Admirável Mundo Novo

Um computador passou no teste da inteligência. E agora?

Especialista discute as implicações do experimento que, pela primeira vez em seis décadas, conseguiu fazer um programa se passar por um humano

Por: DANTE AUGUSTO COUTO BARONE*
21/06/2014 - 16h02min
Um computador passou no teste da inteligência. E agora? Eduardo Oliveira/Zero Hora
Quais as implicações a longo prazo da possibilidade de criar máquinas inteligentes? Foto: Eduardo Oliveira / Zero Hora  

* Professor do Instituto de Informática da UFRGS

Continuamos a ser únicos? A pergunta provocativa que abre este artigo pode nos remeter a se alguma descoberta de vida extraterrestre acabou de ser feita e não ficamos sabendo. Evidentemente, e como mostram vários filmes catástrofe, os seres humanos levarão um choque quando vierem a ter contato com seres tão diferentes de nós. Para facilitar nosso raciocínio, basta darmo-nos conta das surpresas inomináveis que tiveram povos aborígenes da América do Sul quando dos primeiros contatos com os homens ditos civilizados da Europa.

Recentemente, outro encontro muito especial ocorreu através da Ciência, sem que tenhamos talvez dado muita importância para o fato. No dia 7 de junho deste ano, em evento promovido pela Royal Society, da Inglaterra, uma das sociedades mais prestigiadas no desenvolvimento da Ciência, foi reconhecido o primeiro programa de software que passou no chamado Teste de Turing. Antes de nos determos em explicar do que se trata e o que isso significa, vale a pena lembrarmo-nos de que a sociedade contemporânea está vivendo um choque civilizatório, após o advento das tecnologias relacionadas à computação, só comparável às profundas modificações introduzidas pela invenção da imprensa por Gutenberg no século 16. Assim como a produção de material impresso pôde retirar da exclusão, ao longo do tempo, legiões de iletrados, o advento do computador no início da segunda metade do século 20 está ocasionando transformações nas relações humanas, na Ciência e na economia nunca dantes imaginadas.

O ano de 2012 foi emblemático para a computação por ter marcado o centenário de nascimento de Alan Mathison Turing (1912 – 1954), brilhante cientista inglês. Entre suas várias contribuições para a matemática, a ciência da computação e a inteligência artificial, está um artigo seminal apresentado em 1950. No texto, intitulado Computing Machinery and Intelligence, ele realizou uma previsão com 50 anos de antecedência, dizendo que, até o ano 2000, máquinas seriam capazes de “enganar seres humanos através de diálogos entre humanos e máquinas, de tal sorte que os humanos não saberiam distinguir se estariam falando realmente com outro humano ou com outra máquina”. Esse é um motivos pelos quais Turing pode ser considerado o “pai” da Inteligência Artificial.

Isto pode soar como ficção científica, mas devemos nos dar conta de que já há alguns anos as pessoas, ao lidarem com as máquinas, fazendo uso das potencialidades da internet, em muitos casos acabam tendo que “provar” para a máquina que se tratam de humanos, querendo, por exemplo, concretizar uma compra pela rede de computadores. Estamos falando do captcha, também conhecido como Teste de Turing Reverso, que justamente tem por função saber que um site ou programa está interagindo efetivamente com um ser humano e não com uma “máquina” que pode ter sido programada para extrair dados indevidamente. Ou seja, já estamos vivendo uma época de intensa comunicação entre mentes e máquinas, e, de uma certa forma, esses diálogos, tal como nos relacionamentos humanos, não são sempre fáceis e não são de forma alguma despretensiosos.

Estas indagações tornaram-se cada vez mais prementes depois do último dia 7, quando, em atividade organizada pelo Prof. Kevin Warwick, da Universidade de Reading, Inglaterra, foi anunciado que, pela primeira vez na história, um programa passou no Teste de Turing. O chatterbot (programa que dialoga com as pessoas, tentando passar por humano) chamado Eugene Goostman conseguiu convencer 10 dos 30 juízes humanos que eles estiveram, por cinco minutos, falando com um adolescente ucraniano de 13 anos de idade. Isto significa que o Teste de Turing, 64 anos após sua formulação, e no ano que marca o sexagésimo ano da morte do cientista, foi finalmente satisfeito.

Que implicações surgem deste acontecimento notável? Nós, humanos, ao interagirmos com sistemas computacionais inteligentes, teremos constantemente que nos indagar se estamos interagindo com um de nós ou com ser de outra natureza? O que isto muda, na essência, em nosso ego definido por Freud, ao acostumarmo-nos a talvez atribuir “personalidade” a seres constituídos de outro substrato material que não seja semelhante ao nosso?

Diz-se que Eugene não foi materializado em um supercomputador, como divulgaram inicialmente os organizadores do evento; segundo, que o tempo de cinco minutos de conversação foi muito curto; e terceiro, que os resultados podem ter sido facilitados pelo fato de Eugene representar um jovem ucraniano, e, por conseguinte, com possíveis problemas com o idioma Inglês. Também pelo fato de ser muito jovem, não seria cobrado por não responder adequadamente várias perguntas.

Analisando essas críticas, pode-se perceber que tão importantes como os aspectos científicos são os fundamentos filosóficos dos cientistas e pessoas que irão dar significado ao experimento. Inicialmente, a crítica ao fato de o programa não ter sido executado em um supercomputador, ou seja, em uma máquina de grande poder computacional, atribui até mais valor ao programa desenvolvido, já que o mesmo roda em laptop convencional. Quanto à duração das conversas, obviamente quanto maior o período temporal das mesmas, maiores as chances de um chatterbot não conseguir enganar os jurados. E é óbvio que a escolha inteligente das características de Eugene, por ser jovem e não falante nativo do inglês, também ajudaram o programa a passar no teste.

A meu ver, equivocam-se os cientistas ao tentar diminuir o feito conseguido pelos colegas John Denning e Vladimir Veselov, “pais” de Eugene Goostman, já que seu programa passou efetivamente no teste formulado por Turing há 64 anos. Sempre se associou a aprovação no teste ao momento em que as máquinas houvessem se aperfeiçoado até conseguirem pensar. Quanto a isto, no entanto, creio que não se chegou ainda a tal singularidade, como definida por Ray Kurzweil, que seria o momento da Inteligência Artificial Forte, com todas as implicações éticas que ela pode ocasionar.

Mesmo não tendo chegado a IA Forte, saber que programas de computador conseguem enganar jurados do porte dos escolhidos pela Royal Society, berço da Ciência na Inglaterra, nos faz pensar se não passamos a ter mais perigos com possíveis cibercrimes, ainda mais em tempos de espionagem a tudo e a todos pela National Security Agency (NSA), dos Estados Unidos.

Quando pensamos em nossa privacidade, justamente queremos manter nossos direitos a ser quem somos e a divulgar somente o que queremos. Qual a implicação de programas que possam conversar conosco e repassar informações para terceiros? Em tempos de insegurança em nossas conversas e diálogos via Internet, temos que agregar o fato de que podemos estar interagindo com programas inteligentes e que estes podem estar nos enganando. Portanto, potencialmente, com o feito do Teste de Turing, podemos, em futuro próximo, deixarmos de ser únicos. Não seremos somente nós que poderemos enganar humanos. Os humanos conseguiram ensinar máquinas a fazê-lo. Realmente, estamos vivenciando um mundo com descobertas científicas e tecnológicas singulares.

 
 
 
 
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