Show alto-astral

Jorge do bem

 Só Jorge Ben conseguiu elevar a malícia a obra de arte. Sua leveza e seu suingue não se deixam contaminar pela rabugice operante.

Por: Martha Medeiros
05/04/2017 - 04h01min | Atualizada em 05/04/2017 - 04h01min

Até hoje não me acostumei com essa mania de artistas trocarem algumas letras do próprio nome, seguindo instruções da numerologia. Foi o caso do Jorge Ben (cujo nome de batismo é Jorge Duílio Lima Meneses), que lá pelas tantas ressurgiu em cena com um novo nome artístico: Jorge Ben Jor. Comigo não vingou. Sempre foi pra mim the one and only Jorge Ben. Até que assisti ao espetáculo de domingo passado no Anfiteatro Pôr do Sol, à beira do Guaíba, numa tarde de outono que mais parecia uma pintura, e me ocorreu um terceiro nome pra ele, já que ele gosta dessas alquimias. Ele poderia se chamar Jorge do Bem.

O projeto Nivea Viva tem prestado homenagens à música brasileira, e neste ano chegou a vez de prestigiar o pai do samba-rock, do samba-funk, autor de País Tropical, Fio Maravilha, Mas que Nada e outras canções que fazem parte do melhor repertório da MPB. No palco, além do homenageado, estava a linda cantora Céu (na certidão Maria do Céu Whitaker Poças) e a banda mineira Skank, liderada pelo carismático e talentoso Samuel Rosa. A turnê fez sua estreia aqui no Sul diante de milhares de pessoas e agora ganha a estrada: tocará em outras sete capitais.

Eu já tinha visto Jorge Ben tocar uns 40 anos atrás — tudo isso. Foi num show na Sapt, em Torres. Eu ainda estava no colégio, era um projeto de gente. Só agora fui assistir a ele de novo, e o tempo parece ter passado só pra mim, não pra ele. Continua com aquele ar de garotão que veio ao mundo a passeio. Deve ser a razão do seu encanto magnético.

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Jorge canta o amor, a sedução, a paixão, a chuva, as flores, a brejeirice, a malemolência, tudo com letras absurdamente simples, que inspirariam um incauto a dizer: "Ah, isso até eu faço". Só que ninguém fez. Só Jorge Ben conseguiu elevar a malícia a obra de arte. Sua leveza e seu suingue não se deixam contaminar pela rabugice operante.

Jorge Ben não se recomenda: se prescreve. Jorge Ben para quem ama com dificuldade e sofrimento, Jorge Ben para os petulantes que andam de nariz em pé, Jorge Ben para quem leva tudo muito a sério, Jorge Ben para quem está trancafiado num escritório e numa gravata, Jorge Ben para quem desaprendeu a se divertir com uma pelada (pode ser futebol ou mulher), Jorge Ben para quem anda com o sorriso preso e a alma idem.

Eu gosto do nome que ele sempre teve e não gosto do nome que ele adotou — Ben Jor. Mas adoro este que inventei agora, de brincadeira, depois do show alto-astral de domingo: Jorge do Bem. Contra os espíritos do mal. Obá, obá, obá.

 
 
 
 
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