Ensaio

Para Sérgius Gonzaga, João Ubaldo foi um ficcionista do mundo concreto

Professor analisa o legado literário do autor que morreu na sexta-feira

19/07/2014 | 16h01
Para Sérgius Gonzaga, João Ubaldo foi um ficcionista do mundo concreto Divulgação/Ver Descrição
Lima Duarte em cena de "Sargento Getúlio", adaptação cinematográfica do romance de João Ubaldo dirigida por Hermano Penna Foto: Divulgação / Ver Descrição

* Professor de Literatura

João Ubaldo Ribeiro foi um dos últimos ficcionistas brasileiros a tentar o entrecruzamento das circunstâncias históricas e dos destinos individuais, nos moldes dos grandes autores realistas do século 19. Desde o início de sua carreira, era visível o comprometimento com o mundo concreto e o esforço que fazia para abranger a realidade em seus movimentos essenciais. Contudo, a novela de estreia, Setembro Não Tem Sentido (1968), apresentava certa trivialidade de estilo e de motivos, não deixando entrever a prodigiosa explosão de Sargento Getúlio (1971), legítima obra-prima – na qual a consciência mítica do narrador-protagonista dilataria as fronteiras do realismo de feição tradicional, criando um texto capaz de abarcar simultaneamente a violência do universo agrário e sua mitologia, a crise do coronelismo e a derrocada de uma velha estrutura de poder, mediante uma edificação literária inventiva e surpreendente.

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UM TEXTO DEFINITIVO

Na década de 1950, o sargento Getúlio, policial militar no interior do Sergipe, vai construindo seu relato a partir de um longo monólogo, interrompido eventualmente por alguns diálogos. No monólogo, rememora aspectos significativos de sua vida, ao mesmo tempo em que registra a viagem que vai fazendo rumo à Aracaju, conduzindo um prisioneiro político. Antes de ser guindado à força pública, fora jagunço do atual governador do Estado, Acrísio Nunes. Quando, por fim, cogitava se aposentar, recebera esta última incumbência: prender um adversário político e levá-lo até capital do Estado.

Getúlio narra a história a alguém que não sabemos quem é, e o faz por meio de longos fluxos de consciência, em relativa desordem temporal. Ou seja, estamos diante de uma composição romanesca de vanguarda, nos moldes de Grande Sertão: Veredas e das magníficas ficções latino-americana dos anos 1960 e 1970. Além disso, João Ubaldo vale-se de uma linguagem que subverte a norma culta urbana, tanto pelo uso de palavras e expressões arcaicas – a “variante cabloco-sertaneja”, como bem a definiu José Hildebrando Dacanal –, quanto pela corruptela de vocábulos da tradição letrada, a exemplo de “esguincho”, “almos-penados”, “sinfetar”, “consumições” etc.  O resultado final é um estilo vivo, persuasivo e  adequado aos limites de percepção de mundo do ex-jagunço e agora sargento.

Pois os limites de visão de Getúlio constituem o principal eixo temático do livro. Ele é incapaz de compreender o que está acontecendo. Em Aracaju, o governador Acrísio Nunes, pressionado pela imprensa e por autoridades superiores, emite uma contraordem, mandando libertar o prisioneiro. O jogo político e as mudanças que se processam no país (o declínio do poder dos “coronéis”, a modernização dos costumes, as novas regras políticas) são por demais complexos para a mente estreita do sargento, que resolve levar a cabo sua missão, custe o que custar. Por isso, Getúlio se transforma em estorvo para seu chefe e precisa ser eliminado. É uma soberba tragédia: o homem rústico não entende as forças superiores que regem a vida social e recusa-se a aceitar as ordens, marchando, em cegueira da consciência, para a inevitável destruição.

