A tinta do egoísmo

Defender pichação, era só o que faltava

Há quem veja a pichação como rebelde e transgressora, como uma forma de dar voz a quem vive à margem da sociedade. Uma balela atrás da outra

21/04/2017 - 12h27min | Atualizada em 21/04/2017 - 13h42min
Defender pichação, era só o que faltava Gabriel Renner/Arte ZH
Foto: Gabriel Renner / Arte ZH  

O psicanalista Wilhelm Reich, que era marxista, vou repetir, ele era marxista — aliás, mais adiante vou falar sobre o próprio Marx, mas, por enquanto, vale ressaltar que Wilhelm Reich era marxista —, pois Reich escreveu um belo livro em 1945 chamado Escuta, Zé Ninguém. Ele descreve de forma detalhada um tipo de gente muito irritante: é o sujeito que justifica um comportamento imoral e egoísta como forma de questionar o status quo.

Você deve conhecer alguém assim. É o chato que recorre a delírios ideológicos para embasar práticas truculentas que nada têm a ver com ideologia. Na época de Reich, esse cidadão furtava, vandalizava e cortejava a mulher do amigo sob a desculpa de estar contestando a ordem burguesa.

Hoje, o Zé Ninguém defende a pichação.

Tem uma esquerda aí deslumbrada com ela. Acha a pichação rebelde, transgressora, um ato de desobediência civil, uma forma de dar voz a quem vive à margem da sociedade. A pichação é a resistência dos excluídos, é a rebelião em forma de tinta, é um silencioso grito de insatisfação popular, na cabeça irrefletida dessa esquerda apedeuta. Uma balela atrás da outra.

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Houve uma época, de fato, em que a pichação não só era justificável como era necessária. Na Era Vargas e na ditadura militar, pintavam-se as paredes para alertar a sociedade sobre o regime tirânico. Porque, claro, só haviam sobrado as paredes: a imprensa fora censurada, a oposição fora cassada, toda divergência fora calada. Não havia formas de se comunicar, não havia redes sociais, então a pichação tornou-se uma rara via de contato entre a população e o outro lado.

Passado esse período de trevas, permaneceu uma aura romântica em torno de uma contravenção que, atualmente, não serve para nada além de destruir. A maioria esmagadora das pichações não tem indicativo político, não incita reflexão alguma, não convoca a população, não prega qualquer mudança, não estimula a participação democrática nem coisa nenhuma: são apenas sinais ou nomes cifrados de gente tão inútil que não serve nem para incomodar os ricos.

Como diz meu amigo Caue Fonseca, a pichação é covarde. Ela ataca o imóvel exposto ao público, aquele sem grades, sem vigilante, sem qualquer condição de defesa, mas poupa qualquer mansão milionária com um mastodonte guardando a porta. Ela ataca a vendinha da esquina, mas poupa o hipermercado. Ela ataca o coitado que não consegue pagar R$ 400 para pintar a parede de branco, mas poupa quem teria R$ 400 mil para pintar o bairro inteiro.

Esses pichadores são a representação perfeita do que Marx chamou de lumpemproletariado — gente desvinculada da produção social que prefere se dedicar à arruaça e a outras atividades marginais. Marx e a literatura clássica da esquerda sempre demonstraram desprezo pelo lumpemproletário, um vagabundo incapaz de fazer revolução alguma e que ainda poderia contaminar a consciência revolucionária com sua absoluta ausência de valores.

Wilhelm Reich pegou esse conceito marxista e trouxe para o cotidiano: abençoar tudo quanto é canalhice como se fosse uma corajosa conduta progressista é imaturidade ou falta de perspectiva política. A pichação corrói milhares de prédios cidade adentro, esculhamba avenidas lindas como a João Alfredo, faz gente pobre gastar dinheiro e, como se não bastasse, ainda temos que aguentar defensores dos oprimidos achando isso tudo bonitinho?

Se pichar é enfrentar o status quo, tudo bem, quero ver picharem as paredes do Congresso. Mas larguem de mão a vendinha da esquina e deixem a cidade em paz.

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