* Jornalista e escritor
A crise não é crise, nem escândalo é. Muito mais do que isso, é o Apocalipse.
Jamais pensei que chegássemos a este momento. Nunca sequer sonhei que a Besta apareceria de corpo inteiro, em centenas e variados corpos de homens e mulheres, estampando na testa o tétrico número 666 que o Livro da Revelação nos antecipou como marca do horror.
Sim, pois no Brasil o apocalíptico fim do mundo instalou-se na alta política e em parte do alto empresariado, num conluio em que o crime chega ao clímax e despenca sobre todos nós. O presidente Temer surge publicamente como um dos dínamos da corrupção, por ato praticado já no cargo: mandar pagar milhões pelo silêncio de Eduardo Cunha na prisão.
Em março, o país já conhecia e repudiava a podridão revelada pela Lava-Jato, sem saber que (em segredo) o presidente insuflava subornos para ocultar crimes.
Agora, pela primeira vez a Procuradoria-Geral da República – autorizada pelo STF – investigará um chefe de governo. Nem Collor, que generalizou a corrupção na área federal (até ali, ocasional e regional) foi investigado criminalmente por procuradores, só pelo Congresso.
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O que é isto, se não o terremoto que anuncia o fim do mundo e faz surgir do mar a besta de sete cabeças e 10 chifres, e sobre os chifres 10 diademas, e sobre as cabeças um nome-número de blasfêmia?
A investigação da Polícia Federal em que Temer aparece mandando – sim, mandando – somar mais R$ 5 milhões para comprar o silêncio de Eduardo Cunha na prisão, chama-se "Patmos", a ilha grega em que foi escrito o Apocalipse. Em números, o que ali se desvendou supera a Lava-Jato no roubo à Petrobras. A ponta do rabo do gato está nos bilionários empréstimos (a juro ínfimo e prazo secular) do BNDES aos irmãos Joesley e Wesley Batista, para a compra de frigoríficos nos EUA e Europa. Com dinheiro público, a JBS tornou-se a maior processadora de carnes do planeta.
Fácil, não?
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Lula da Silva e Dilma Rousseff, cada um a seu tempo, foram padrinhos do Império dos Batista. De permeio, dois curingas facilitavam tudo, talvez de olho nas migalhas do banquete: o então ministro da Fazenda Guido Mantega, pelo PT, e o vice-presidente Michel Temer, pelo PMDB. Com pistolões assim, sobrava gás.
Mas, buscando obter gás a preço mais baixo para sua usina termelétrica, os Batista revelaram o suborno gigantesco: ficaram de pagar R$ 500 mil por semana durante 20 anos (num total de R$ 480 milhões) para que Eduardo Cunha, então deputado, com o poder do PMDB junto ao Cade, forçasse a Petrobras a baixar preços.
Usaram, então, o antigo suborno como tema da conversa com Temer e, em março, gravaram as palavras do presidente, em chantagem explícita, como no baixo mundo do crime. E um emissário de Temer (deputado e ex-assessor presidencial) foi fotografado com uma mala com R$ 500 mil em cédulas marcadas…
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E os que não votaram em Lula nem em Dilma-Temer por detestar os negocistas do PT e PMDB e, em 2014, de boa-fé, viram em Aécio Neves, do PSDB, uma réstea de esperança?
O neto de Tancredo Neves agrediu o próprio avô, que o levou à política, não só o país. Em 2014, Dilma o venceu por margem apertada, o que lhe deu certa "autoridade" para opinar. Agora, na conversa gravada, em que pede aos Batista R$ 2 milhões, Aécio fala como confuso drogado. Usa frases desconexas e palavrões a granel, com ênfase nos órgãos genitais, como se a vida de senador e presidente nacional do PSDB se limitasse a isso.
Logo, fala do futuro carregador dos R$ 2 milhões em espécie e, ao estilo da máfia, revela o portador ideal: "Um que a gente mata ele antes de virar delator"…
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O Supremo Tribunal só podia suspendê-lo como senador, tal qual suspendeu o mandato do deputado Rodrigo Loures, carregador dos $$ para Temer. E o procurador-geral tinha o dever de investigar o presidente e o STF de assim permitir.
Se não renunciar nem houver impeachment, será o caos. Temer perdeu a condição primeira para governar – ser confiável. E, no caso de eleição (mesmo direta), os candidatos virão de partidos viciados no horror.
É ou não o monstro do Apocalipse?
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