Luz, câmera, ação

A curadoria de cinema toma novo rumo em um mundo digital

Richard Peña, diretor emérito do New York Film Festival, que estará em Porto Alegre nos próximos dias, escreve sobre o trabalho do curador cinematográfico

Por: Richard Peña*
15/08/2015 - 15h06min
A curadoria de cinema toma novo rumo em um mundo digital UFRGS/Divulgação
Richard Peña, professor da Universidade de Columbia, vem a Porto Alegre para dois encontros sobre cinema, com entrada franca, neste domingo e nesta segunda-feira Foto: UFRGS / Divulgação  

* Diretor emérito do New York Film Festival e professor de Estudos de Cinema da Universidade de Columbia.

Um dos grandes especialistas mundiais em programação e curadoria de espaços alternativos de cinema, o norte-americano Richard Peña estará em Porto Alegre nos próximos dias para participar de dois eventos, ambos com entrada gratuita. Neste domingo, o professor de cinema na Universidade de Columbia, diretor emérito da New York Film Festival e programador do Film Society of Lincoln Center fará uma palestra sobre o cinema de vanguarda americano entre 1943 e 1969, na Cinemateca Capitólio, às 17h. Na segunda-feira, Penã ministrará na Sala Redenção – Cinema Universitário (Campus Central da UFRGS), das 9h às 16h, o workshop Cinema e Espaços Alternativos: o Futuro da Programação de Cinema e Curadoria, tema deste artigo que ele escreveu para o caderno PrOA. As inscrições para o workshop podem ser feitas pelo site.

A ideia de curadoria do cinema emergiu na década de 1920. Logo depois da I Guerra Mundial, tornou-se claro que a indústria comercial cinematográfica dos EUA, o que podemos chamar de Hollywood, tinha assumido uma posição dominante quase completa com relação ao cinema mundial: em 1925, os títulos de Hollywood foram responsáveis por pelo menos 65% dos filmes vistos em todo o mundo. Com esse domínio industrial, veio um tipo de dominação estética simultânea: os filmes de Hollywood foram apresentados não como uma forma de fazer filmes, mas como a única maneira, proporcionando um modo de fazer cinema que todos os outros (incluindo, cada vez mais, as próprias audiências) esperavam ver em cada filme.

Alarmados por essa situação, vários grupos em muitos países começaram a organizar seus próprios locais de exibição e redes de distribuição para filmes fora do estilo de Hollywood. Estes incluíram exemplos de formas anteriores de cinema, como comédias pastelão, que tinham saído de moda, bem como novas obras a partir dos cinemas emergentes, com filmes experimentais e documentários.

Assim, o papel do curador de filme, ou programador, para usar um termo mais comum, tornou-se o de alguém fazendo uma intervenção no menu restrito oferecido para o público. A ideia de ser alguém que seleciona filmes fora da estrutura criada pela indústria comercial imediatamente fez do curador uma figura de oposição, mostrando que o cinema existia em formas e lugares para além do que os estúdios de Hollywood estavam dispostos apresentar.

Essa visão do curador passou por várias transformações, dependendo das necessidades específicas do momento, mas a orientação básica de curadoria – olhando para trás para um cinema do passado em uma tentativa de criar uma espécie de história do cinema, e olhando para a periferia, a filmes que caíram fora da seleção oferecida pelos estúdios – permaneceu a mesma. Nos Estados Unidos, bem como em outros lugares, curadoria de filmes foi imensamente ajudada pela expansão do uso do 16mm, em si provocada principalmente por causa da importância desse suporte para a televisão. O 16mm acabou com o alto custo de transporte e projeção. Qualquer pessoa poderia ser treinada para operar um projetor 16mm.

Por muitos anos, curadoria de filmes esteve no coração daquela cinefilia generalizada que dominou grande parte da vida cultural nos anos 1950, 1960 e 1970, com a proliferação enorme de cineclubes locais e o estabelecimento de instituições culturais sem fins lucrativos dedicadas ao cinema. Na minha universidade, por exemplo, todo o dormitório de estudantes tinha seu próprio cineclube bastante específico. Um deles foi dedicado exclusivamente ao cinema japonês; outro, apenas para musicais de Hollywood. Em meu próprio dormitório, que manteve uma tradição de apresentar só o cinema avant-garde, enfatizamos a presença de cineastas que apresentavam seus trabalhos.

Eu estava na universidade entre 1971 e 1976, e parte do poder da posição de curador/programador não era apenas a seleção, mas o acesso aos filmes. Não só nós, curadores incipientes, sabíamos o que mostrar, como também sabíamos como obter os filmes que queríamos programar. Cinema alternativo sempre teve um forte traço de culto, e os segredos do templo permaneciam com aqueles de nós que criavam a seleção de cada semana.

Esse tipo de cinefilia desvaneceu, pelo menos nos Estados Unidos, na década de 1980. Quando voltei para ensinar na minha universidade, em 1985, havia apenas dois cineclubes, e nenhum deles tinha uma orientação muito específica, além de mostrar cópias 16mm de blockbusters do ano anterior. Em vez disso, a universidade tinha criado um arquivo cinematográfico, que, além de colecionar várias centenas de filmes fazia programas semanais de clássicos americanos, cinema internacional e cinema independente de vários tipos. Cada vez mais, a curadoria de filmes se tornou profissionalizada, com a anarquia de dezenas de cineclubes sendo substituída por instituições culturais reconhecidas.

No entanto, curiosamente, isso coincidiu com a chegada do vídeo caseiro, em primeiro lugar o VHS e, posteriormente, o DVD e outros formatos digitais. Aos poucos, a questão do acesso se tornou discutível. Agora, qualquer um poderia adquirir as obras completas de Antonioni. Muitas pessoas tornam-se suas próprias versões de uma cinemateca.

A tecnologia digital trouxe consigo um outro desafio: o extraordinário aumento na produção de filmes de todo o mundo. Países como a França, que estavam fazendo 100 a 120 filmes por ano no início de 1990, agora estão atingindo níveis de produção que se aproximam de 300 filmes por ano. Ninguém, tenho certeza, sabe exatamente quantos filmes independentes americanos são feitos a cada ano, mas muitas estimativas citam algo próximo de mil. Assim, o trabalho do curador tomou um novo rumo: não só para fornecer acesso a formas alternativas de cinema, mas simplesmente ajudar o passeio do público por esse número quase incontrolável de filmes feitos a cada ano também pelas indústrias comerciais.

Assim, a ideia de uma curadoria em cinema continua a evoluir no que diz respeito às circunstâncias específicas de produção de filmes. A ideia de curadores a proporcionar algum tipo de alternativa para o que é oferecido pela indústria continua firme, embora agora a proliferação de produtos seja tal que precisamos de curadores para lhes dar sentido (quais são os melhores filmes de terror?).

A curadoria do cinema não é só orientada para as necessidades de um lugar específico, mas, cada vez mais, essa definição de curadoria é influenciada pelo momento específico em que ela se realiza, constantemente evoluindo junto com o cinema. Uma coisa parece clara: a existência de curadores, que servem como guias e porteiros, tornou-se ainda mais importante no século 21 do que foi no século 20. Importância que só deve crescer nos próximos anos.

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