Paralelo 30

Os gaúchos e sua raiz ibérica 

Martim César e Marco Aurélio Vasconcellos apresentam um disco histórico

Por: Juarez Fonseca
02/06/2017 - 19h29min | Atualizada em 02/06/2017 - 19h29min
Os gaúchos e sua raiz ibérica  Juarez Fonseca/Arquivo Pessoal
Acordeonista dos fados e a amiga cozinheira num cantinho azul de Lisboa, em registro do colunista no ano de 1973 Foto: Juarez Fonseca / Arquivo Pessoal  

Um dos mais premiados compositores/intérpretes dos festivais nativistas e o principal letrista gaúcho dos anos 2000 unem novamente suas forças e gerações em um arrojado projeto poético-musical: o álbum Doze Cantos Ibéricos & Uma Canção Brasileira, que está sendo lançado nesta sexta-feira no Teatro do Sesc. Marco Aurélio Vasconcellos e Martim César inauguraram a parceria em 2011, com Já se Vieram!, disco dedicado ao universo das carreiras de cavalos no interior do Estado. Desta vez vão bem mais longe, mas sem sair do lugar. Escritor e pesquisador de grande erudição sobre a história deste pedaço do mundo formado pelo Rio Grande do Sul, o Uruguai e parte da Argentina, Martim teve a ideia de resumir em música a formação cultural dos habitantes da região no que ela tem de mais remoto, as raízes ibéricas.

– Quantos sabem que as receitas de doces que fazem a fama de cidades como Pelotas são açorianas? Que as alpargatas e boinas que muitos gaúchos usam, bem como a tecnologia de construção de mangueiras e pontes de pedra, são de origem basca? Que muitas canções e danças que integram nossa cultura têm origem nos primeiros povoadores? – pergunta Martim.

Leia outras colunas de Juarez Fonseca

Depois de mergulhar nos livros e deles extrair lugares, paisagens, personagens, lendas e aventuras da dimensão das grandes navegações, ele imprimiu-os nas letras que Marco Aurélio musicou.

– Nunca fui fã do fado, até que em certo momento, antes deste trabalho, me dei conta de que minhas composições nativas tinham algo de fado – conta Marco. – Como explicar isso? Atavismo, talvez. E, agora, as melodias iam brotando ao natural, também não sei explicar...

Com tudo pronto, em 2014 os parceiros viajaram para Portugal e Espanha em busca da cor local para depurar o que haviam feito. Andaram pelo Alentejo, o Algarve, Coimbra, Lisboa da Mouraria e Alfama, o Porto, os rios Mondego, Tejo e Ebro, a Galícia, Santiago e seus caminhos, Astúrias, Catalunha, o País Basco, Andaluzia. Sonharam com Cabral, Dom Pedro e Inês de Castro, Colombo, El Cid, Cervantes, singraram o imenso mar – o encarte do CD, com 28 páginas recheadas de fotos da viagem, inclui muita informação extra e citações de Camões, Eça, Saramago, Antonio Machado, Florbela Espanca. Mas não se pense que as canções sejam mero registro histórico – o que já seria interessante. Nada disso. Elas têm vida própria, são moldadas com o olhar, a inspiração, a sensibilidade e o amor de hoje. Martim se supera. 

 Melancolia portuguesa, dramatismo espanhol

A música de abertura do álbum, Sobre os Telhados de Lisboa, termina assim: ¿A nave-mestra deixa o cais/ Com esse olhar de nunca mais/ Que Portugal gravou em mim/ Devo partir, içar as velas/ Rumar ao porto de outras eras/ Singrar o azul do mar sem fim¿. Alguns títulos: Velhas Casas de Coimbra, Onde o Vento Faz a Curva, España, Cuando te Nombro, Céus de Castilla y León, Antes de Ser Marinheiro, O Fado se Fez ao Mar

A melancolia portuguesa e o dramatismo espanhol, unidos no Novo Mundo, fazem a essência do trabalho, que se encerra com o humor de Notícias da Terra Brasilis, gaiata versão da carta de Pero Vaz de Caminha, contando ao rei que permanecerá no Brasil para ¿dar início à mestiçagem¿. Aliás, deve ser parente dele o brilhante Marcello Caminha, referência de violonista na música gaúcha, produtor e arranjador do álbum, que chamou para ajudá-lo o não menos Elias Barboza (bandolim) e Marcello Caminha Filho (baixo, percussão).

