Pensamento mágico

Carlos Orsi: A superstição empreendedora

Superstições são coisas que a humanidade inventou para conter as incertezas. No fundo, sabemos que somos reféns do acaso: prudência e trabalho podem reduzir vulnerabilidades, mas não há blindagem perfeita

16/07/2016 - 03h05min | Atualizada em 16/07/2016 - 03h05min
Carlos Orsi: A superstição empreendedora Reprodução/Divulgação
Um mercado de superstição que cresce a olhos vistos e cujo caráter irracional passa despercebido, porque não se identifica com os esoterismos do passado é o dos modernos gurus do empreendedorismo Foto: Reprodução / Divulgação  

Carlos Orsi
Jornalista, escritor e autor do blog carlosorsi.blogspot.com

Tempos bicudos geram insegurança, e superstições são coisas que a humanidade inventou para conter as incertezas que se acha incapaz de administrar. No fundo, sabemos que somos reféns do acaso: prudência e trabalho duro podem reduzir certas vulnerabilidades, mas não há blindagem perfeita. Mesmo quem se refugia na religião convive com a incômoda possibilidade de sua fé não ser suficiente – ou de o "plano divino" prever algo diferente do que estava no programa.

Por conta disso, ainda há um bom nicho para astrólogos, numerólogos e cartomantes. Porém, existe outro mercado de superstição que cresce a olhos vistos e cujo caráter irracional passa despercebido, porque não se identifica com os esoterismos do passado. Os modernos gurus do empreendedorismo é que são os herdeiros de Calcas, vidente que acalmava os gregos no cerco de Troia.

Hoje em dia, esse grupo, que representa uma mutação dos consultores empresariais do passado, não se limita a segurar a mão de executivos e acionistas de impérios em colapso, mandando-os andar sobre leitos de brasa em hotéis-fazenda: seu "Ki-Suco para a alma" está à disposição de qualquer um que queira abrir um best-seller ou contratar um "coach".

A expressão "Ki-Suco para a alma" – "Kool-aid for the soul" – é usada pela jornalista americana Barbara Ehrenreich em seu livro Sorria (Record, 2013), uma crítica cáustica à cultura do pensamento positivo, para se referir aos conselhos edulcorados, mas nada nutritivos, dessas figuras. A mais disseminada e insidiosa das superstições que vendem é a de que o destino pode ser manipulado subjetivamente, por uma "atitude positiva" que deve ser mantida todo tempo, a qualquer custo.

Ehrenreich vê aí uma reencarnação da velha neurose cristã do exame constante de consciência: enquanto o puritano tinha de policiar os pensamentos em busca de sinais pecaminosos, a fim de erradicá-los, o empreendedor, vendedor ou profissional contemporâneo ouve que precisa fazer o mesmo com suas ideias negativas.

O dano à sanidade mental e ao convívio social – vindo do patrulhamento constante, não só de si mesmo como também dos outros que, afinal, podem ser fontes de contágio pelo "pecado" do negativismo – não difere muito de um fanatismo para o outro. Vários estudos mostram que a atitude positiva forçada e a visualização constante das metas (outra superstição popular) não só não entregam o prometido como, muitas vezes, são prejudiciais.

A idolatria dos "cases" e das biografias de "vencedores" é mais um vício supersticioso. Listas de 10 hábitos dos bilionários, sete atitudes das grandes firmas, etc., são inúteis. O motivo é o viés de seleção: não adianta saber que 200 magnatas acordam às cinco da manhã para meditar, se você não tem ideia de quantos pobretões fazem o mesmo.

Toda superstição traz custos, e a vida já faz cobranças reais. Não tem sentido tentar mitigá-las abraçando imposições irracionais – seja a de evitar o número 13, de não passar embaixo de escadas ou, pior ainda, de censurar e torturar o coração e a mente.

 
 
 
 
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