De olho em 2018

"O Brasil é vítima de tremendo corporativismo", diz Alckmin

Assumindo postura de candidato, governador de São Paulo afirma que é favor de prévias para escolha de concorrente tucano à Presidência 

Por: Fábio Schaffner e Rosane de Oliveira
11/08/2017 - 21h00min | Atualizada em 11/08/2017 - 21h04min
"O Brasil é vítima de tremendo corporativismo", diz Alckmin Lauro Alves/Agencia RBS
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS  

Se outro tucano quiser se candidatar a presidente da República em 2018, terá de disputar uma prévia com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. De passagem pelo Rio Grande do Sul nesta sexta-feira, Alckmin assumiu postura e discurso de candidato, com fortes críticas ao corporativismo público e privado, e confirmou que o nome do PSDB ao Palácio do Planalto será conhecido até o final do ano, por consenso ou disputa interna.

Em visita ao Grupo RBS, pregou o combate aos privilégios e defendeu as reformas política, previdenciária e tributária para o Brasil voltar a crescer. 

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O senhor tem falado bastante que o Brasil precisa do novo para o futuro do país. O que seria o novo?

Entendo que há uma aspiração pela mudança. O novo não é a idade, também não é não ter sido candidato. O novo é a defesa do interesse coletivo. Nas últimas décadas, o Brasil acabou vítima de um tremendo corporativismo, foi dominado pelas corporações do setor público e privado. É preciso enfrentar isso.

Como se enfrenta um corporativismo tão enraizado no Estado?

Com reformas estruturantes e mudança de mentalidade. Mario Covas dizia: "O povo erra menos do que as elites. Precisa ter todas as informações". Então cabe a nós informar, informar, informar. Mostrar a gravidade da situação que o país passa, principalmente na questão fiscal. Tivemos um populismo destrutivo que levou a um déficit gigantesco, a uma recessão de três anos. É preciso trabalhar com foco no emprego e renda. O país precisa de eficiência e competitividade, fazer reformas e trazer investimentos. Aqui em Porto Alegre, falei sobre a nossa experiência em São Paulo com concessões e parcerias público-privadas: aeroportos, rodovias, trens, água, habitação. O governo não tem como ser provedor de tudo, não tem dinheiro. E não há crescimento sem investimento, então é importante a participação privada, com bons marcos regulatórios e fiscalização.

Essa é a receita se o senhor for eleito presidente?

O Brasil precisa de infraestrutura. Imagina a soja do norte do Mato Grosso ter de vir a Paranaguá (PR) ou a Santos (SP) para ir ao norte do mundo, sendo que está do lado do Pará, do Rio Tapajós, do porto de Miritituba. Só que no Carnaval havia uma fila de 3 mil caminhões porque não se conseguia passar na BR-163. Então precisamos de logística, investimento em ferrovia, rodovia, aeroporto. Defendo política fiscal dura, responsável, com espaço para investimento público e atração de investimento privado, porque com bons projetos e segurança jurídica você gera muito emprego.

Como será a escolha do candidato do PSDB à Presidência?

Defendo as prévias.

O senhor acredita que o prefeito João Doria vai chegar às prévias ou será candidato por PMDB ou DEM?

Não posso falar por outros.

Mas o senhor o conhece bem.

Conheço. O João Doria está fazendo um bom trabalho na prefeitura, tem dito que não é candidato. Mas o PSDB já estabeleceu que fará a convenção nacional no final do ano.

Em dezembro escolhe o candidato?

Em dezembro faz a convenção, elege a nova direção e deve aprovar o novo programa do partido. Se tivermos lá um candidato só, é ele. Se tiver mais de um, deve fazer prévias. Sou fã da prévia. O Doria não seria candidato a prefeito de São Paulo se não tivesse prévia. A prévia permite novas lideranças, você ouve mais e erra menos, quem ganha sai legitimado e quem perde tem o dever moral de apoiar o vencedor.

