Golpe duro

A queda de Michel Costa: Marchezan perde seu diretor favorito

Perfil proativo e discurso moderno do diretor da Procempa, flagrado em um caso clássico de conflito de interesses, empolgaram o prefeito

10/08/2017 - 07h02min | Atualizada em 10/08/2017 - 07h03min
A queda de Michel Costa: Marchezan perde seu diretor favorito Cristine Rochol/Divulgação Prefeitura de Porto Alegre
O prefeito Marchezan e o então diretor-técnico da Procempa, Michel Costa, em foto de 21 de março: admiração mútua Foto: Cristine Rochol / Divulgação Prefeitura de Porto Alegre  

Não dá para negar: o homem era bom, era rápido, tinha iniciativa, inovava, resolvia, entregava. O prefeito Marchezan, acostumado a achar muita gente incompetente, viu-se encantado com o estilo irrequieto de Michel Costa. Desde a campanha eleitoral, o empresário do ramo de tecnologia cobria o então candidato de ideias para modernizar a gestão pública.

— Ele é o cara — repetia o tucano em reuniões por aí.

Marchezan se impressionava, por exemplo, com a facilidade de Costa para abordar empresários gringos. Seu inglês macarrônico, quase engraçado de tão ruim, não lhe constrangia nada ao dizer o seguinte:

— Não temos dinheiro para pagar pelo serviço, mas, se toparem investir em Porto Alegre, o Brasil todo verá que o serviço funciona. Dezenas de cidades vão se interessar.

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Em uma dessas investidas, a empresa Capester lançou aqui seu aplicativo de mesmo nome, que permite aos usuários registrar em vídeos infrações de trânsito e enviá-los à EPTC. Como diretor-técnico da Procempa, Costa liderou o projeto de carregar o cartão TRI pela internet, de pagar ônibus com cartão de crédito, de instalar nas câmeras de vigilância um software que lê placas de carros roubados. Ele também quis implantar GPS nos ônibus da Carris.

Foi quando a coisa degringolou.

A empresa que passou a testar GPS nos ônibus — conforme revelou a reportagem de Carlos Rollsing, do Grupo de Investigação (GDI) da RBS — tinha o próprio Michel Costa como sócio. A essa altura, além de diretor na Procempa, Costa também era presidente do Conselho de Administração da Carris. Um caso clássico de conflito de interesses.

Carlos Rollsing também descobriu que outra empresa de Costa, em 2016, teria recebido do Daer R$ 422 mil de superfaturamento em um serviço terceirizado. Foi essa mesma empresa que prestou serviços para a campanha eleitoral de Marchezan e que criou a plataforma digital que hospeda o Banco de Talentos da prefeitura.

— Acho que o Michel fez uma cagada — reconheceu o prefeito, cabisbaixo, em conversa com assessores.

Ainda assim, Marchezan resistia em exonerá-lo. Aguardava uma incontestável explicação do seu diretor favorito, mas a explicação não veio e, no fim da manhã de ontem, veio a carta de exoneração. Michel Costa, em reunião no gabinete do prefeito, pediu para sair.

Marchezan não faz ideia de quem botar em seu lugar.

 
 
 
 
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