David Coimbra

David Coimbra

Colunista de ZH e GZH e comentarista da Rádio Gaúcha, teve 18 livros publicados. Prêmios: 10 ARI, Esso de Reportagem, Direitos Humanos, Habitasul de Literatura, Erico Verissimo de Literatura, Açorianos de Literatura, entre outros. David faleceu em 27 de maio de 2022 após 10 anos de luta contra o câncer. Suas crônicas seguirão disponíveis em GZH.

Futebol

Nunca um time gaúcho jogou como o Grêmio  

Há muito esforço, tanto que parece tudo natural

David Coimbra

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Nunca houve, no Rio Grande amado, um time que jogasse como o Grêmio está jogando. Nem a melhor equipe gaúcha de todos os tempos, o Inter dos anos 1970.

Se fosse escalar uma seleção dos melhores jogadores que vi em campo, três seriam daquele time: Manga com seus dedos em garra no gol, Figueroa com seu cotovelo de aço na zaga-central e Falcão com seu queixo erguido na volância.

Era um time que vinha de uma ideia, de uma lógica que havia se tornado central no futebol gaúcho desde que Foguinho começara a escalar "homens grandes" no Grêmio dos anos 1950.

O Grêmio enfiou 12 campeonatos de 1956 a 1968, na Era Olímpico, mas então o Inter aprontou o Beira-Rio e convocou uma nova geração de dirigentes para assumir o clube, os chamados Mandarins.

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Esses Mandarins estabeleceram um paradigma: jogador, para calçar a botina no Inter, tinha de ter duas de três qualidades: habilidade, velocidade e força. Podia ser um jogador habilidoso e veloz, mas não forte, como Lula; podia ser habilidoso e forte, mas não veloz, como Figueroa; podia ser veloz e forte, mas não habilidoso, como Dario. Só não podia ter apenas um desses predicados. Foi aí que Bráulio, que era habilidoso, mas não veloz nem forte, acabou sendo mandado para o América do Rio, gerando trepidante polêmica na província.

O Grêmio de Luiz Felipe seguia mais ou menos essa regra. O presidente Koff gostava de dizer que, em futebol, "não existe uma única fórmula, mas é preciso ter uma fórmula". O Grêmio de Koff, Felipão e Cacalo tinha. Jogava como uma gaita: abria-se para atacar, fechava-se para defender. Os jogadores sabiam que deviam correr sem a bola e, o principal, sabiam para onde deviam correr.

Certa vez, na Copa de 2002, fui testemunha de uma cena que me deixou espantado. Era um treinamento comum, realizado antes de a Copa começar, em Ulsan, na Coreia do Sul. Ronaldo já era Ronaldo, já era o Fenômeno, a maior estrela da Seleção e da competição. Luiz Felipe, porém, não fazia a menor concessão a esse prestígio. Durante o treino a que me refiro, pegava-o pelo braço e, falando alto, quase gritando, mostrava:

– Olha aqui, ó: é aqui que tu tens de te posicionar!

O treino prosseguia, a bola voava de um lado para outro, Ronaldo corria e Luiz Felipe apitava de novo, parando tudo, agarrando outra vez o braço do centroavante e levando-o até um quadrante do gramado:

– Não é por aí! É por aqui! É assim que tu tens de correr!

Ronaldo, com admirável humildade, ouvia e obedecia. E aprendia.

No Grêmio, Luiz Felipe também indicava que caminhos deveriam ser percorridos pelos jogadores, e eles entendiam e, em campo, cumpriam.

Era um time notável. Mas, de forma alguma, jogava como este, de agora, está jogando. O Grêmio de Renato joga com uma naturalidade assombrosa. Contra o São Paulo, no Morumbi, controlou a partida com tamanha facilidade, que, a certo momento, parecia enfastiado do jogo. Vê-se, na movimentação dos jogadores, que ali há trabalho. Eles também sabem por onde devem correr, como o time de Felipão, mas tocam a bola como só vi o Flamengo de Zico tocar.

Um time que joga com dois pontas abertos, como o Inter de Valdomiro e Lula. Que ataca com oito e se defende com nove. E que tem jogadores solidários, sempre dispostos a dar ao companheiro a melhor opção de passe. Um time que flui. Que se mata de tanto esforço, mas parece jogar enquanto passeia assobiando com a mão no bolso. Eis a maior das qualidades, porque nada é mais difícil do que fazer bem como se fosse fácil.

Esse time é obra de Renato e Romildo e da inteligência dos seus jogadores. Uma única Copa do Brasil é pouco para uma equipe que está jogando assim. Mais um grande título, pelo menos, e esse time será, de fato, imortal.

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