Olhar Global

May quer sair do armário

Cento e vinte anos depois da libertação de Oscar Wilde da prisão de Newgate, conservadores britânicos querem trazer para o governo um partido norte-irlandês que se opõe à descriminalização da homossexualidade

15/06/2017 - 20h54min | Atualizada em 16/06/2017 - 14h03min

O irlandês Oscar Wilde cumpriu pena de dois anos de prisão com trabalhos forçados por "grave indecência" na Londres do século 19. Passou por quatro penitenciárias. Na segunda, Pentonville, era obrigado a girar uma roda de moinho e desfiar estopa. A vida atrás das grades liquidou a verve e a saúde frágil do autor de O Retrato de Dorian Gray. Ao ser libertado, em 1897, estava alquebrado e doente. Há uma ironia digna de Wilde no fato de que, 120 anos depois, a República da Irlanda seja governada por um taoiseach (primeiro-ministro) gay, enquanto o governo da trineta da rainha Vitória esteja a ponto de admitir no gabinete um partido da Irlanda do Norte que se opõe historicamente à descriminalização da homossexualidade.

O Daily Mirror mostrou May e seus candidatos a parceiros Nigel Dodds, Peter Robinson e Gregory Campbell, do DUP, vestindo os uniformes do ultrarreacionário unionismo, sob o título "Coalizão de lunáticos" Foto: Reprodução / Divulgação

A Irlanda do Norte é um enclave de seis condados de maioria protestante (o catolicismo é dominante no país) que se opuseram à independência e preferiram continuar sob o manto de Sua Majestade. Há 50 anos, a minoria católica passou a desafiar a presença britânica no que ficou conhecido como Os Tumultos – eufemismo para uma semiguerra civil que deixou 3 mil mortos e mais de 50 mil feridos dos dois lados. O Partido Democrático Unionista (DUP), prestes a ingressar no governo, foi fundado em 1971. Seu líder, o reverendo e futuro primeiro-ministro Ian Paisley, considerava a tradicional agremiação protestante, o Partido Unionista do Ulster (UUP), moderada demais. Paisley queria sangue. Ele e seus rapazes criaram meia dúzia de organizações paramilitares a fim de atacar católicos.

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Em 1998, as partes assinaram o Acordo de Belfast, pelo qual concordavam em dividir o governo. A Paz da Sexta-feira Santa, como ficou conhecida, previa que Londres não tomasse partido de nenhum dos lados. Agora, May quer sair do armário. Os nacionalistas do Sinn Féinn já condenaram o flerte. O ex-premier conservador John Major e o ex-negociador Jonathan Powell preveem resultados desastrosos. Até o ultraconservador tabloide Daily Mirror chamou a iniciativa de "coalizão de lunáticos". A primeira-ministra não se abala. Quando o poder está em jogo, vale tudo. "A base para o otimismo", ensinou Oscar Wilde, "é o puro terror".

 
 
 
 
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