
Foi com um palavrão e uma frase curta - "Isso é música ruim, muito ruim" - que o jornalista Juarez Fonseca engrossou um acalorado debate envolvendo músicos, produtores, críticos culturais e pesquisadores que discutiam em sua página no Facebook.
Colunista de Zero Hora e referência na crítica gaúcha há mais de 40 anos, Juarez desabafava contra a soberania do sertanejo universitário nas listas de músicas mais tocadas nas rádios brasileiras. Nunca, pelo menos nas últimas cinco décadas (navegue na linha do tempo abaixo), um único gênero foi tão dominante na música popular quanto a atual mistura de caipira com pop.
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- Sempre tivemos música boa e música ruim no Brasil, mas havia um equilíbrio. De uns tempos para cá, pelo menos 90% do que as gravadoras lançam é totalmente descartável - protestava o jornalista na semana passada.
Sempre há controvérsias sobre o que, afinal, pode ser considerado "música boa" e "música ruim", rótulos subjetivos segundo interlocutores que discordavam de Juarez - entre eles o produtor musical Carlos Eduardo Miranda, que já trabalhou com bandas como Skank, Raimundos, O Rappa e Cansei de Ser Sexy.
- Quer coisa mais chata do que Milton Nascimento ou Ivan Lins? Prefiro muito mais ouvir um funk carioca do que uma MPB de meia-tigela feita por um velho enclausurado em uma mansão - disse Miranda em entrevista ao PrOA.
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Sem entrar no mérito sobre qual deles tem razão, o fato é que sempre houve, em quase todas as épocas, uma impressão de que a música consumida pelas massas era de qualidade inferior. Talvez até fosse, em alguns casos, mas muitas vezes a chamada "classe média culta" acabou se curvando, anos depois, aos artistas que um dia desdenhou.
No início do século passado, lembra o sociólogo e professor da Unicamp Michel Nicolau Neto, samba era coisa de malandro pobre. Na década de 1960, só os "alienados" gostavam da Jovem Guarda - bom mesmo era o requinte politizado de Chico, Caetano e Gil. Depois veio o rock dos anos 80, acusado de soterrar a sofisticação da MPB com arranjos simplórios. E quem tivesse mais de 18 anos e gostasse de Mamonas Assassinas, em 1995, era visto como idiota.
Tudo isso - incluindo Teixeirinha e Odair José, Timbalada e Claudinho & Buchecha - hoje é blindado por uma espécie de aura cult.
- Não é uma particularidade do Brasil. Johann Strauss (na Áustria do século 19) era desprezado pela burguesia porque suas composições se popularizaram em bailes. Também não vamos esquecer que o jazz foi muito malvisto nos Estados Unidos - diz Michel Nicolau Neto, autor do livro O Discurso da Diversidade e a World Music. - A música, como várias outras manifestações culturais, é também um elemento de distinção social. Ou seja, as pessoas se utilizam dela para se sentirem socialmente distintas, integrantes de um grupo mais destacado, importante. Quando a música se massifica e é consumida pelo grande público, acaba perdendo esse valor.
Não quer dizer, claro, que qualquer sucesso será lembrado como obra-prima 20 anos depois. Juarez Fonseca pode estar correto quando diz que o sertanejo universitário "não entrará para acervo algum por ser uma fórmula que se repete à exaustão, com harmonias primárias e letras banais que fazem uma música soterrar a outra, tamanha é a semelhança entre elas".
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A questão, por enquanto, é entender por que esse estilo caubói-de-Dudalina, que celebra a balada, a solteirice e a pegação, reina absoluto entre as músicas mais tocadas, como nenhum outro gênero jamais conseguiu. Está na transformação do mercado a primeira parte da resposta.
Desde que a internet, a pirataria, o download gratuito e os serviços de streaming derrubaram as vendas de discos - e esculhambaram a vida das gravadoras -, a indústria fonográfica nunca mais foi a mesma.
- A principal fonte de renda dos artistas, que durante décadas foi o CD ou o LP, passou a ser a turnê, o show, o tête-à-tête com o público - diz o professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) Eduardo Vicente, doutor em Ciências da Comunicação e autor do livro Da Vitrola ao iPod.
