
* Jornalista
Um dos projetos, proposto por dois artistas de São Paulo, é refazer integralmente o filme Psicose (1960), de Hitchcock, com a mesma trilha sonora e a mesma duração, mas apenas com cenas disponíveis em sites de bancos de imagens. A ideia é reativar esse clássico do cinema provocando "um questionamento estético dos bancos de dados ao atingir a memória do observador através da imagem". Junto com a projeção do vídeo, será exposta a documentação da pesquisa. Outro projeto, inscrito por um produtor do Amapá, pede auxílio para que a Biblioteca Itinerante Barca das Letras, criada em 2008, possa continuar levando leitura para as isoladas populações ribeirinhas da Amazônia, "principalmente as crianças". Um terceiro, intitulado Dispositivo Móvel para Ações Compartilhadas, quer construir, a partir da reutilização de materiais descartados, um equipamento cultural móvel e selecionar 12 artistas, designers ou arquitetos, que deverão residir na sede do JA.CA - Jardim Canadá Centro de Arte e Tecnologia, de Nova Lima (MG), para desenvolverem projetos colaborativos.
São três exemplos entre os 15.120 projetos inscritos no Rumos Itaú Cultural 2013, o mais arrojado programa de financiamento cultural já desenvolvido no país, que na última segunda-feira divulgou os selecionados. O expressivo número revela por si uma demanda reprimida e a carência de políticas culturais públicas para que pelo menos parte dessa demanda possa ser atendida nos âmbitos municipal, estadual e federal. Esse número mostra ainda que os produtores de cultura e os artistas estão fazendo sua parte, criando e trabalhando, sob todos os tipos de condições, das mais favoráveis (uma minoria) às mais adversas. O universo dos projetos vai do ultrassofisticado ao carente total; do artista afirmado que apresenta um plano de residência para estudar cerâmica na China, ao desconhecido que precisa de ajuda para que seu local de trabalho não desabe. Do jovem recém-formado que estrutura um projeto praticamente irrealizável e pede o teto do financiamento, R$ 400 mil, ao artista que com R$ 20 mil vai realizar o seu. Tais extremos são o Brasil, e a arte e a cultura do país espelham isso. Mas não se pense que as carências estão só nos grotões.
Desde junho do ano passado, tive o privilégio de integrar o grupo que formatou o novo Rumos. Se antes o programa propunha projetos seguindo o formalismo dos editais, no novo modelo os artistas, produtores, pesquisadores é que passariam a definir sua forma de participação e desenvolvimento dos projetos. Não se falaria mais em áreas, mas em criatividade, inovação, impacto, abrangência, transversalidade ­- os projetos podendo envolver quantas áreas quisessem, da forma que quisessem. As balizas passariam a ser produção de obra, pesquisa, formação, residência, documentação...
Estabelecido isso, equipes percorreram todos os Estados para apresentar as mudanças e ouvir o que as comunidades culturais tinham a dizer. A resposta foram 15 mil projetos. Feita a pré-seleção, cerca de cinco mil passaram a ser analisados por uma comissão de 19 integrantes, sendo que cada um teve leitura de pelo menos três pessoas. Posso garantir que a experiência de examiná-los foi um curso intensivo de cultura brasileira como eu nunca teria feito de outra forma. De um lado muito gratificante, por ver que o Brasil inteiro, com igual intensidade, fervilha, os artistas e intelectuais grávidos de ideias e ansiosos por trocar impressões sobre a identidade nacional - centenas de projetos envolvem deslocamento pelo país (um deles, Como Rasurar a Paisagem, propõe uma experiência de residência artística nos extremos de Tavares (RS) e Cascavel (CE), com artistas de oito Estados). Dezenas têm preocupação com a memória, a salvação de acervos importantes em todas as áreas, coisa que deveria ser atribuição do poder público.
De outro lado, não tão gratificante, por ver, como no caso da memória, uma situação quase generalizada de abandono e desleixo. Exemplo: a Cinemateca Brasileira, criada há 74 anos em São Paulo (!) e ligada ao Ministério da Cultura (!), está pedindo socorro. Por ver, também, que até mais do que dinheiro, o que muitíssimas iniciativas espalhadas pelo país precisam é um mínimo de atenção das autoridades locais - e por que não, dos empresários locais. Os 15 mil projetos oferecem um mapa detalhado da movimentação sóciocultural do Brasil. Eduardo Saron, diretor da instituição, diz que o novo programa Rumos vai gerar inclusive uma "profunda transformação" na própria instituição, que interagirá também com projetos que não foram selecionados. Ele também quer provocar "outros parceiros" a repensar o atual sistema de editais. O experiente compositor Edson Natale, há anos gerente do núcleo de Música do Itaú, reafirma o impacto da novidade:
- Poder mergulhar em um universo tão amplo de ideias e propostas, por vezes tão complexas e por outras tão simples, mas muitas com uma potência avassaladora, foi uma experiência única. Sente-se o país vivo, mais do que tudo.
O projeto Ponto BR, de Marcelino Freire, vai mapear escritores à margem da produção editorial, por meio de encontros em 15 capitais do Norte, Nordeste e Centro Oeste e tem como mote o centenário (em 2014) de Carolina Maria de Jesus, mineira que vivia em uma favela paulistana, autora do clássico Quarto de Despejo. Paralelo 34, de Fábio Alkmin, é um projeto de desenvolvimento de roteiro para um road movie pelo sul do Brasil e pelo Uruguai atual, onde são legalizados o casamento homossexual, o aborto e a maconha. Guerrilheiras, da atriz e diretora carioca Georgette Fadel, propõe a encenação de uma peça teatral sobre as oito mulheres que participaram da Guerrilha do Araguaia. Na área da música/memória, um dos destaques é o projeto de recuperação e digitalização do acervo do compositor porto-alegrense Octavio Dutra (1884 - 1937), seguido de shows pelo país.
>>> Veja a lista completa dos contemplados pelo Programa Rumos 2013/2014 em http://novo.itaucultural.org.br/explore/blogs/rumos-2/