Sem plano B

Justiça decidirá entre duplicação da Beira-Rio ou preservação de árvores

Prefeitura não tem alternativa de trajeto no caso de a proibição aos cortes ser mantida

26/04/2013 - 05h31min
Justiça decidirá entre duplicação da Beira-Rio ou preservação de árvores Ricardo Duarte/Agencia RBS
Para a duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva, será preciso cortar 115 árvores Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS  

Nos próximos dias, o Tribunal de Justiça deverá decidir se as motosserras voltarão a roer os troncos de 115 árvores marcadas para morrer pela duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva, a Beira-Rio, em Porto Alegre — 14 já foram ao chão.

Se for mantida a proibição à retirada, por enquanto obtida via liminar pelo Ministério Público (MP), a prefeitura não terá um plano B para a obra. Restará, portanto, um gargalo no trânsito entre o Centro Histórico e a Zona Sul.

Os guardiões das árvores ainda estão tranquilos em suas barracas, armadas na região desde o dia 17. Ali vivem cerca de 20 estudantes, artistas, moradores de rua, punks e outros integrantes do movimento Ocupa as Árvores. No início da tarde de quinta-feira, o grupo almoçava sob as grossas copas do arvoredo entre a Câmara Municipal e a futura rótula da avenida. Se a causa for perdida na Justiça, a tensão deverá tomar conta do acampamento. Os manifestantes prometem subir nas árvores para evitar que tombem.

— Logo a duplicação dessa via se tornará obsoleta — profetiza um deles, que não quis se identificar.

Segundo o secretário municipal de Gestão, Urbano Schmitt, todas as alternativas técnicas para complementar o alargamento da Beira-Rio na região da Usina do Gasômetro foram estudadas. Concluiu-se que somente a duplicação da Avenida Presidente João Goulart, em frente à usina, possibilitaria o desafogo do trânsito.

Em fevereiro, 14 derrubadas foram feitas no traçado planejado, mas ativistas ocuparam as árvores restantes. Só depois veio a liminar pedida pelo MP.

O debate, porém, supera a preservação e aborda o limite da supressão de espaços urbanos na Capital para desafogar os automóveis. Qual será esse limite? Especialista em trânsito e professor da UFRGS, João Fortini Albano afirma que essas ampliações são círculos viciosos.

— Quando melhora, os motoristas começam a usar mais (o carro), e uma hora volta a trancar. Enquanto não se quebrar esse fluxo, será assim — argumenta, apontando o investimento no transporte público como solução.

Para cortar as árvores, entende a promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, Ana Maria Moreira Marchesan, a prefeitura ignorou a Lei Complementar Municipal 646, de 2010, que cria o Parque Corredor do Gasômetro. Ela critica a eliminação de espaços públicos devido às obras da Copa:

— É difícil. A questão econômica parece preponderar, assim como a lógica do automóvel, que é perversa porque a gente corta e corta árvores e, dali a dois dias, a via está deficitária.

O secretário Urbano garante que o Parque do Gasômetro não será afetado pela obra. O vice-prefeito Sebastião Melo não se arrisca a avaliar se a duplicação da Beira-Rio — prevista desde 1979, lembra — pode se tornar obsoleta, como sugere o manifestante barbudo que vigia as árvores. Melo acredita ser necessário priorizar o transporte público, o que será um "processo gradativo":

— Nós vamos conviver a vida inteira com o carro.

 
 
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