- Antes, o show era um instrumento de promoção do disco. O artista saía em turnê com o intuito de divulgar o seu novo álbum. Hoje, muitos artistas que fazem grandes shows nem sequer têm disco. Eles fazem o contrário: distribuem as músicas gratuitamente na web com a intenção de promover seus shows - completa o sociólogo Michel Nicolau Neto.
E quem ganha espaço em um mercado assim, no qual o objetivo final é juntar milhares de pessoas em um evento? Ora, é o artista que faz "música de festa", que transformará o evento em uma balada, em pegação, em "tchê tchererê tchê tchê", para citar um refrão de Gusttavo Lima.
- Fui a um show dele (Gusttavo Lima) e achei tão pesado, sensual e portentoso quanto algumas das grandes bandas de rock que vi - reconhece o jornalista e blogueiro do Portal R7 Ricardo Alexandre, ex-diretor de Redação da revista Bizz, considerado um dos maiores estudiosos do rock nacional desde os anos 1970. - Ainda tem a vantagem de ele ser mais bonito e mais simpático, tanto com a plateia quanto com a equipe técnica, além de assumir um discurso que um roqueiro nunca assumiria.
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Some-se ao frenesi dos shows outro fenômeno contemporâneo: cada vez mais a música de massa parece atingir todas as classes sociais com a mesma intensidade - em especial os jovens de diferentes camadas.
Se você tem mais de 30 anos, é provável que se lembre da época em que a classe média ouvia um artista enquanto a periferia ouvia outro. Não que isso tenha acabado, mas o consumo tem se mostrado mais uniforme.
- Em certos aspectos, a classe média e a favela têm hoje a mesma cara - avalia o jornalista e produtor musical Zuza Homem de Mello, autor de livros como A Canção no Tempo e Música com Z.
Zuza diz que a internet levou as pessoas a valorizarem mais os números do que a qualidade. Um milhão de acessos em cinco horas? Todos, de qualquer credo, raça, classe ou sexo, correm para ver o que é. Um equívoco, afirma ele:
- Número nunca foi qualidade. Billie Holiday foi a maior cantora de jazz da história e nunca figurou em listas de um milhão de discos vendidos. Julio Iglesias por acaso canta melhor do que Tony Bennett só porque vendeu muito mais? Evidente que não.
Mas nada, nenhuma moda do momento ou vídeo viralizado aproximou tanto os extremos sociais no Brasil quanto a famigerada ascensão da classe C, que de 10 anos para cá ganhou poder aquisitivo sem precedentes e circulação em ambientes antes restritos a uma parcela exígua do país. Por exemplo: se no início dos anos 2000 havia 3 milhões de matriculados na faculdade, hoje são quase 8 milhões, conforme o Censo da Educação Superior.
- Essa popularização do público universitário tornou-se atraente para a indústria cultural. E é claro que, se as pessoas que ouviam funk em suas comunidades vão para a universidade, o funk vai com elas e contagia outros grupos - analisa o sociólogo Michel Nicolau Neto.
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Como os números totais da classe C envolvem 37 milhões de pessoas, os meios de comunicação abriram um espaço inédito para agradar a essa camada emergente com novelas, programas de variedades e atrações musicais enaltecendo seu estilo de vida.
- Às vezes, pode parecer que nos anos 60, com os festivais e com o programa O Fino da Bossa na TV, o Brasil produzia só música sofisticada. Não é verdade: é que o mundo da periferia estava escondido. O público consumidor era bem mais restrito, era branco, morava em grandes metrópoles, tinha um nível escolar razoável - compara o professor da USP Eduardo Vicente.
No fim das contas, como diz Vicente, a música reflete o que a sociedade é. Se nos anos 1970 ela pensava em mudar o mundo - e o regime que a oprimia -, cada acorde derramaria engajamento. Se nos anos 1980, com a abertura política, ela almejava se integrar ao mundo, então surgiria um rock para mimetizar nota por nota o que os ingleses já faziam.
- O problema de hoje é que, embora isso pareça um contrassenso, já que a internet está aí, há uma falência de possibilidades para um artista sofisticado ser conhecido por muita gente. Acabou a diversidade na mídia aberta - lamenta o músico e jornalista Arthur de Faria, que defendeu o sertanejo universitário no polêmico post de Juarez Fonseca.
Arthur escreveu lá, na semana passada: "É música para pular". Não deixa de ser uma forma de ver o mundo.
