Risco em duas rodas

Em acidentes fatais, 27% dos motociclistas não têm habilitação

Estatísticas revelam irresponsabilidade de condutores de motos envolvidos em acidentes

26/06/2012 | 05h35

Já se sabia que o alto índice de mortos e feridos em acidentes com motos decorria da situação de desproteção de quem está sobre duas rodas. Mas uma pesquisa recém-concluída pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS) revela que há outro importante fator envolvido: a irresponsabilidade dos motociclistas.

Conforme o Mapa da Acidentalidade Estadual com Foco em Motocicletas, dos 2.452 condutores de moto que se envolveram em acidentes fatais entre 2007 e 2010, 27% não tinham habilitação. A falta de carteira foi a terceira infração mais cometida por motociclistas de 2007 até o ano passado, com 36,3 mil casos. Entre os motoristas de automóveis, essa é apenas a nona infração mais comum.

As estatísticas sugerem, ainda, que muitos dos pilotos sequer têm idade para se habilitar. Entre 2007 e 2008, 138 adolescentes com idade entre 15 e 17 anos morreram em acidentes envolvendo motos – 82 estavam ao guidão. De janeiro a maio de 2012, 29% dos mortos do trânsito gaúcho estavam sobre uma moto.

– Está faltando consciência e responsabilidade – afirma Ildo Mário Szinvelski, diretor-técnico do Detran/RS.

Mais óbitos nos finais de semana

Um dos principais agravantes é a facilidade para comprar uma moto – hoje é possível dividir o custo em 60 vezes, com parcelas que, para muitos, significam menos do que o gasto mensal em passagem de ônibus.

– Está tão barato que até menores de idade estão comprando. No meio rural, os gaúchos estão trocando o cavalo pela moto – observa João Fortini Albano, professor do Laboratório de Sistemas de Transportes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O estudo mostra que metade das mortes atinge pessoas com menos de 30 anos – especialmente na faixa dos 18 aos 24. Os óbitos ocorrem mais à noite e nos fins de semana.

Segundo Szinvelski, o Detran tem trabalhado com Centros de Formação de Condutores para reforçar a educação dos candidatos a motociclista. O órgão também elaborou, com o Sindicato dos Motociclistas Profissionais (Sindimoto), uma cartilha com dicas de segurança. Entre 2009 e 2011, o SUS pagou a internação de 3.534 motociclistas gaúchos feridos em acidentes. A conta foi de R$ 4,8 milhões.

Detran irá propor mudança na formação

O Detran gaúcho vai apresentar, no próximo mês, um conjunto de propostas para mudar a legislação brasileira que rege a formação e a habilitação dos condutores de motos. A intenção é mexer no Código de Trânsito Brasileiro e em resoluções do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) para preparar melhor os condutores.Técnicos do departamento estão concluindo o estudo, motivado pelas estatísticas envolvendo motociclistas. As propostas serão oficializadas no encontro da Associação Nacional dos Detrans, na Capital, em julho.

O diretor-técnico do órgão, Ildo Mário Szinvelski, não detalha que alterações serão sugeridas, mas antecipa que elas incidirão sobre questões como aulas práticas e ampliação de carga horária.

– Os números apontam que é preciso qualificar os condutores. Precisamos de um reposicionamento pedagógico – afirma.

A formação de motociclistas é considerada deficiente por especialistas. Uma das críticas é sobre a falta de aulas nas ruas. Para a vice-presidente da Associação dos Motociclistas do Rio Grande do Sul, Lorena Herte de Moraes, a formação é inferior à que se dá a motoristas de carros – apesar de a moto deixar o condutor mais vulnerável:

– As aulas não preparam para as situações que serão encontradas. Minha filha acabou de tirar a carteira para moto e não tenho coragem de deixá-la andar sem um curso de pilotagem.

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