Loteamento de cargos

O preço das nomeações por critério político

Um setor que emprega milhões de pessoas corre o risco de entrar em colapso pela ação e pela omissão de quem deveria fiscalizar

20/03/2017 - 21h37min | Atualizada em 20/03/2017 - 21h37min

Critério republicano para a ocupação de cargos públicos, o concurso não imuniza servidores de carreira contra as tentações do ganho fácil, mas são as nomeações por apadrinhamento político o vírus que permite a expansão de esquemas como os descobertos na Lava-Jato, na Operação Carne Fraca e em tantos outros casos de corrupção pelo Brasil afora. Eram servidores concursados (e bem pagos) vários dos operadores do esquema que assaltou a Petrobras. São concursados os ficais do Ministério da Agricultura que deveriam zelar pela qualidade da carne oferecida ao mercado, mas as chefias regionais entraram no loteamento de cargos entre os partidos da base do governo. 

O preço das nomeações sem critério técnico (e sem filtro ético) está sendo pago pelo país inteiro. Um setor que emprega milhões de pessoas corre o risco de entrar em colapso pela ação e pela omissão de quem deveria fiscalizar. Para complicar a situação, os exageros da Polícia Federal na divulgação de suas descobertas amplificaram o que já era grave. A menção a "papelão" em uma das gravações, por exemplo, foi interpretada como se um frigorífico estivesse misturando papelão à carne, quando fica claro que, naquele caso, se tratava de embalagem. Em outras gravações é inequívoca a má-fé dos interlocutores.

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Com a queda das vendas de carne e embutidos no mercado interno e a suspensão de importações por países da União Europeia, China, Coreia e Chile, o governo chora sobre o leite derramado. As autoridades batem cabeça, aturdidas diante da possibilidade de naufragar anos e anos de trabalho para conquistar credibilidade internacional. Quem fez tudo certo acaba pagando pelos que tentaram aumentar seus lucros adulterando produtos. É toda uma cadeia produtiva ameaçada pela irresponsabilidade que só prosperou porque a fiscalização, em algum momento, falhou.

Última ministra da Agricultura no governo de Dilma Rousseff, a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) confirmou a informação do jornalista Josias de Souza de que foi pressionada pelo hoje ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB-PR), quando demitiu o superintendente do Paraná, Daniel Gonçalves Filho, um dos personagens da Operação Carne Fraca. 

Não é de hoje que os partidos se engalfinham para acomodar seus protegidos nos cargos federais mais disputados de uma estrutura com milhares de postos com bons salários, visibilidade política e poder para alavancar doações de campanha. 

No Rio Grande do Sul, que não tem nenhum frigorífico investigado na Carne Fraca, foi a Operação Leite Compen$ado que, em maio de 2015, derrubou o superintendente Francisco Signor. A investigação concluiu que havia, na Superintendência Regional do Ministério da Agricultura, uma organização que anulava o trabalho dos fiscais e favorecia a fraude por questões políticas. A demissão de Signor não foi suficiente para alterar o modelo viciado de preenchimento de cargos com base no QI, que nada tem a ver com "quociente de inteligência", mas com "quem indica".

 
 
 
 
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