Nós e os robôs

Federico Pistono: "Deveríamos abolir o trabalho"

Pesquisador italiano afirma que a automação crescente vai significar o colapso da economia, mas que isso não precisa ser de todo ruim

Por: Carlos André Moreira
29/08/2015 - 15h06min
Federico Pistono: "Deveríamos abolir o trabalho" Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
O italiano Federico Pistono, especialista em inteligência artificial e no impacto do progresso tecnológico na sociedade Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS  

O italiano Federico Pistono, 29 anos, é um “futurista”, um pesquisador dedicado a analisar o impacto na sociedade do crescimento exponencial da tecnologia. Ele é autor do livro Robots Will Steal Your Job, But That’s Ok: How to Survive the Economic Collapse and Be Happy (“Os Robôs Vão Roubar Seu Emprego, Mas Tudo Bem: Como Sobreviver ao Colapso Econômico e Ser Feliz”), no qual advoga duas tendências aparentemente conflitantes. A primeira é a de que a automação vai atingir todas as áreas, colapsando o atual sistema econômico. A segunda é que essa nova realidade pode ser uma boa notícia se a humanidade souber aproveitar a oportunidade para reformular seu atual sistema.

Pistono estará em Porto Alegre na próxima terça-feira para paticipar do congresso de marketing da ADVB. Por telefone, ele concedeu a seguinte entrevista, na qual explica sua visão de mundo ao mesmo tempo catastrófica e profundamente otimista.

Uma das principais questões no mundo do trabalho é o equilíbrio entre a crescente automatização e a superpopulação. Como o senhor vê essa tensão?
Acho que os padrões que estão diante de nós tendem para um cenário futuro de colapso econômico, por conta da impossibilidade de conjugar a habilidade de trabalhar e receber uma renda para sobreviver com a crescente automação e concentração da economia. Isso leva ao que chamo de “economia dos superastros”. As chamadas “Companhias Unicórnios”, companhias jovens, fundadas há menos de 10 anos e que valem mais de um US$ 1 bilhão, empregam um número muito pequeno de pessoas, enquanto as indústrias do passado empregavam muitas. Nesse cenário, cada empregado é um superastro. A economia do futuro, assim como aconteceu com a indústria da música, do cinema, da arte em geral, será tal que uma fração muito pequena garantirá a maior parte da renda. Os processos de digitalização e de automação levam poucas companhias a dominar o mercado, em um estado de quase monopólio. E as companhias mais novas precisam empregar menos pessoas, que ganham mais do que antes. Na recente aquisição do WhatsApp pelo Facebook, cada funcionário valia algo como US$ 25 milhões. Compare isso com o Walmart ou o McDonald’s, em que um empregado vale cerca de US$ 100 mil. Se pensarmos pelo ponto de vista não do indivíduo, mas da sociedade, esse problema não pode ser resolvido pelo sistema econômico que conhecemos hoje. O que precisamos é repensar o tipo de sistema que queremos.

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Essa mudança passaria pelo ajuste da própria ideia de uma empresa no mercado, a de crescer exponencialmente até onde suas forças a levarem? Será necessário ajustar ambições nessa nova realidade?
Sim. A dificuldade desse ajuste é que o futuro já está aqui, mas mal distribuído. Assim, alguns setores vão ser automatizados facilmente, como já está ocorrendo, e outros não tão cedo. As pessoas vão tentar deslizar por entre as fendas desse processo, porque elas pensam em seu status individual e em sua sobrevivência. Mas quem dirige a política e os pensadores do sistema têm de pensar no nível da sociedade, porque você não pode ter tantas pessoas entre as brechas quando, estruturalmente, não há empregos o suficiente. Uma das propostas que têm ganhado atenção é a renda mínima incondicional, que está sendo experimentada agora em Nova York, em cidades rurais da Índia e que na Europa começou na cidade de Utrecht, na Holanda, e se espalha pelo continente. A Finlândia anunciou esta semana que vai fazer uma experiência com essa iniciativa. Essa é uma das soluções possíveis para as transformações do sistema.

Nos anos 1950 e 1960, era comum a previsão otimista de que a automação do trabalho deixaria a humanidade com mais tempo. Mas hoje as novas tecnologias borraram as fronteiras entre trabalho e lazer, tornando o empregado um trabalhador 24 horas. Como mudar isso?
A única maneira passa pela reformulação do nosso contrato social e das condições que estabelecemos para ele. Desde que nascemos, estamos integrados em um contrato social: a menos que você seja gravemente incapacitado, você precisa trabalhar a fim de justificar sua existência. Esse é o acordo. Mas esse ciclo não tem mais como funcionar. Assim como abolimos a escravidão e a tortura, deveríamos abolir o trabalho forçado para sobreviver. É uma questão de direitos humanos, não é mais sustentável, o sistema está claramente levando a uma concentração de poder. Se mudarmos as premissas, então a automação se tornará bem-vinda, e o “open source” será a norma, porque se você não precisa lucrar para sobreviver, será mais provável que compartilhe o que descobriu e inventou. E isso vai aumentar exponencialmente a qualidade de vida e o nível de inovação na sociedade.

Mas de onde viria o dinheiro dessas pesquisas sem margem de lucro?
O lucro continuaria, só que melhor distribuído. Hoje você tem um punhado de companhias ganhando trilhões em lucro e a maioria das empresas lutando para sobreviver. E você tem um grande número de pessoas realizando trabalhos nos quais não ganham quase nada só porque precisam do dinheiro. Temos que quebrar esse ciclo. É preciso mudar a distribuição dos impostos e, principalmente, precisamos levar em conta o real custo das coisas. Como afirma um estudo publicado na semana passada pelas Nações Unidas, se levássemos em conta o custo social e ambiental, quase nenhuma das 500 maiores empresas do ranking da revista Fortune seria de fato lucrativa. Se criássemos um sistema de tributação real que incluísse externalidades negativas, as empresas teriam que sobreviver criando para o ambiente ou para as pessoas e, por consequência, teríamos um mundo melhor.

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Muitos cientistas fazem previsões apocalípticas a respeito do perigo de uma inteligência artificial consciente. Como o senhor vê essa questão?
Penso que a questão de máquinas conscientes não faz sentido na definição que temos de consciência. As máquinas estão em uma categoria diferente, elas não têm objetivos ou desejos, elas realizam tarefas e otimização. O cenário mais provável é o efeito descontrolado de uma programação equivocada feita pelo homem, levando as máquinas a se otimizarem para certas coisas sem levarem em conta as prováveis consequências. Não tenho medo de que uma máquina se torne consciente e se revolte contra nós. Eu me preocupo mais com o mau uso do desenvolvimento humano no campo da eletrônica.

PROGRAME-SE
Federico Pistono é um dos convidados do 24º Congresso de Marketing ADVB/RS, que será realizado na terça-feira, 1º de setembro, no Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80), em Porto Alegre, das 8h às 18h. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail relacionamento@advb.com.br ou pelo telefone (51) 3290.6300.

 
 
 
 
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