Opinião

Escola para adultos

Nunca somos 100% adultos, 100% velhos, 100% jovens, mas apenas um ponto em relação a outro, maduros (ou não) apenas em comparação aos outros e a nós mesmos

21/04/2017 - 11h07min | Atualizada em 21/04/2017 - 11h07min

Houve um tempo em que todo mundo era mais velho do que eu – avós, pais, irmãos, primos, professores. E esse intervalo entre a minha idade e a dos outros parecia justificar, na minha cabeça, tudo aquilo que eu ainda não podia ou não sabia fazer: sair de casa sozinha, cozinhar, consertar o chuveiro, falar alemão, curar resfriados.

Antes que eu me desse conta, a situação começou a se inverter. Colegas de trabalho, sobrinhos, filhos de amigos, cada vez mais gente parecia mais nova do que eu. Ao mesmo tempo, algumas habilidades que eu vinha reservando para desenvolver em um futuro remoto começaram a ser riscadas da lista. Dirigir? Não, obrigada. Falar alemão? Talvez não nesta na vida. Consertar chuveiros? Fala sério.

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Nas últimas décadas, tornar-se adulto parece cada vez mais um péssimo negócio. Quem pode trata de adiar ao máximo o primeiro emprego, as primeiras contas, o primeiro apartamento, a decisão de ter (ou deixar de ter) filhos. Essa possibilidade de adiamento, quando existe, acaba criando a sensação de que a vida adulta é opcional – como casar ou comprar uma bicicleta. Aqueles que, finalmente, optam por ¿adultescer¿ contam agora com a mãozinha de instrutores especializados. Os criadores da chamada Escola para Adultos, instalada na cidade americana de Portland, revelam que tiveram a ideia do negócio observando, como terapeutas, que cada vez mais jovens de 20 ou 30 anos queixavam-se das dificuldades para enfrentar a transição para a vida adulta e suas responsabilidades.

Aos 50, posso garantir aos formandos que ainda não me sinto 100% adulta em todas as situações. Às vezes (muitas vezes), queria apenas poder ligar para a minha mãe e perguntar: ¿Como é que faz?¿. Isso porque a idade não é uma grandeza absoluta. Nunca somos 100% adultos, 100% velhos, 100% jovens, mas apenas um ponto em relação a outro, maduros (ou não) apenas em comparação aos outros e a nós mesmos.

Até o último suspiro, somos um trabalho em progresso: nunca tão preparados para a vida adulta a ponto de não sentirmos falta do tempo em que sempre havia um adulto por perto para resolver todos os nossos problemas – e sem cobrar mensalidade.

 
 
 
 
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