Caixa de entrada

Newsletter: de volta para o futuro

Diferentemente das redes sociais, os e-mails devolvem ao usuário o poder de escolher o que receber e ler 

31/03/2017 - 12h43min | Atualizada em 31/03/2017 - 12h58min
Newsletter: de volta para o futuro /
 


Tem gente que coleciona minicraques da Copa do Mundo. Uma das minhas melhores amigas ainda guarda os papéis de carta que trocava na quarta série. O mundo todo está cheio de "novidades" como videogame com aparência (e jogos) vintage, vitrola e vinil, telefone de discar. É normal que coisas queridas do passado voltem para enfeitar a casa de saudade. No meu caso (e não vale rir), quem voltou do passado com força total, e por razões que já vou explicar, foram as newsletters. 

O boom dos e-mails com algum nível de curadoria ocorreu no final dos anos 1990, quando listas inteiras de contatos eram compradas por empresas especializadas em encher nossas caixas com coisas que não queríamos ler, entulhando-as com lixo eletrônico da pior espécie. Era tão ruim que provedores de e-mail criaram regras e pastas especiais, levando a sujeirada toda para um lugar seguro, longe dos nossos olhos e da estimada caixa de entrada. E até o Comitê Gestor da Internet estabeleceu normas, em 2004, para tentar organizar a bagunça e banir os spams. 

Em 2016, mais de 215 bilhões de e-mails foram enviados por dia, segundo estatísticas do Radicati Group, baseado em Palo Alto, Califórnia. Em 2020, o número deve chegar a 250 bilhões. Hoje, pelo menos um terço de quem tem caixas de e-mails ativas as checa a cada 15 minutos. E, fora do horário de trabalho, usuários chegam a ler os e-mails por mais de 30 minutos (que hoje é o tempo médio de uso do Facebook por dia). 

Com a sofisticação do conhecimento do usuário, a consequente facilidade de segmentação e uma inteligência voltada a servir – e não atrapalhar –, as newsletters vêm encontrando o caminho de volta. Levando a caixa de e-mail dentro do bolso, no smartphone, as minhas viajam comigo para onde eu for e trazem, todos os dias, a curadoria que, sozinha, sou humanamente incapaz de fazer.

Uma das iniciativas mais interessantes é TheSkimm, que conheci há três anos. Todas as manhãs, eu e mais 4 milhões de pessoas recebemos um resumo que, segundo as duas fundadoras, entrega o que preciso saber para começar o dia. Quase sempre acertam. 

Recentemente, o Huffington Post, que tem uma lista grande de curadoria com seleções bem inusitadas, lançou uma newsletter focada na geração Z, os jovenzinhos que nasceram depois dos millennials. The Tea é semanal e foca especialmente em meninas. Eu assinei. 

Os jornais do mundo inteiro, especialistas em digerir e organizar informação, voltam os olhos e os times para essa chance de conexão com os leitores. O The New York Times oferece mais de 50 e soma pelo menos 700 mil cadastrados só para receber o resumo da manhã. Recentemente, assim como o The Washigton Post, que tem mais de 70 opções, lançou uma newsletter focada em audiência internacional, fora dos EUA. Outra novidade do WaPo é uma que compila, toda sexta-feira, os melhores comentários dos leitores. Eu assino as três. 

O Digg, que já é um site agregador de conteúdo, foi mais minucioso e criou, assim que Trump assumiu a Casa Branca, uma newsletter diária. Na proposta, o óbvio: está tão complicado acompanhar tudo sobre o novo presidente que alguém precisa organizar as notícias. Assino também. 

O site Vox é outro que aproveita o momento que vive os EUA, com o possível fim do ¿Obamacare¿ e acaba de criar uma newsletter para explicar questões envolvendo o programa de saúde pública no país, com um editor dedicado. A newsletter se chama, claro, VoxCare

No Brasil, não é diferente. Folha de São Paulo, Estadão e O Globo oferecem diversas opções de newsletter, compilando seus conteúdos em seções que acompanham as editorias dos jornais. Zero Hora lançou ano passado a iniciativa, com uma dezena de opções, diárias e semanais. As minhas preferidas são as que trazem os destaques da manhã escolhidos pelos editores – serviço para quem (confesso!) não consegue ler o jornal todo, todos os dias – e a lista diária com a opinião dos colunistas. Recomendo fortemente as duas. 

E agora, você que não foi atrás das minhas sugestões ainda, deve estar se perguntando: o Facebook já não me entrega tudo que preciso ler e saber? Sim, a impressão é essa mesmo. Mas a verdade é que ele não mostra tudo e, pior, em boa parte decide pela gente o que aparece na timeline. 

Leia também: Era uma vez uma (inocente) timeline...
O muro que Trump está ajudando a derrubar

O que as newsletters fazem, e as redes sociais não, é devolver para o leitor o poder de escolher o que receber e ler. Do lado das empresas de mídia, ainda ajudam a entender melhor o comportamento e os interesses do usuário. 
Assinantes de newsletter são, em regra, leitores mais leais e engajados, que querem se relacionar com as marcas e consumir seus conteúdos. 

Com tudo que está publicado hoje na internet, ter alguém que organiza o caos e entrega o essencial é participar de um jogo sem perdedor. Mas é preciso ter em mente que a caixa de e-mail é talvez um dos espaços mais "pessoais" de toda a internet. Para estar ali, dividindo espaço com as mensagens da família, dos amigos e do chefe, é preciso mesmo fazer por merecer.

Só enfeitar, não vale.

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O Manifesto de Zuckerberg contra o jornalismo 
SnapWhatsGram: o ataque dos clones
Facebook e um projeto chamado Jornalismo

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Projeto 67% e a representatividade
O site Refinery29, que está entre os meus novos favoritos, é um dos maiores produtores de conteúdo focados na agenda do empoderamento feminino. Na pauta, jamais pressupõe as escolhas e crenças das leitoras, nem o tamanho do jeans que usam. E com a diversidade no topo das prioridades, criou o 67% Project. O número se refere ao total de mulheres americanas que vestem tamanho extra grande ou maior. 

Segundo pesquisa do R29, apenas 2% delas são representadas na mídia. Para questionar a falta de representatividade dessa ¿maioria invisível¿, o site criou um arquivo fotográfico com modelos plus size e, melhor, fechou parceria com a Getty Image para disponibilizar imagens também para outros veículos. O projeto foi um dos finalistas do World Changing Ideas Awards deste ano. Nas redes sociais, é possível acompanhar a iniciativa pela hashtag #SeeThe67.


Twitter premium
O Twitter está testando uma opção paga para marcas, incluindo jornais e empresas de mídia, considerados os ¿power users¿ da plataforma. A informação é do site The Verge. A versão premium deve ter ferramentas para análise profunda de dados, alertas de breaking news e mais detalhes sobre os seguidores e suas atividades. As novidades, tudo indica, estarão dentro do TweetDeck, o app do Twitter para uso profissional.

 
 
 
 
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