Só com a fala

Versão em português de app do Google divide opiniões

Criado há pouco mais de 15 anos, o Google virou muito mais do que um instrumento de busca na internet

13/05/2014 | 06h03
Versão em português de app do Google divide opiniões Reprodução/zero hora
Ao telefone, apenas com a voz, aplicativo permite inúmeras pesquisas Foto: Reprodução / zero hora

Correção: Diferente do publicado entre as 6h03min de 13/5/2014 até as 17h57min do mesmo dia, o sistema de busca do Google (para Android, iOS e navegador Chrome) recebeu atualização de pesquisa de voz em português, e não apenas o aplicativo Google Now. O texto já está corrigido.

Você pode andar meio estagnado, mas seu computador, celular ou tablet estão ficando cada vez mais inteligentes. Na batalha de conglomerados como Google, Apple, Amazon ou Facebook para se transformar em espaço preferencial de interação dos humanos com o mundo, os dispositivos eletrônicos já sabem onde você mora, que caminho deve pegar para chegar mais rápido ao trabalho, com quem anda, o tipo de filme de que gosta e até o que vai desejar daqui a pouco, mas ainda não se deu conta. A última do seu celular é que agora o desgranido também fala português.

Ele está apto a se pronunciar na língua de Camões e Valesca Popozuda desde esta segunda-feira, quando o Google colocou em operação o serviço de fala e reconhecimento de voz em português. Quem se criou a vasculhar enciclopédias para achar informações agora não terá sequer o trabalho de digitar no mecanismo de busca. Basta falar, que o celular responde. Além do aplicativo Now para iOS e Android, o serviço também está disponível na busca do site em navegadores Chrome.

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Esse é mais um degrau galgado pela tecnologia para nos isentar das tarefas e facilitar os lazeres de cada dia. Para ter uma noção do que já está disponível, tome-se como exemplo o próprio Google Now. Quem habilita o app no celular ganha uma espécie de assistente personalizado.

Pouco antes da hora habitual de sair para o trabalho, por exemplo, ele verifica de maneira espontânea qual o trajeto mais desimpedido, programa o GPS e avisa quanto tempo a viagem vai levar. Se você viu no computador o trailer de algum filme, na próxima vez que olhar o celular será informado dos cinemas onde ele está passando e em que horários. E assim por diante, nas mais variadas dimensões e sempre de forma automática. Parece que o programa o conhece e sabe o que você quer – e é essa a ideia por trás dele.

:: Em vídeo, veja como funciona a pesquisa de voz do Google em português:



Para usuários, que estão descobrindo essas potencialidades em uma série de novos dispositivos de diferentes empresas, e também para especialistas, trata-se de mais um passo na revolução trazida pelos computadores e pela internet.

– Google, Apple, Microsoft estão tentando ir por esse caminho de tornar as conversas mais humanizadas. Isso é um sonho, fetiche e temor da humanidade há muito tempo – afirma Eduardo Pellanda, pesquisador da PUCRS.

Discussão sobre a memória humana

Para as vozes críticas, dispositivos eletrônicos inteligentes produzem seres humanos estúpidos. Se o Google nos oferece todas as respostas, o que vai ser da nossa memória? Se a Amazon é capaz de determinar por nossas compras anteriores qual o próximo livro que estaremos tentados a ler, como seremos capazes de nos orientar sozinhos e deparar com ideias novas e inesperadas? Se um programa da Apple nos indica, passo a passo, o caminho para um destino, como descobriremos lugares diferentes?

A discussão não é nova – pelo menos não para os padrões da internet, onde tudo com mais de uma semana parece mergulhado em um passado longínquo. Em 2008, o escritor americano Nicholas Carr desencadeou um intenso debate ao publicar um ensaio de título provocativo: O Google está nos deixando burros?”.

No texto, ele afirmava que as facilidades proporcionadas pelos softwares estavam minando algumas habilidades humanas preciosas, como a capacidade de concentração, a leitura em profundidade e até mesmo o pensamento. “À medida que passaram a contar com computadores para mediar nossa compreensão do mundo, é a nossa própria inteligência que se achata em inteligência artificial”, escreveu Carr, na versão em português oferecida pelo Google Tradutor.

Os próprios fundadores do Google, Sergey Brin e Larry Page, nunca esconderam o desejo de transformar seu buscador em um mecanismo de inteligência artificial capaz de suplantar o cérebro humano. Veja o que Brin disse em uma entrevista, também na versão meia-boca fornecida pelo tradutor de sua empresa:

– Se você tinha toda a informação do mundo diretamente ligado ao seu cérebro, ou um cérebro artificial que era mais esperto do que o seu cérebro, você seria melhor fora.

Os maiores temores, no entanto, às vezes se revelam exagerados. O próprio Carr lembra que o filósofo grego Sócrates não deixou obras por ser contra a escrita (achava que as pessoas não guardariam nada na memória, se pudessem achar as informações em livros).

A coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos da UFRGS, Léa Fagundes, que dedicou grande parte dos seus 84 anos a pesquisar como se aprende, não compartilha essa linha de pensamento. Otimista, acredita que computadores e tablets colocam à disposição recursos de interação capazes de desenvolver a inteligência e o raciocínio.

– Estamos vivendo a maior revolução cultural que a humanidade já passou. É emocionante. Desde cedo, vemos as crianças explorando o tablet com os dedinhos, fazendo descobertas, e elas não conhecem letras ou números. A tecnologia pode fazer mal? Só se usar errado.

 
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