Indústria sob holofotes

JBS vai de alvo da Operação Carne Fraca a delatora da Lava-Jato em dois meses

Fatos que encurralam o governo de Michel Temer evidenciam pressão sobre a empresa

18/05/2017 - 16h06min | Atualizada em 18/05/2017 - 19h03min
JBS vai de alvo da Operação Carne Fraca a delatora da Lava-Jato em dois meses ERNANI OGATA/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
Foto: ERNANI OGATA / CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO  

Acossada por ruidosas operações policiais nos últimos meses, a JBS, maior produtora de proteína animal do mundo, buscou o caminho menos doloroso e fechou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) no âmbito da Lava-Jato para entregar aos investigadores os caminhos dos esquemas de favores e propinas entre a empresa e políticos responsáveis por liderar o país.

Os fatos que chocam o Brasil e encurralam o governo de Michel Temer clarificam o quadro de pressão sobre a JBS, que começou a ganhar traços mais fortes no dia 17 de março, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Carne Fraca.

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Naquela data, indústrias alimentícias brasileiras, sendo a JBS a mais vistosa delas, ganharam manchetes do mundo sob a suspeita de levarem ao consumidor produtos de baixa qualidade e com burla de normas, contando com a vista grossa de fiscais corrompidos do Ministério da Agricultura e suas superintendências regionais.

A sede da investigação da Operação Carne Fraca foi a superintendência da Polícia Federal do Paraná, a mesma responsável pelo pontapé inicial da Lava-Jato, nos idos de março de 2014.

Um delegado "linha de frente" que participou das duas operações assegurou, na manhã desta quinta-feira (18), que não há relação entre a Carne Fraca e a delação premiada da JBS que faz a República balançar. Existem explicações técnicas para isso. Os focos das devassas são diferentes. Na Carne Fraca, foram apuradas questões relativas à qualidade dos produtos alimentícios e à corrupção de fiscais. Outras indústrias foram implicadas, parte delas com acusações mais severas de adulteração da composição de produtos cárneos.

Já a delação da Lava-Jato envolve a relação com poderosos políticos, distribuição de propinas e obtenção de favores maiores, que não dependem de meros fiscais, mas de líderes políticos do Executivo e do Legislativo, além de nomes do Judiciário.

Um dos donos da JBS, Joesley Batista afirmou no acordo que devia R$ 20 milhões ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atualmente preso no Paraná, como retribuição pela tramitação de lei sobre desoneração tributária do frango. São de fatos dessa dimensão que trata a delação.

Há outro fator de ordem jurídica. A Carne Fraca tramitou na chamada primeira instância, não envolvia pessoas com o foro privilegiado. Já o acordo de colaboração foi negociado diretamente em Brasília, na Procuradoria-Geral da República e, depois, no Supremo Tribunal Federal, esferas responsáveis por denúncias e processos contra autoridades.

A Operação Carne Fraca também perdeu força após um contragolpe, liderado pelo governo federal e indústria, conseguir apontar pontos falhos na investigação. De outro lado, a delação ligada à Lava-Jato explodiu a ponto de deixar em segundo plano as revelações da Odebrecht, que até então ostentavam o posto de mais letais da história do país.

Um terceiro elemento também ajuda a fechar o cerco sobre a JBS: a Operação Bullish, deflagrada no dia 12 maio para apurar a suspeita de que a gigante do setor de carnes foi favorecida em empréstimos obtidos junto ao BNDES entre 2007 e 2011. Nesse caso, a devassa subiu aos andares hierárquicos superiores e as residências dos irmãos Joesley e Wesley Batista foram alvos de buscas, por ordem da Justiça Federal do Distrito Federal.

 
 
 
 
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