O impeachment

Tem cara de golpe, penteado de golpe e jeito de golpe

Leia a coluna publicada na superedição de fim de semana de ZH       

Por: Luis Fernando Verissimo
30/12/2016 - 21h05min | Atualizada em 31/12/2016 - 03h04min

Ninguém menos PT do que o Joaquim Barbosa disse em entrevista para a Folha de S.Paulo que o impeachment de Dilma Rousseff foi uma encenação. Barbosa já não estava no Supremo Tribunal Federal durante o processo do impeachment, mas, como ex-ministro do STF, pode falar com autoridade sobre o que acontecia nos bastidores. E ele diz que o impeachment foi como um véu para tapar interesses espúrios e manobras políticas. Não quis entrar na discussão semântica sobre se foi golpe ou não foi golpe, mas o que ele descreve tem cara de golpe, penteado de golpe e jeito de golpe. Como escreveu o Shakespeare, que importância tem um nome? Uma porcaria com qualquer outro nome cheiraria o mesmo.

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Se foi encenação, tratemo-la, como diria o Temer, como teatro. Não faltaram vilões na trama, começando com o Eduardo Cunha, que pôs em movimento o processo que culminaria meses depois com o afastamento da presidente e movia-se em cena como um conspirador florentino. Tivemos a cena apoteótica dos deputados votando pelo prosseguimento do processo, talvez o mais desconcertante espetáculo de mediocridade política na nossa história.

– Pelo Brasil, pela família e pela nossa cachorrinha Frufru, voto "sim"!

Não sei se as estatísticas mostram isso, mas depois da exposição dos deputados àquele ridículo deve ter aumentado o número de emigrantes deixando o país, envergonhados.

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Tivemos o enfático Miguel Reale Júnior e a superenfática Janaína Paschoal fazendo a acusação à presidente com competência, mas não menos competência do que Cardozo e outros em sua defesa. Uma das observações feitas por Barbosa na sua entrevista é a do absoluto descaso pelos argumentos, perfeitamente cabíveis, da defesa. As principais causas que justificariam o impeachment não foram provadas, o que não influiu no resultado da votação, já conhecida, segundo Barbosa, muito antes.

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E entra em cena Michel Temer. Seu papel na peça, baseado no seu tipo físico, deveria ser de mordomo, mas ele entra como principal beneficiário da trama sinistra. Numa carta escrita a Dilma quando esta ainda era presidente, Temer se queixava de ser um vice decorativo. Nunca se viu uma carreira política tão fulminante: de decoração a presidente em poucas semanas.

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No fim da nossa peça, a cachorrinha Frufru passa correndo pelo palco, para delícia da plateia.

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