Uma obra tão significativa, histórica mesmo, merece todos os créditos: produção executiva de Elis Vasconcellos e Martim César, fotos de Elis e Regina Lopes d¿Azevedo, projeto gráfico (impecável) da Nativo Design, técnico de gravação Érlon Péricles, masterização do mestre Marcos Abreu. Parabéns!


Martim e Marco Aurélio: parceria dos músicos chega ao seu momento alto Foto: TV News / Divulgação

DOZE CANTOS IBÉRICOS & UMA CANÇÃO BRASILEIRA
De Marco Aurélio Vasconcellos e Martim César
Independente, distribuição Tratore e Minuano Discos.
Show de lançamento nesta sexta-feira, às 20h, Teatro do Sesc Centro (Av. Alberto Bins, 665). Ingresso a R$ 30. Informações (51) 3284-2000.

ANTENA

SUL | BRANCO
De Luana Carvalho
Este álbum de estreia da cantora carioca é, para mim, a primeira grande surpresa do ano. Eu não conhecia Luana, que começou como atriz da Globo, aos 17 anos, em 1998, até se dar conta que sua história tinha muito a ver com música e literatura (é formada em Letras). Ela se criou no meio musical, é filha da sambista Beth Carvalho. Com algumas canções na gaveta, em 2015 decidiu gravar um disco e chamou Moreno Veloso para produzi-lo, pois encontrava nele e sua turma (Domênico Lancellotti, Pedro Sá, Lucas Vasconcellos, Alberto Continentino) o tipo de sonoridade que queria para o trabalho: timbres originais, sutilezas, ares minimalistas para cercar seu canto delicado, leve, cool. Era para ser só um disco, Branco. Mas quando ficou pronto para ser lançado, Luana já tinha composto várias músicas novas e decidiu fazer outro disco, Sul. ¿Senti que um não deveria existir sem o outro e resolvemos fazer um álbum duplo¿, justifica. Sul tem cinco sambas e duas marchas-rancho, com letras muito bonitas. Em Branco são 11 faixas, dela e autores como Pedro Luís, quatro não-inéditas, entre elas dois dos momentos mais emocionantes do álbum: Paloma Negra, clássico da mexicana Chavela Vargas, e Força da Imaginação, de Caetano Veloso e Dona Ivone Lara (com participação dela), feita em 1982 para Beth Carvalho gravar. Coqueiro Verde e plataformas digitais. 

DOS NAVEGANTES
De Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise
Talvez o melhor disco gravado por Edu Lobo em muito tempo, Dos Navegantes é uma espécie de balanço da vasta obra do grande compositor e seus tantos parceiros, com músicas de todas as décadas entre os anos 1960 e os anos 2000. Tudo começou quando Edu fez participação em duas faixas do disco Todo Sentimento, de Romero Lubambo e Mauro Senise, lançado no final de 2016. Habituado com orquestrações, ele adorou a formação enxuta de sopros, violão e contrabaixo, e a produtora Ana Luísa Marinho, mulher de Senise, sugeriu que o mesmo time fizesse um disco com Edu. Ele topou na hora e um dia depois enviou e-mail com uma lista de 32 músicas, das quais saíram as 11 do disco. É um Edu Lobo de câmera, um repertório clássico. No estúdio, Lubambo (violão, guitarra), Senise (sax, flauta) e Bruno Aguilar (baixo) estimulam Edu a cantar como nunca e enfatizar a classe de seus parceiros em A Morte de Zambi (Guarnieri), Toada, Gingado Dobrado (ambas com Cacaso), Dos Navegantes (Paulo César Pinheiro), Considerando (Capinan), Cidade Nova (Ronaldo Bastos), Valsa Brasileira, Valsa dos Clows, O Circo Místico e Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa (todas com Chico Buarque). Na última faixa, a inédita Noturna, instrumental, o piano de Cristóvão Bastos se une à guitarra e ao sax. Um álbum fora de série. Biscoito Fino e plataformas digitais. 

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.