
Um dos questionamentos recorrentes de pequenos agricultores que vivem há décadas com seus títulos de propriedade e que hoje estão ameaçados de perder suas terras no norte do Estado é por que os índios reivindicam exatamente aquelas áreas ocupadas.
O historiador Henrique Kujawa, que pesquisa o tema dos conflitos agrários, observa que, a 50 quilômetros da área pleiteada por índios em Sananduva, por exemplo, existem propriedades à venda na mesma região, em Lagoa Vermelha.
- Por que tem de ser essa terra que os agricultores estão ocupando há um século? O governo diz que não tem instrumento jurídico para isso, mas se houvesse decisão política se criaria o mecanismo jurídico- contesta.
Para o antropólogo da UFRGS José Otávio Catafesto de Souza, que pesquisa etnoarqueologia afroindígena, a questão não é tão simples, e se alimenta de um desconhecimento da cosmologia indígena.
- A vinculação dos caingangues com a terra não é mercantil. O marco inicial das terras é o local onde os pais abandonaram o umbigo seco, o coto umbilical. Pela tradição, enterram o coto embaixo das raízes de determinada árvore, e todos os umbigos ficam enterrados lá. Mesmo que em 50 anos tenham sido impedidos de viver lá, existe uma memória genealógica. O caingangue se reconhece com o ancestral enterrado na terra que habita - explica.
Fora da esfera idealizada, os 900 mil índios do país, divididos em 305 etnias, enfrentam o dilema da sobrevivência - e a ameaça da marginalização.
- Existem líderes indígenas absorvidos pela exploração, plantando transgênicos, arrendando terras. É muito fácil acusar, mas é o agronegócio que está cooptando os índios. Esse tipo de prática tem de ser reprimida. Ao mesmo tempo, temos índios guaranis morando na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Estão cercados pelo tráfico, mas dentro da aldeia não se veem crianças drogadas. A capacidade de resistência é incrível - avalia o professor Catafesto.
O desconhecimento da cultura indígena seria um dos limitadores que contribuem para a inadequação das políticas públicas. Autora do livro Tempo de Aldeia - Fios de Memórias em Terras Indígenas (Escrita Fina, 2013), a educadora Edith Lacerda precisou rever conceitos ao conviver por quase quatro anos com os índios Waimiri-Atroari, atuando como professora desse povo, na Amazônia, entre 1988 e 1991. Um dos aprendizados é que, para aquele grupo de indígenas, o conceito de casa não se limita à ideia de uma construção.
- Para eles, casa é também o rio, é a roça, é a aldeia inteira. E daí a importância da terra. Tudo isso é casa, é todo o entorno - conta Edith.
Ao mesmo tempo em que nossa cultura não-índia tende a questionar sua capacidade intelectual, os indígenas também questionam nossos costumes.
- Lembro que uma vez estava acompanhando um índio em um tratamento em saúde em Manaus e ele viu um homem revirando lixo do lado de fora. Aí perguntou: o que ele está fazendo? Respondi que ele não tinha o que comer. "Mas ali tem comida", ele respondeu, apontando para uma lanchonete. Na cultura deles, mesmo quando um índio saía sozinho para caçar, era dado um pedaço da caça para cada um. É inconcebível que alguém passe fome enquanto outros estão comendo - reflete.
No âmbito oficial, uma das políticas em curso para aumentar a compreensão da sociedade brasileira sobre a cultura indígena é a criação de planos escolares sobre a temática indígena e de territórios como modelo de educação diferenciada para as tribos. Em 2010, também foi criada uma secretaria especial de atenção à saúde indígena. Mas a estrutura é frágil, adverte o Roberto Liebgott, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
- A legislação é boa, mas o Estado é fraco e não se estruturou para atender o índio. O problema é que a sociedade não tem ciência do que se passa, a não ser quando acontece uma tragédia - lamenta.
O que todos concordam é que a sucessiva omissão dos governos diante da questão só aumenta a tensão.
- É muito mais fácil jogar pequenos agricultores contra os indígenas do que enfrentar o problema da má distribuição de terras no Brasil - conclui o pesquisador Centro de Estudos Ameríndios da USP Spency Pimentel.
Ainda mais em ano de eleição.