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Francisco Marshall: a cidade transtornada

"A História e o globo importam, a nação e o estado importam, mas nosso mundo mesmo é a cidade, neste caso, uma entidade de nome feliz, Porto Alegre"

30/01/2016 - 15h04min
Francisco Marshall: a cidade transtornada Jéssica Rebeca Weber/Agência RBS
Ponte de Pedra, na Praça dos Açorianos, em Porto Alegre Foto: Jéssica Rebeca Weber / Agência RBS  

Quando vemos o mundo e o país transtornados, por desatinos e catástrofes provocadas, e sentimos o peso de uma máquina devastadora que não conseguimos controlar – das catástrofes ambientais ao terrorismo, da cruel desigualdade econômica ao império de tecnologias sujas –, é natural que olhemos para o próprio quintal, em busca de um cenário onde podemos interferir diretamente, onde podemos, também, viver e colher alegrias imediatas. A cidade, projeção do corpo, da casa, do bairro, paisagem amigável que dá fluxo ao cotidiano, espelho de nossos próprios passos, é a nave em que a humanidade transita há 5 mil anos; nave agressiva, que domina o ambiente, exaure e polui fontes, destrói bosques e cenários puros, mas magnetiza a potência humana, “ergue e constrói coisas belas”, e segue um destino que seria levar todos a um quinhão melhor de eficiência e felicidade na curta vida. A História e o globo importam, a nação e o estado importam, mas nosso mundo mesmo é a cidade, neste caso, uma entidade de nome feliz, Porto Alegre.

É fácil coletarmos imagens bonitas e montar um videoclipe da Porto Alegre colorida; das feiras da José Bonifácio ao pôr do Sol, do Mercado Público ao Monumento aos Açorianos (de Carlos Tenius), do Theatro São Pedro à Cidade Baixa, nos parques e ruas arborizadas, sobram cenários plásticos e bem frequentados por gente boa e bela (cada um a seu modo). Todavia, o turista que enxergar este clipe e vier nos visitar poderá nos processar por propaganda enganosa e nos difamar com toda a razão. Se for bater fotos na Ponte de Pedra, verá que um de nossos ícones virou lixo; se for passear de bicicleta, conhecerá traçados surrealistas feitos provavelmente por marcianos que nunca andaram em duas rodas, nem conhecem os códigos viários; se for ver o pôr-do-Sol, será possivelmente assaltado e/ou sapecado pelo Aedes aegypti, se pretender pegar um ônibus, vai esperar uma vida inteira para entrar em máquina cara, suja e sem conforto – e ainda poderá abrir o jornal e ler que a autoridade de trânsito acha dispensável ar-condicionado. Este turista encontrará um povo monoglota, mas se topar com algum nativo bem falante, ouvirá cada coisa… de avenidas importantes vítimas de tripla destruição, do vandalismo que destrói monumentos, das dezenas de obras inacabadas e paradas ad aeternum, transtornando gravemente o dia a dia. Estamos falando apenas da Porto Alegre central e aparente, a dos turistas (que nós, indígenas, também somos, aqui e acolá), mas se formos aos bairros e à periferia, veremos outro grau do caos urbano, tipicamente brasileiro, aqui não menos ruim. Que nave é essa, e quem nela é ou está alegre?

Teremos uma cidade no futuro, pode-se dizer, como consolo ou esperança. Alguns preferem mesmo a cidade do passado, mais bonita, mas esta não voltará – ela habita nossa memória, mas nela não podemos habitar. O futuro imediato, todavia, mostra a cidade sorriso ameaçada pela iminência de um grande malfeito, que pretende degradar a região portuária com transformações catastróficas, em uma proposta de inacreditável inconsistência. Há clareza entre urbanistas, arquitetos, ambientalistas, economistas, historiadores, sociólogos, antropologos, jornalistas, juristas, artistas, escritores e demais interessados de vários campos, bem como em parcela muito expressiva da opinião pública, de que a chamada proposta de “revitalização” do Cais Mauá é profundamente anacrônica (superada, sem atualidade, cafona), errada em seus princípios e argumentos, e que sua realização ocorre de forma obscura (proposta sem projeto, maquetes que ocultam os fatos críticos, ausência total de diálogo e aperfeiçoamento, jogadas suspeitas), eivada de falhas que há muito imporiam o colapso formal da “proposta”, se estivéssemos em uma república minimamente séria (descumprimento de cronogramas, burla de princípios urbanísticos diretivos e do Estatuto das cidades, falta de garantias exigidas em contrato, etc.). Para desconsolo dos que demonstram de modo consistente as falhas acima, o poder público, que deveria defender a cidade contra estas ameaças, age em favor do empreendedor, fazendo vista grossa para erros graves, pelos quais podemos vir a pagar caro, e mesmo (acredite quem quiser) abrindo mão de exigências que poderiam beneficiar a cidade, apiedado (!) da falta de recursos do empreendedor. Mais: hoje pagamos com o orçamento municipal os salários de verdadeiros prepostos do empreendimento, acomodados na administração municipal. É um quadro tenebroso o que cerca esta proposta, ora a mais grave ameaça pairando sobre a cidade.

Enquanto isto, o povo se aglomerando na orla, em busca de parques, Sol, um espaço de fruição e alegria na cidade; enquanto isso, as escolas ávidas de cenários de educação ambiental; enquanto isso, a nova economia, cooperativa e criativa, clamando por espaço. Será que neste porto seremos bobos alegres, ou acharemos um caminho para a felicidade?

*Francisco Marshall escreve mensalmente no PrOA.

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