Lava-Jato

A Sergio Moro, Lula nega acusações, critica MPF e diz ter "pena" de Palocci 

Ex-presidente chegou ao prédio da Justiça Federal em Curitiba pouco antes das 14h, e o interrogatório chegou ao fim por volta das 16h30min, após cerca de duas horas marcadas por tensão e ironias

13/09/2017 - 20h44min | Atualizada em 13/09/2017 - 21h21min
A Sergio Moro, Lula nega acusações, critica MPF e diz ter "pena" de Palocci  Reprodução/JFPR
Foto: Reprodução / JFPR  

Durante duas horas, em clima de poucos amigos — por vezes elevando o tom de voz e abusando de ironias —, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva depôs pela segunda vez, nesta quarta-feira (13), ao juiz federal Sergio Moro, em Curitiba (PR). Na audiência, Lula negou manter relações espúrias com a Odebrecht, criticou a atuação do Ministério Público Federal (MPF) e disse que o ex-ministro Antonio Palocci é "frio" e "calculista" a ponto de "simular mentira mais verdadeira que a verdade".

VÍDEOS: assista à íntegra do depoimento de Lula a Sergio Moro

Se no encontro anterior o petista chegou a brincar com Moro, nesta quarta-feira a conversa teve mais momentos tensos e tiradas sarcásticas. Lula só demonstrou estar à vontade na chegada à 13ª Vara Federal, pouco antes das 14h, quando foi recebido por centenas de apoiadores.

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Depois de acumular derrotas importantes nos últimos meses, entre elas a condenação em primeira instância no caso do triplex, , a recente abertura de três novas denúncias e o depoimento avassalador de Palocci, na última semana, ex-presidente teve de se explicar sobre suposto recebimento de propina da Odebrecht. 

Conforme o MPF, o petista teria obtido da empreiteira um terreno para o Instituo Lula em São Paulo e um apartamento vizinho ao seu em São Bernardo do Campo (SP). Em troca, a companhia teria sido beneficiada em contratos com a Petrobras.

Diante de Moro, Lula rebateu todas as acusações. Ao negar qualquer relação ilícita com a Odebrecht, o petista atacou os investigadores, acusando o MPF de criar denúncias "por ilação". 

— Eu estou cansado de mentira que nunca provam. Eu vi o que fizeram com o Palocci aqui na semana passada. Eu vi a cena — afirmou.

Em diferentes momentos, Lula citou o ex-ministro, sem esconder a mágoa. Na última semana, Palocci revelou a Moro a existência do que chamou de "pacto de sangue" entre o ex-chefe e a Odebrecht. As revelações surpreenderam até mesmo integrantes da Lava-Jato e foram classificadas como "traição" por membros do PT.

— Eu vi atentamente o depoimento do Palocci. Uma coisa quase que cinematográfica, quase que feita por um roteirista da Globo, sabe? (...) Eu conheço bem o Palocci. Se ele não fosse um ser humano, seria um simulador. Ele é tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade. Palocci é médico, é calculista, é frio — declarou.  

— Nada daquilo é verdadeiro, então? — questionou Moro.

— Nada é verdadeiro. A única coisa que tem de verdade ali é ele dizer que está fazendo a delação porque quer os benefícios da delação. Ou, quem sabe, ele queira um pouco do dinheiro que vocês bloquearam dele — retrucou Lula.

Demonstrando irritação, o ex-presidente prosseguiu, afirmando não ter "raiva", mas "pena" de Palocci":

— Eu fiquei vendo o Palocci falar. Ele inventou a frase de efeito do pacto de sangue com o Emílio Odebrecht. Ele fez um pacto de sangue com os (inaudível), com os advogados dele e com o Ministério Público, porque ele disse exatamente o que o PowerPoint (apresentado pelo procurador Deltan Dallagnol) queria que ele dissesse. Há muito tempo, doutor, eu leio, eu escuto, eu converso com advogado, eu fico sabendo, todo mundo que é preso, a primeira pergunta é "e o Lula?", "você conhece o Lula?", "o Lula estava lá?", isso faz dois anos, doutor. Lamento profundamente.

O encontro com Moro terminou por volta das 16h30min, após o petista questionar o magistrado sobre a sua imparcialidade.

— Vou chegar em casa amanhã e almoçar com oito netos e uma bisneta de seis meses. Posso olhar na cara dos meus filhos e dizer que vim a Curitiba prestar depoimento a um juiz imparcial? — indagou Lula.

— Tudo bem. Primeiro, não cabe ao senhor fazer esse tipo de pergunta para mim. Mas, de todo modo, sim — respondeu Moro.

— Sim? Porque não foi o procedimento na outra ação — rebateu o petista, fazendo referência ao caso do triplex. 

— Não vou discutir a outra ação com o senhor, senhor ex-presidente. Minha convicção é de que o senhor foi culpado — resumiu o magistrado.

Lula insistiu no debate, mas Moro não quis levar a conversa adiante e anunciou que encerraria a gravação do depoimento.

— Eu vou continuar esperando que a Justiça faça justiça neste país — provocou o ex-presidente. 

— Perfeito. Pode interromper a gravação — finalizou o magistrado.

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