Artigo

Everton Maciel: estado das coisas

Professor e doutorando em Filosofia pela PUC-RS

10/02/2017 - 05h30min | Atualizada em 10/02/2017 - 05h30min

O cenário de completa insegurança imperando em grandes centros urbanos do Brasil não foi gerado na semana passada. É resultado de três décadas sem planejamento nas áreas vitais (educação, segurança pública e saúde). O material sempre foi inflamável, mas o fósforo do incêndio veio com a instabilidade da democracia. O ódio foi maximizado no ambiente virtual, contudo a incivilidade sempre esteve nas ruas, entre nós.

Constatar a senilidade dos nossos problemas não ajuda a resolvê-los. Ainda, impressiona que faça parte da nossa agenda tanto aplausos às tropas do Exército e da Força Nacional, quanto as insistentes tentativas de condenar a existência da Polícia Militar.

Direita e esquerda batem boca, cada um em suas trincheiras e, no meio, o povo, desatendido em todos os aspectos e sem perspectiva de ver qualquer grande problema resolvido. Machuca a dignidade de uma nação passar tanto tempo sem ver nenhuma questão nacional significativa apaziguada, com um Estado cada vez mais caro e ineficiente. Assistir saques em Vitória, presídios incendiados no norte e nordeste e crimes contra a vida sendo cometidos em todas as grandes capitais, sem uma pronta resposta para evitar que tudo se repita, agride nosso maltratado entendimento de quem somos, brasileiros.

Em meio a nossa completa indigência cívica, cada passo dos nossos representantes é dado para tentar resolver seus próprios problemas. Manter-se fora da cadeia, em primeiro lugar; depois, encontrar um novo modus operandi para a corrupção. Nenhuma grande reforma é esperada. Se algo é oferecido como solução vem sempre em detrimento de quem sustenta a máquina ou daqueles que tentam a manter funcionando. À margem da população e no centro do viciado poder de barganha, um determinado nicho da classe jurídica é aclamado como se fossem heróis, e não se importam de ostentar esse título bizarro.

Enquanto o eleitor não substituir os heróis e os discursos extremistas por um modelo que ofereça uma reforma política real e um pacto federativo suficientemente radical para reconstruir o país, esse será o estado das coisas. 

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