Comportamento

Filho procura a mãe desaparecida  

Meu amigo tem uma história que daria novela

11/08/2017 - 20h30min | Atualizada em 14/08/2017 - 14h31min


Foto: Edu Oliveira / Arte ZH

Quando meu amigo Henrique Liki Schnitzspahn tinha 14 anos de idade, a mãe dele ficou completamente cega. Viviam apenas os dois em um apartamento nos baixos da Plínio Brasil Milano, a poucos metros de onde eu morava. Assim, ele precisava ocupar-se de muitos dos trabalhos de casa, inclusive cozinhar. Na verdade, o Henrique lidava com panelas e caçarolas desde os nove anos, quando o glaucoma de dona Margarida, a mãe dele, começou a se acentuar. Suspeita, o Henrique, de que isso aconteceu porque ela forçava a vista ao costurar sob a fraca luz elétrica, a fim de ajudar no orçamento doméstico.

A história do Henrique daria uma novela. Dona Margarida não era sua mãe biológica. Ele foi dado em adoção seis dias depois de nascer. Na sexta passada, o Henrique enviou-me a cópia de um pedaço de papel que ele traz guardado por toda a vida. É um documento tocante em sua simplicidade e objetividade. Diz o seguinte:

"DECLARAÇÃO

Eu, Cecília Canabarro, brasileira, solteira, com 24 anos de idade, declaro que desisto da maternidade de meu filho Henrique Flavio, nascido no dia 12-1-1962. Motivo pelo qual entreguei-o ao casal Julio Schnitzspahn e Margarida Ferreira Schnitzspahn para que o criem e registrem em seu nome como filho legítimo".

Foto: Reprodução

O casal, de fato, criou Henrique como filho legítimo, mas ele sabia que era adotado e até conheceu Cecília, a mãe biológica.

Já escrevi sobre o Henrique várias vezes aqui. Ele é o Diana, que disputou comigo a Grande Final do campeonato de botão. Eu sabia que ele era filho adotivo, até porque dona Margarida era negra, enquanto o Diana parecia um alemão, com sua pele muito branca, seus olhos azuis e seu cabelo aloirado. Claro, poderia ser filho de um "casal misto", como se dizia então, mas ele nunca demonstrou constrangimento em contar que era adotado e, francamente, nenhum de nós dava a menor bola para isso.

O pai do Henrique morreu em 1972, e dona Margarida, em 1991. Aí ele, em suas próprias palavras, ficou "sozinho no mundo". Mas sabia que tinha uma irmã e que o nome dela era Clarice, e sentia vontade de conhecê-la. Em 1996, o Henrique decidiu que iria encontrar essa irmã e perguntar para sua mãe biológica por que ela havia desistido dele. Na semana de seu aniversário, 12 de janeiro, descobriu o telefone dela, ligou e convidou as duas para um jantar em seu apartamento, lá no IAPI.

No dia do encontro, o Henrique estava nervosíssimo. Comprou bebidas e doces e pôs toda a sua habilidade de cozinheiro em ação para preparar a melhor lasanha de frango da sua vida. No fim da tarde, tomou banho, perfumou-se e entrou na roupa domingueira. Arrumou a mesa e ficou esperando. Esperando...

Elas não apareceram.

Depois daquele dia, Henrique não ligou mais, e elas tampouco se manifestaram. Mas agora, já na maturidade, casado e com filhos, trabalhando como professor em Santa Catarina, uma angústia foi-lhe crescendo no peito e se tornando uma obsessão.

"Eu não tenho história", ele me disse na sexta-feira. "Preciso descobrir a minha história. Preciso descobrir quem sou".

Henrique está desesperado para encontrar a mãe e a irmã das quais não tem notícias há 21 anos. Acha que elas ainda vivem em Porto Alegre, por isso virá à capital gaúcha nesta semana, a fim de procurá-las. Criou até um e-mail para ajudar: filhoprocuramae@gmail.com

Comovido com a história do meu velho amigo, vendo nela um drama que pode dizer algo a outras pessoas sobre valores e afetos, resolvi relatar o caso de público. E pedir colaboração aos leitores. Se alguém tiver uma pista da mãe do Henrique, mande um e-mail para ele. E ajude uma família a se reencontrar.

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