OS OUTROS LIVROS

O estrondoso sucesso de Sargento Getúlio – logo traduzido para diversos países – gerou expectativa incomum sobre as futuras criações do autor. Em 1979, veio à luz Vila Real, pequena novela sobre uma rebelião de camponeses no interior nordestino, também escrita a partir da ótica da gente do povo, especialmente de Argemiro, um líder natural que comanda a luta contra aqueles que tomaram pela força e com falsos títulos de propriedade as terras dos pequenos granjeiros.

O levante rural tem ressonâncias da Guerra de Canudos e daí certo tom religioso que impregna a voz e as mentalidades dos homens em luta, em uma narrativa marcada por digressões e recuos temporais que justificam o desejo ardente de vingança dos lavradores. Mas, ao contrário da excelente novela Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, publicada na mesma década (1976), o estilo alimentado por lembranças de versículos bíblicos, em Vila Real, nem sempre funciona perfeitamente, assumindo por vezes teor de artificialismo e retórica. Ressalte-se também que apesar de alguns problemas técnicos, o relato mantém sua  força dramática, pois a vitória parcial dos rebeldes não dissipa as sombras devastadoras que anunciam a resposta dos opressores. Mesmo assim, os trabalhadores despojados de suas terras e alimentados por um misto de consciência social e fervor místico, não desistirão da luta. 

Em 1984, João Ubaldo Ribeiro lançou a mais ambiciosa de suas obras: Viva o Povo Brasileiro. Era um esforço desmedido para compor amplo painel do país, cobrindo mais de três séculos, sobretudo através de uma perspectiva crítica-irônica. Não se tratava propriamente de constituir um romance histórico, nos moldes de O Tempo e o Vento, ainda que referências históricas concretas abundassem no livro, e sim produzir uma grande síntese de nossa formação e sublinhar tanto o papel das camadas superiores quanto o das subalternas neste processo. O livro tem passagens belíssimas e outras nem tanto. Às vezes, a versão de João Ubaldo para o Brasil dá a impressão de certa facilidade e simplificação banal. Por outro lado, o ângulo da narrativa, ora centrada na fotografia realista, ora no mais desbragado humor, parece produzir uma dissociação na mesma. Há quem adore o romance e há quem deteste. E todos têm as suas razões.

Não houve nada de extremamente significativo nas obras posteriores do escritor, mas pelo menos uma, A Casa dos Budas Ditosos (1999), obteve largo êxito. Texto divertido, pesado nos palavrões e light nas intenções, próximo a algumas criações finais de Jorge Amado, virou peça de teatro e lotou todas as casas em que foi exibido. O humor (nem sempre sutil) era muito caro a João Ubaldo, e ele o sabia fazer, mas provavelmente não será por esse aspecto que seu nome permanecerá na história da literatura brasileira.

OS LIVROS

> Setembro Não Tem Sentido (romance, 1968)
> Sargento Getúlio (romance, 1971)
> Vencecavalo e o Outro Povo (contos, 1974)
> Vila Real (romance, 1979)
> Livro de Histórias (contos, 1981, reeditado em 1991 com o título Já Podeis da Pátria Filhos)
> Política: Quem Manda, Por que Manda, Como Manda (ensaio, 1981)
> Vida e Paixão de Pandonar, o Cruel (infantojuvenil, 1983)
> Viva o Povo Brasileiro (romance, 1984)
> Sempre aos Domingos (crônicas, 1988)
> O Sorriso do Lagarto (romance, 1989)
> A Vingança de Charles Tiburone (infantojuvenil, 1990)
> Um Brasileiro em Berlim (crônicas, 1995)
> O Feitiço da Ilha do Pavão (romance, 1997)
> A Casa dos Budas Ditosos (romance, 1999)
-> Arte e Ciência de Roubar Galinhas (crônicas, 1999)
> Miséria e Grandeza do Amor de Benedita (romance, 2000)
> O Conselheiro Come (crônica, 2000)
> Diário do Farol (romance, 2002)
> A Gente se Acostuma a Tudo (crônicas, 2006)
> O Rei da Noite (crônicas, 2008)
> O Albatroz Azul (romance, 2009)

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