o de Marcelo Odebrecht, que terá de cumprir cerca de 10 anos de prisão, entre os regimes fechado e domiciliar.

É provável que a delação seja desmembrada no futuro pelo ministro Fachin. Políticos que perderem o foro privilegiado poderão ter os seus casos remetidos à primeira instância. O juiz Sergio Moro, de Curitiba, costuma herdar os processos relativos à corrupção na Petrobras — caso de Cunha. Episódios narrados pela JBS, que lida com a indústria alimentícia, e não petróleo, poderão acabar nas justiças federais do Distrito Federal e de Minas Gerais, mas a decisão caberá a Fachin.


 
 
 
 
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