Pavor e repressão

A aula de pilates e o medo do pior

Já na primeira aula, em meio àquele estica e puxa nos aparelhos, notei que, enquanto meu abdômen fazia força, alguma coisa se afrouxava

07/07/2017 - 15h32min | Atualizada em 07/07/2017 - 15h44min
A aula de pilates e o medo do pior Edu Oliveira/Arte ZH
Foto: Edu Oliveira / Arte ZH  

O problema do pilates é que ele mexe nuns troços que seria melhor deixar quietos. Eu, claro, não sabia disso, então aceitei a recomendação do médico, que disse que meus músculos andavam flácidos. Acho meio humilhante um homem ter músculos flácidos — não que me importe tanto com meus músculos, mas músculos flácidos, aí já pega mal.

— O senhor tem músculos flácidos — reprovou o doutor, e eu me senti oficialmente um sujeito mole, meio despregado, todo murcho.

Teria de fazer pilates, paciência.

E não é ruim, pelo contrário, só há de se tomar alguns cuidados. Já na primeira aula, em meio àquele estica e puxa nos aparelhos, notei que, enquanto meu abdômen fazia força, alguma coisa se afrouxava lá dentro. As alunas e professoras — ainda tenho a impressão de que, fora eu, só mulheres fazem pilates — emanavam elegância naquele desenrolar de pernas e braços, mas eu, sentindo a coisa afrouxar lá dentro, só pensava no Diógenes.

Que homem, o Diógenes.

Sua filosofia, uma das mais influentes da Grécia Antiga, pregava que tudo o que é natural não pode estar errado. Ele usava essa premissa para peidar, urinar e se masturbar em público, mas isso nunca impediu a população de admirá-lo. Os atenienses respeitavam sua postura contestadora, sempre denunciando as convenções sociais e a forma como o homem complicava "os mais simples presentes dos deuses".

Outras crônicas de Paulo Germano:
A pessoa certa para dar tudo errado
O prazer de falar mal dos outros
Fobia de fumante

O casamento, dizia Diógenes, era uma forma de complicar o presente natural do sexo. Quer dizer: para alcançar a felicidade, ninguém precisaria depender de qualquer coisa externa à própria existência. Bastaria usufruir dos "presentes naturais" e libertar-se das imposições de uma sociedade que, em vez de acolher, reprime.

E como reprime. Por que eu deveria me sentir tão reprimido? Ora, minhas reações fisiológicas eram absolutamente naturais no pilates, puxa vida, eu nunca havia me contorcido tanto. E na volta para casa, depois da aula, era sempre a mesma angústia.

— Vai acontecer. Sei que uma hora vai — repetia eu, ainda suando.

E assim atravessei as últimas semanas, suando e me segurando, me esticando e me concentrando, até que no fim de uma das aulas, quando o alongamento individual de cada aluno é conduzido pelas professoras, deu-se o seguinte: estava eu lá, deitadão, aí a professora ajoelhou-se à minha frente, segurou minhas canelas e, como de praxe, empurrou-as com todo o peso de seu corpo, de modo que meus joelhos chegassem ao meu próprio peito, apertando assim meu abdômen.

Só que foi meio forte.

E aí aconteceu.

E foi meio alto.

Na verdade, foi bem alto, então olhei para a professora, ela me olhou de volta com um sorriso acanhado, uma aluna me olhou com um sorriso desconfiado, um terrificante silêncio abateu-se sobre o estúdio, e eu ali, deitado e abraçado à minha própria vergonha, lembrei de Diógenes e enfim suspirei, derrotado:

— A sociedade reprime!

 
 
 
 
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