Há desconfiança geral da população com a classe política. Como o senhor pretende enfrentar esse descrédito e a sensação de que um outsider irá resolver os problemas do país?

A eleição de 2018 será a eleição da experiência. Acabamos de ter uma eleição no Estado do Amazonas: os dois candidatos que foram para o segundo turno são ex-governadores. Vejo que a população quer que as coisas funcionem. Claro que eleição tem confronto, campanha de baixo nível. Mas vou procurar construir uma união nacional em torno do mínimo de convergência.

Como o próximo presidente recebe o Brasil?

A situação fiscal é dramática. Imagina um país que deve 72% do PIB, não paga um centavo da dívida, nem os juros, gasta mais do que arrecada em R$ 139 bilhões e ainda aumenta imposto. Não vamos chegar à terra prometida com voluntarismo, é com sacrifício e trabalho. O lado bom é que quem ganhar a eleição terá quase 80 milhões de votos. Então a força do primeiro ano é muito grande para você fazer todas as mudanças que o país precisa: uma política fiscal severa, reformas política, previdenciária e tributária.

Nessa ordem de prioridade?

O governo cometeu um equívoco. O primeiro ano de um novo governo é a hora de enfrentar os grandes desafios. Para o governo Temer, o primeiro ano foi 2016. Se tivesse colocado de cara a reforma da Previdência, não perderia. Só que optou pelo mais fácil, a PEC do teto de gastos, e deixou a da Previdência para 2017. Agora podemos não ter a reforma e o nem o teto sendo cumprido.

A reforma que está no Congresso foi desidratada. O próximo presidente terá de fazer uma nova? E o senhor vai defender a reforma na campanha?

Claro. Sempre defendi um regime geral de previdência. Não é possível se ter um trabalhador da iniciativa privada sob um modelo e o do setor público com outro. O déficit dos altos salários do setor público é pago pelo trabalhador de baixa renda, é um Robin Hood às avessas. Os aposentados do INSS têm média de benefício de R$ 1.191. Servidor público federal do Executivo tem média de R$ 8 mil. Do Judiciário, R$ 15 mil. E da Câmara, R$ 24,8 mil. Então tem de haver um regime geral para todo mundo. Temos que combater privilégio. O governo perdeu a narrativa porque colocou a reforma como mera questão fiscal. Mas ela tem um sentido de justiça.

Essa será a base da sua proposta?

Já fiz isso em São Paulo em 2011. Entrei e mandei para a Assembleia. Funcionário público vai ganhar até o teto do INSS. Acima do teto, é previdência complementar. E não tem mais benefício definido, só contribuição definida. Hoje, só o Estado de São Paulo tem déficit de R$ 17,5 bilhões e é crescente. Ano que vem será R$ 18,5 bilhões.

Como aprovar uma reforma profunda diante de um Congresso tão clientelista e dominado pelo centrão, que a toda hora chantageia o governo? Eles já avisaram que não aprovam essa reforma que está lá.

A reforma trabalhista passou. Não era mudança na Constituição, então se precisava de menos votos, e o quadro político também era melhor. Mas não está perdido. É preciso fazer convencimento na sociedade, explicar e fazer o que é correto.

O PSDB está com uma propaganda institucional na qual diz que errou. Quais foram esses erros?

Não vi o programa, mas não acho de todo ruim. Algum brasileiro está feliz com a política? Não conheço. A primeira coisa para mudar é reconhecer que está errado.

Mas que erros o senhor admitiria cara a cara com o eleitor?

Se você pegar todos os governos do PSDB, óbvio que não são perfeitos.

Erros éticos também?

Pode ter. Sou um defensor intransigente da Lava-Jato. A sociedade quer justiça. Quem não for culpado que seja inocentado e quem for que seja responsabilizado, independentemente de quem seja. O foco do partido foi levar ao eleitor esse compromisso de mudança.

Hoje o eleitor tem a sensação de ninguém escapou do caixa 2 nas últimas eleições. O caixa 2 está nessa autocrítica? Como financiar as próximas campanhas?

