Entrevista

Christian Dunker: "A nossa relação com a cidade, com nosso lugar, está ruim"

Psicanalista, autor de "Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma", Dunker fala sobre a vida em condomínios fechados

Por: Carlos André Moreira
06/06/2015 - 13h01min
Christian Dunker: "A nossa relação com a cidade, com nosso lugar, está ruim" Boitempo/Divulgação
Foto: Boitempo / Divulgação  

Com a proliferação de uma sensação geral de caos urbano, o brasileiro com condições para tanto refugiou-se nos últimos anos em condomínios fechados — espaços em que estruturas de leis rígidas, autoridade e direito à propriedade ainda são reconhecidos. Ao mesmo tempo, essa fuga para espaços protegidos e controlados estaria provocando uma espécie de angústia coletiva, com impactos na forma como todos convivemos nas grandes cidades. Esse é um dos temas glosados pelo psicanalista Christian Dunker no livro Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma, uma original abordagem da vida urbana brasileira, não em temos sociais, mas psicológicos.

De orientação lacaniana, Dunker explora a figura do condomínio fechado e suas estratégias de marketing como um signo da vida contemporânea, apontando os efeitos na mentalidade coletiva de uma cidade vivida atrás de muros erguidos com o objetivo de deixar os outros do lado de fora.

Nesta entrevista, concedida por telefone, o psicanalista paulista, de 49 anos, explica por que, em sua visão, esse modelo está falindo.

Seu livro analisa a mentalidade gerada pelo estilo de vida enclausurado. Antes dos condomínios, porém, determinadas instituições nacionais, como o elevador de serviço, por exemplo, já demonstravam a ideia nacional de convivência, não?
Perfeitamente. Um dos motivos mais fortes na propaganda dos primeiros condomínios era de que você ia conseguir civilizar definitivamente a diferença entre o social e o serviço, com a entrada de serviço nos fundos, invisível, de tal maneira que você não teria que ter essa convivência entre funcionários e habitantes. Os funcionários seriam profissionalizados, com uniformes, mais impessoais do que o que a gente estava acostumado a conviver, funcionários que adquiriam um sentido de "fazer parte da família". Essa é uma diferença importante do conceito de condomínio americano e do brasileiro. No caso americano, você tinha a proposta de uma comunidade multicultural. Com negros, brancos, asiáticos, pessoas do Sul e do Norte, e você poderia ali estabelecer uma harmonia de convivência. Isso nunca foi uma proposta de marketing dos nossos condomínios, que eram feitos para tornar esse problema do funcionário, da porta de serviço, algo resolvido por planejamento.

Cidades planejadas não são uma novidade no Brasil, como provam Belo Horizonte e Brasília. Por que, então, o caos urbano acaba prevalecendo nas cidades brasileiras?
Aí você pega uma mutação muito interessante. Tanto em BH quanto em Brasília, e em toda a época do Juscelino, do desenvolvimentismo, você tem uma intervenção do Estado. O planejamento era uma função geral do Estado ou, ao menos, daquele governo. Tanto que você tinha o planejamento do BNH, da população que ia viver em cidade-dormitório. O que é novo na dinâmica do condomínio é que, a partir dos anos 1970, você tem uma demissão do Estado em relação a isso, ele transfere essa função de planejamento para a iniciativa privada. O condomínio é um lugar em que os síndicos, os gestores, têm direito de vida e de morte, digamos assim. Nos primeiros condomínios, eles têm o direito de expedir o Habite-se, têm o direito de produzir leis estranhas e draconianas, como se isso fosse se autonomizando e não mais uma política de Estado. É isso o que torna o condomínio um sintoma do Brasil, dessa época em que começamos a transferir partes do espaço público, de nosso sentido coletivo, para a iniciativa privada.

Quanto mais o cidadão se encastela no condomínio fechado, mais ele reclama da situação de estar "sitiado em casa". É uma posição dúbia.
Essa é uma polêmica que eu venho discutindo com várias pessoas, à direita e à esquerda. Porque, de certa forma, o condomínio está fazendo água. Essas pessoas que vivem em condomínio têm para si uma narrativa de sofrimento: "olha, eu vim para cá, mas também porque vocês, o mundo criminoso, cheio de violência, de bandidos, de diferenças, me empurrou". Então, no começo, o condomínio era o paraíso perdido "eu vou porque eu quero". Depois, virou "eu vou porque eu preciso". Essa é a inversão que eu tento descrever no livro: como o Paraíso como ideal se torna uma fantasia que assume o controle. Essa última fase terminal da fantasia do condomínio é quando ela começa a fazer sintomas e a fazer os sujeitos acreditarem que estão presos, esquecendo que se mudaram para lá de livre e espontânea vontade, perseguindo um sonho próprio de estilo de vida, etc. E isso gera um movimento "nós perdemos o espaço público, ele não nos pertence mais, a gente não dita mais os nossos ideais de comportamento".

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Mas ainda há um investimento do mercado na criação desses condomínios. Pode-se falar que não é um sonho de consumo?
É claro que ainda é um sonho de consumo, mas não é o sonho. É mais ou menos como o automóvel. Na década de 70, um grande sonho familiar era ter um carro, era um passo que sinalizava que você estava vivendo bem sua vida. Depois, ir para o condomínio. E a gente está no momento em que esse ideal está se esgarçando. Isso produz o que a gente chama de vácuo de idealização. Você tem uma incerteza sobre o que você quer, afinal, para o seu futuro. Isso produz a dificuldade de nomear o mal-estar, a angústia. A nossa relação com a cidade, com nosso lugar, está ruim. Uma das coisas que atestam isso é o sonho da garotada de viajar, ir para a Austrália, Nova Zelândia, Canadá. Não é só porque o mundo hoje ficou menor, o que é verdade, mas é uma dificuldade da nossa maneira de estar no mundo e, da forma mais banal, de morar.

Outro fenômeno recente é, com as facilidades proporcionadas pela tecnologia, um número cada vez maior de profissionais se mudar para cidades pequenas, periféricas, atraído pelo simbolismo da "cidade do Interior". Como o senhor analisa isso?
Essa saída é perigosíssima. São os chamados "sonhos regressivos". Já que você não consegue ver nada para frente, o futuro está incerto, eu começo a olhar para trás e a me entender como alguém que está fora de lugar porque o meu lugar para estabelecer uma comunidade orgânica é lá na Floresta Negra, no bosque, na vida no campo. Isso gera um movimento de insatisfação e de volta à natureza que se encontra também em vários aspectos da nossa vida contemporânea. E, no final, o que você encontra nessas comunidades idealizadas? Uma forma de poder autocrática, que foi o que levou as pessoas originalmente a saírem do interior: o fato de que ali você tinha déspotas, coronéis, aquelas poucas pessoas que concentram o poder, então esse retorno acaba inspirando a volta a formas regressivas de poder e de política. A ponto de hoje termos gente dizendo "queremos a volta da Ditadura Militar, queremos aquele pai que se perdeu, queremos a volta daquela família com todo mundo no seu devido lugar".

MAL-ESTAR, SOFRIMENTO E SINTOMA
Christian Dunker
Boitempo, 416 páginas, R$ 66

 
 
 
 
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