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Bernardo Carvalho: "A lógica da rede é a do prazer"

Escritor, autor do romance "Reprodução", comenta o impacto das redes na democracia

Por: Alexandre Lucchese
16/05/2015 - 15h03min
Bernardo Carvalho: "A lógica da rede é a do prazer" Maurício Quadros./Divulgação,FestiPoa Literária
O escritor Bernardo Carvalho no evento de pré-estreia da FestiPoa Literária 2015 Foto: Maurício Quadros. / Divulgação,FestiPoa Literária  


Em
Reprodução (2013), romance mais recente do carioca Bernardo Carvalho, um homem prestes a viajar para a China fica confinado em uma sala sem janelas, onde passa a desfiar uma série de observações preconceituosas que lembram muitas vezes a área de comentários de portais de notícias. O escritor, que esteve em Porto Alegre nesta semana para participar de atividades na PUCRS, admite que o confinamento do personagem pode servir como metáfora ao sedentarismo – físico e intelectual – propiciado pela internet. Na Capital, Carvalho também foi uma das atrações da pré-estreia da 8ª FestiPoa Literária, na terça-feira, quando fez um bate-papo com o português José Luís Peixoto. Foi pouco antes desse encontro que o autor recebeu ZH para essa conversa sobre o uso da redes para a democracia e o atual momento da literatura.

Reprodução apresenta um personagem que repete discursos preconceituosos que percorrem a internet. Em sua avaliação, o potencial que as redes sociais poderiam ter para o debate público e a democracia está sendo desperdiçado?
A internet é um instrumento, não é algo em si, tudo depende do uso que se faz dela. No mundo, há simultaneamente democracias com histórias muito longas e sociedades bastante arcaicas sob o ponto de vista democrático. Em cenários do segundo tipo, como China ou Irã, a internet tem um papel naturalmente subversivo – em alguns países, uma mulher postar uma foto sem véu já representa uma transgressão. Já nas ditas sociedades “livres” a rede não tem esse mesmo impacto.

As pessoas podem acessar a rede sem a vontade de entrar de fato em debate com o outro, e sim buscando apenas reiterar suas opiniões. Isso ajuda a esvaziar as discussões?
Acredito que há aí um mecanismo que propicia um hedonismo narcisista como se fosse democracia. Você só vai rumo ao desconhecido se é forçado. É por isso que existem escolas. Se eu não entendo nada de matemática ou de física, jamais aprenderei nada pela internet, porque não irei em busca de algo que não conheço. Vou transitar em um mundo que já conheço, embora com alguns desdobramentos. Se eu disser “descobri algo na internet por acaso”, não é verdade. Cheguei até ali porque é o raio do meu prazer. Algo complicado em relação à internet é a ilusão de que você adquire conhecimento ali porque é algo livre. Como a rede é algo que o usuário determina o uso, a lógica é a do prazer, e não a de buscar algo que o contradiz. Não é à toa que o sexo é tão presente na internet, desde o início.

O senhor é a favor de alguma regulação da internet?
Não sou a favor de qualquer censura, acredito que o usuário deve se manifestar como quiser. No entanto, defendo a regulação das empresas que controlam a internet. É claro que empresas como Google e Facebook estão ligadas ao governo americano, há um interesse de Estado nesse negócio, de inserção mundial. Há uma promiscuidade, o Google não é uma simples empresa, é uma empresa de interesse nacional, quase de segurança nacional. O efeito que o Google pode ter na China ou Irã é de extremo interesse para os EUA. As coisas estão interligadas, quando você vê algo como o caso do Snowden, percebe que a democracia é muito mais ambígua do que parece e que a desregulação de tudo não é o melhor dos mundos. No caso do Google, se não fosse o Departamento de Justiça americano intervir, a empresa colocaria todos os livros do mundo na rede, a despeito da autorização dos seus autores. Com que autoridade eles podem publicar os meus livros, bastando eu não me manifestar para que signifique que estou de acordo com isso? Que arrogância é essa? Que legislação é essa? Aí os EUA disseram “não, isso vocês não podem fazer”. Era algo que o Google faria hipocritamente em nome da democracia. É a usurpação de uma produção intelectual.

Mas, nesse caso, o governo americano interveio.
Claro, porque eles perceberam que também era ruim para eles. Se uma empresa americana chancelada pelo Estado americano pode se apropriar dos direitos autorais de produção intelectual internacionais, por que não poderia se apropriar também dos direitos da indústria fonográfica e cinematográfica nos EUA? Seria um precedente incrível. A cultura e a produção intelectual têm um aporte muito grande dento do PIB americano, e tudo isso estaria ameaçado. Outra hipocrisia é o discurso de que o cara tem que abrir mão dos seus direitos autorais em nome do bem comum e da geração de conhecimento. Mas se, ao invés de escritor, eu decidisse ser um banqueiro ou financista, comprasse uma casa atrás da outra, tivesse um patrimônio de bilhões de dólares, não precisaria abrir mão do meu patrimônio em nome do bem comum. São dois pesos e duas medidas de uma visão de democracia que me parece um pouco ambígua.

Por que a rede é encarada como um ambiente democrático?
Aparentemente é muito democrático porque todo mundo tem acesso, mas a rigor você tem acesso ao mesmo. O próprio princípio dos algoritmos do Google e outros mecanismos de busca é o “mais”, ou seja, quando você faz uma busca, o que aparecerá é o mais visto. O próprio mecanismo lógico da internet propicia o usuário a ir ao que é a regra, o geral.

O discurso que privilegia o “eu” nas redes sociais também está na literatura. O maior fenômeno literário do momento é Karl Ove Knausgard, escritor norueguês que escreveu seis volumes narrando sua própria vida. O prestígio do factual na literatura, em detrimento da imaginação, não incomoda alguém que escreve ficção?
Já me incomodou. Lancei Nove Noites e Mongólia quase como reação a isso, criando alguns caminhos falsos em que parecesse que tudo estivesse ligado à realidade, mas no fundo eram armadilhas ficcionais. Mas é uma tendência natural do ser humano ter mais vontade de ler o que acha que ocorreu de fato ao invés de algo que saiu da cabeça de uma única pessoa. O Knausgard, em particular, levou isso a uma radicalidade que é interessante. Nunca tinha lido nada dele, mas recentemente peguei para ler um trecho do volume mais recente que saiu nos EUA. Fiquei muito decepcionado, era um trecho muito rasteiro, mas depois me explicaram que ele só faz sentido no acúmulo, ou seja, lendo com insistência a radicalidade das descrições de “memória”, você começa a entender o que ele quis fazer. Isso pode até mesmo ser visto por muitos quase como uma prosa experimental. No geral, parece-me algo cíclico: quanto mais a literatura se aproxima da realidade, a realidade vai se esgotando e a necessidade de ficção retorna, e assim por diante.

Essa tendência pode estar mais ligada a um tipo de literatura com mais prestígio entre os críticos. Os romances de fantasia ocupam grande parte das listas de best-sellers.
É, acho que há também uma tentativa do escritor se preservar, agarrando-se à experiência para fazer literatura de alto nível. O próprio Knausgard disse que o projeto dele começou como um modo de se diferenciar de um excesso de ficção sob o qual o mundo estava sucumbindo. Então, é possível que, para fazer alta literatura, ele precisasse se agarrar a essa ilusão de expressão da realidade. Digo “ilusão” pois a prosa dele também é uma fabricação, ninguém tem aquela memória capaz de fazer a descrição minuciosa de tudo. É uma ficção, mas também uma maneira de dar ao leitor o entendimento de que está no mundo da literatura de verdade, e não em um mundo de fantasia.