A primeira coisa é reduzir o custo da campanha. Tenho restrições ao distritão porque vai encarecer. Será uma corrida pelo Estado inteiro, um vale tudo nos 497 municípios para ver quem serão os 31 mais votados no Rio Grande do Sul. O que reduz custo é o voto distrital, com distritos definidos e lista partidária. Você tem dois modelos de financiamento, público ou privado.

O senhor foi citado nas delações da JBS e da Odebrecht. Teme que isso atrapalhe sua campanha?

Não. Primeiro, JBS nada (Nota da Redação: o executivo Ricardo Saud citou doações oficiais de R$ 3 milhões à campanha de Alckmin "para o cara não chatear a gente"). Na Odebrecht teve uma citação, mas não a mim. Ninguém falou que conversou um minuto comigo. Nada, nada, nada. Aliás, as nossas campanhas sempre foram modestas e rigorosamente dentro da lei. Mas tudo precisa ser apurado.

Como o senhor vê a redução no orçamento da Polícia Federal e a relação do presidente Temer com o procurador-geral, Rodrigo Janot?

Já disseram que não vão reduzir nenhum recurso para investigação. Sobre a relação, não tenho detalhes. Cabe ao Judiciário analisar o pedido de suspeição apresentado pelo presidente Temer. Tenho um reparo na questão da denúncia. O correto seria não precisar de autorização da Câmara para investigar o presidente. Porque se ele tiver maioria no parlamento, nunca você vai conseguir investigar, só ao fim do mandato. Se for reeleito, fica oito anos sem investigação. A lógica do sistema republicano é igualdade perante a lei. Também não é razoável afastar por seis meses o presidente por uma mera denúncia. Se depois a denúncia for inepta, como se repara isso para a pessoa e para o país?

O PSDB rachou na votação da denúncia: 22 votos contra e 21 a favor. Como unificar o partido?

Não é uma questão programática. Isso passa. Bola pra frente. O PSDB é um partido rebelde, no bom sentido. Éramos do manda brasa, o velho MDB. Não mudamos de partido, fundamos um novo partido. Saímos de um governo que inclusive havíamos ajudado a eleger. Então, não precisamos participar de um governo para defender reformas, aquilo no que acreditamos. Se for bons projetos, votamos. Estou otimista. Democracia não é a paz do pântano, ela é agitada.

O Planalto atribui ao senhor os 11 votos de tucanos paulistas a favor da denúncia.

É muito injusto com os deputados achar que eles votam porque o governador manda. É um demérito. Não interferi nada, nada, nada. Os deputados foram eleitos para isso. Não tem menor sentido ficar tutelando.

O senhor acha que a denúncia era inepta ou forte o suficiente para justificar uma ação penal?

Para isso tem investigação.

Essa crise existencial do PSDB em relação à permanência no governo Temer pode prejudicar sua campanha, já que o partido apoia um presidente com forte rejeição popular?

Embora não seja psiquiatra, não há crise existencial. O PSDB é um partido que debate, discute, tem bons quadros. Feliz do partido que tem várias correntes. Isso é ótimo. Não vejo problema. O que precisamos é construir um grande projeto para o país. O Brasil é complexo, tem realidades totalmente diferentes. Política não se obriga, se conquista. É preciso falar ao sentimento das pessoas com sinceridade, determinação.

O senhor falou com o presidente Temer depois?

Ele esteve em São Paulo. Estivemos juntos.

Falaram sobre isso?

Não. Nem tocamos no assunto.

O senhor acredita que ele fez o convite para Doria migrar para o PMDB?

Não posso responder pelo presidente.

O senhor acha que seu adversário no PT será Lula, Fernando Haddad ou um terceiro nome?

Já disputei com o Lula. Gostaria de ter uma tertúlia, no bom sentido, de temas. Mas a gente não escolhe candidato. E esse é um assunto do Judiciário.

 
 
 
 
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