Crônica de domingo

Um beijo, um abraço e nada mais 

No Dia dos Pais, recorro aos momentos gravados na memória para preencher o vazio da orfandade 

13/08/2017 - 10h00min | Atualizada em 13/08/2017 - 10h00min

Se eu pudesse dar um conselho aos filhos sobre o melhor presente neste Dia dos Pais, não iria sugerir nada do que a propaganda recomenda. Que me perdoem os lojistas e os donos de restaurante, mas não consigo pensar em nada mais valioso do que um beijo e um abraço. Este é o terceiro ano em que meu abraço de Dia dos Pais encontra o vazio, e a dor da orfandade volta misturada ao arsenal de lembranças boas que me ajudam a sobreviver à ausência.

Órfão sempre me pareceu uma das palavras mais sombrias da língua portuguesa, mas só senti o quanto pesa em 2015, quando perdi meu pai e entendi que o "sentido figurado" do dicionário é absolutamente real: "Desamparado, desvalido; privado; que perdeu um protetor ou uma pessoa muito cara".

Em vez de abrir os arquivos de retratos, prefiro recorrer aos momentos que ficaram gravados na memória. Quantos terabytes de lembranças terei acumulados nos 55 anos em que, mesmo distante, meu pai me protegeu do mal, dos medos e dos temporais?

Nessa viagem pelas memórias afetivas, hoje volto a 1971, o ano da coragem. Para que eu pudesse continuar estudando depois de concluir o primário na nossa aldeia, meu pai levou-me pela mão à cidade de Tapera para fazer o exame de admissão ao ginásio, uma espécie de vestibular sem o qual não se podia seguir adiante nos estudos. Passei e precisamos (a família inteira) de toda a coragem do mundo para encarar a primeira separação.

Com 10 anos, saí de casa para só retornar nas férias, mas sempre tive a certeza de que, se alguma coisa desse errado, eu teria para onde voltar.

Tento imaginar os medos que meu pai e minha mãe tiveram de enfrentar quando assinaram um documento de emancipação para que eu, aprovada no vestibular da PUC aos 17 anos, pudesse viver em Porto Alegre sem as restrições legais de uma "menor de idade". Na rodoviária, meu pai se despediu com apenas uma frase:

– Eu confio em ti.

Nessa frase cabia o mundo – e posso ter exagerado na interpretação, porque qualquer coisa fora da linha imaginária que tracei me parecia trair essa confiança. O brilho nos olhos azuis do meu pai, quatro anos depois, quando recebi o diploma, é uma dessas imagens que me confortam na hora da saudade.

 
 
 
 
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