Dor

Aos promotores do caso Kiss 

Será que tenho direito de pedir algo?

19/06/2017 - 18h22min | Atualizada em 19/06/2017 - 18h54min

O ser humano só é inteiro quando tem a capacidade de sentir compaixão. Ao olhar para o outro e compreender sua dor, o homem se completa em sua humanidade.

A compaixão é o sentimento central do cristianismo e do budismo e parte fundamental da filosofia de Schopenhauer.

Falo em compaixão por causa das recentes ocorrências no caso da boate Kiss.

Estive lá, naquela triste manhã de janeiro. Entrei no ginásio em que estavam deitados os corpos das 242 crianças mortas no incêndio da boate e caminhei entre eles. Foi uma das mais terríveis experiências da minha vida.

Quatro anos se passaram. Os pais dos meninos mortos, revoltados com o andamento do processo, atacaram os promotores responsáveis pela investigação. E os promotores, sentindo-se ultrajados, entraram com uma ação contra os pais.

Nesta segunda, nós entrevistamos um dos promotores, Joel Dutra, no Timeline, da Rádio Gaúcha. Pareceu-me um homem sensato. Ele disse que defende sua honra ao manter a ação contra os pais. Depois da entrevista, fiquei pensando naquilo. Continuei pensando toda a manhã e por metade da tarde. Tentei decidir se tinha direito de pedir alguma coisa, nesta questão. Cheguei à conclusão de que não. Não tenho o direito. Não sou ninguém para reivindicar algo a qualquer das partes nessa situação.

Mas, ao mesmo tempo, ocupo um espaço importante na Zero Hora. Esta página em que escrevo tem lá a sua leitura e a sua relevância. Não por mim, pelo jornal.

Então, resolvi que sim, vou me alçar e fazer um pedido público. Vou pedir aos promotores que retirem a ação. Vou pedir que engulam a ofensa e o orgulho e que relevem a agressão. Se os pais quiserem continuar insultando, deixem que insultem. Se lhes derem um tapa na face direita, ofereçam a esquerda.

Os pais e mães daqueles meninos e meninas já perderam mais do que homens e mulheres são capazes de suportar. Retirando a ação, vocês não vão lhes diminuir a dor, mas vão lhes proporcionar um pequeno alívio. Porque eles saberão que, se a tragédia é irreparável, se a dor jamais terá fim, pelo menos outras pessoas estão olhando para eles e entendendo o que eles sentem. Pelo menos eles saberão que o mundo, afinal, não é tão cruel como tem sido nos últimos quatro anos.

Retirem a ação, senhores promotores. Retirem. Será um gesto de grandeza e de humanidade. Não posso pedir em nome de ninguém nem de nada, senão por um sentimento, que decerto vocês levam no peito: retirem por compaixão.

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