Caos e desespero

Papel do Brasil na crise venezuelana

Seja qual for o governo brasileiro, impõe-se a ação pragmática. Sob Dilma ou Temer, a Venezuela de Nicolás Maduro provoca desfonforto

Léo Gerchmann

Enviar email

Tanto a oposição quanto o governo venezuelano veem no Brasil um apoio essencial para a manutenção da solidez institucional e para a superação da crise, seja quem for o governante de turno na potência sul-americana. Preponderam o pragmatismo e a objetividade das relações comerciais, apesar das bravatas. Todos querem o apoio brasileiro, seja para pôr um basta na atual situação ou para proteger um aliado em apuros.

Em termos de afinidades, a presidente afastada Dilma Rousseff, mesmo repetindo o discurso de alinhamento ideológico, não se sentia confortável nem com os presidentes de linha bolivariana nem com a argentina Cristina Kirchner – a relação que ela vinha mantendo com o novo presidente argentino, Mauricio Macri, era fluida. Dilma batia de frente com o grupo bolivariano e com Cristina ao tentar, com o uruguaio José Mujica e o Paraguai, abrir o Mercosul para a União Europeia e a Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, Peru e México).

ESPECIAL ONLINE: O QUE VIMOS NA VENEZUELA

Com o presidente interino Michel Temer, a situação não sofre grandes alterações, apesar dos discursos políticos e das circunstâncias de enfrentamento na política miúda brasileira. A Venezuela, como está, não interessa. Não é de estranhar que o Brasil, sob Temer, tenha oferecido ajuda humanitária a Caracas em razão do desabastecimento de medicamentos, segundo confirmou o próprio chanceler José Serra. Na lista de 15 remédios que devem atravessar a fronteira, estão anti-hipertensivos, anti-inflamatórios e contra a diarreia infantil, todos produzidos em laboratórios públicos brasileiros. É o pragmatismo.

Leia mais colunas de Léo Gerchmann

A reação forte de Nicolás Maduro contra o processo de impeachment brasileiro tem o aspecto óbvio do alinhamento ideológico. O presidente venezuelano, porém, teve ali outro tipo de pragmatismo, mais ardiloso e mirando na própria sobrevivência política. Ao botar no mesmo saco o impeachment brasileiro e o referendo revogatório venezuelano – um recall político legitimado pela Constituição e isento de questionamentos –, tenta reforçar a caracterização de uma grande conspiração orquestrada pelo “império” para derrubar governos de esquerda, em supostos golpes disseminados.

De qualquer forma, sabe-se que, por conveniências políticas, Maduro teme um governo brasileiro não petista. Concordando ou não com os métodos chavistas e tendo ou não interesses comerciais acima dos ideológicos, seria do PT que poderia vir um apoio mais enfático. Serra costuma dizer que não é democrático um regime que mantém presos políticos, como faz o de Maduro. ZH apurou com um ministro do governo de Luiz Inácio Lula da Silva que, em diversos encontros com Chávez, o então presidente brasileiro procurou moderar o tom do aliado. Lula saía escandalizado dos encontros. Dilma, economista de formação técnica, tinha discordâncias essenciais na condução econômica, em especial quanto à falta de diversificação produtiva. Ainda assim, por questões políticas, tenderia a ser menos incisiva em eventuais reprimendas diplomáticas.


GZH faz parte do The Trust Project
Saiba Mais
RBS BRAND STUDIO

Gaúcha +

15:00 - 16:30