Polêmica na rede

O vídeo maldito do Porta dos Fundos 

O problema do filme não é o conteúdo; é a forma

06/04/2016 - 04h03min | Atualizada em 06/04/2016 - 09h12min

Assisti ao vídeo do Porta dos Fundos que valeu recorde de críticas e milhares de cancelamentos de assinaturas do canal. O vídeo sugere... sugere, não: diz claramente que a Polícia Federal protege o PSDB e investe sobre o PT nas investigações da Lava-Jato, a fim de prender o Lula.

O vídeo é um erro. Não pelo tema em si. É claro que a Polícia Federal pode ser gozada. Tudo, todos podem ser gozados.

Não, não é pelo conteúdo. É pela forma.

Porque o vídeo é ruim.

Seu primeiro defeito é não ter graça. Mas esse nem pode ser considerado tão grave. O Porta dos Fundos faz dois vídeos por semana, seria impossível que todos fossem engraçados. O grande problema é que o filme não passa naturalidade. Parece forçado. Dá a impressão de que o canal, que em outros vídeos criticou o governo, queria, agora, contrabalançar, fazer uma espécie de contraponto. Como se os autores gritassem: "Olha, não somos coxinhas nem petralhas. Nós gozamos de todo mundo".

Com o país em profunda dissensão, muita gente sente essa necessidade. Muita gente se esforça para parecer isenta, e deixar claro que critica "os dois lados".

Trata-se, de certa maneira, de uma vitória do PT. Mas também se trata de uma armadilha em que o PT se meteu.

O PT conseguiu jogar todos os críticos para um lado, rotulou-os todos, são todos iguais. A estratégia é dizer que um crítico do PT será sempre de direita, contra avanços sociais, neoliberal, defensor do capital, vendido para a classe patronal, conservador e, de quebra, machista, homofóbico, racista e, claro, preconceituoso.

Ou seja: é feio ser contra o governo.

Em parte, funciona. Se é verdade que cada vez menos gente acha paciência e disposição para defender o governo, também é verdade que ser contra a maioria garante uma aragem de resistência heroica. O guerreiro da esquerda, sozinho, enfrentando os grandes opressores, sacrificando-se pela causa, batendo-se pelos desvalidos.

É o único governo que encontrou defesa tão teimosa de seus seguidores. Getúlio não teve esse tipo de apoio. Getúlio era popular porque os ditadores populistas eram os heróis do povo, naquele tempo. Perón e Evita foram o mesmo na Argentina.

A diferença é que Perón, Evita e Getúlio eram indivíduos e cativavam por suas personalidades. Hoje, os governos é que são defendidos. E o são até por algumas pessoas ilustradas. Gregório Duvivier, que deve ter sido mentor do fraco vídeo do Porta dos Fundos, é um artista mediano, mas Chico Buarque é genial; Letícia Sabatella é uma atriz mediana, mas Wagner Moura é ótimo. Ou seja: há algumas pessoas inteligentes defendendo o governo. Por quê? Porque a paixão enlouquece mesmo os sábios.

No futuro, a uma distância segura e crítica, os governistas vão olhar para trás e se comportar como aquelas pessoas que se deprimem depois de uma separação e, anos mais tarde, ao reencontrar fortuitamente o antigo amor, pensam: "Como fui sofrer tanto por isso?".

Hoje eles não conseguem ver porque estão no calor do combate, não podem perder a discussão, mas os fatos são implacáveis: o conjunto de irregularidades, crimes, malfeitos etcétera dos governos do PT é tão vasto, que, se Dilma continuar no cargo, Collor terá de receber reparação do Estado como perseguido político.

E é aí, neste ponto, que aparece a armadilha que os petistas montaram para eles mesmos: eles classificam todos os críticos como sórdidos. Ora, no momento em que a pessoa percebe que a crítica é merecida, ela se sente insultada ao ser identificada com a sordidez. A reação é natural: ela parte para o revide. E assim se estabelece o clima belicoso em que se encontra o Brasil, e assim há quem sinta necessidade de contemplar "os dois lados", como se lidasse com torcidas de futebol, e assim pode surgir algo forçado, como o vídeo do Porta dos Fundos. Normal, nesses dias duros. Mas vai passar.

Assista ao vídeo:

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