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Fernando Ferrari Filho
Professor titular de Economia na UFRGS e Pesquisador do CNPq
Desde o dia 20 de janeiro, quando se tornou o 45° presidente dos Estados Unidos, Donald Trump vem propondo medidas econômicas que vão de encontro não somente aos princípios liberais do Partido Republicano, mas, principalmente, ao modus operandi da economia globalizada: políticas protecionistas alicerçadas, entre outras coisas, pelo aumento de tarifas de importação (essencialmente sobre os produtos chineses, maior parceiro comercial dos EUA), visando proteger tanto a indústria nacional quanto o mercado de trabalho norte-americano; expansão indiscriminada de gastos públicos; e retirada dos EUA da parceria comercial e de investimentos com os países da Ásia e do Pacífico e renegociação dos acordos de livre comércio com os parceiros norte-americanos no North America Free Trade Agreement (Nafta). Ademais, Trump manifestou o desejo de que o parlamento britânico ratifique a saída do Reino Unido da União Europeia, bem como sugeriu que outros países-membros da UE façam o mesmo.
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As referidas medidas (melhor dizendo, os devaneios econômicos) do presidente têm sido chamados de "keynesianas" por alguns economistas. Todavia, elas estão longe de ser "keynesianas". John Maynard Keynes (1883-1946), apesar de advogar a intervenção do Estado na dinâmica econômica e propor a adoção de políticas fiscal e monetária contracíclicas para mitigarem as crises de demanda efetiva e de desemprego, era um economista liberal no que diz respeito às relações comerciais e propunha expansão dos gastos públicos, a ponto, inclusive, de serem gerados desequilíbrios orçamentários somente em situações econômicas especiais, tais como a recessão.
Nos anos 1920, mais especificamente durante o período em que o Reino Unido restaurou o sistema padrão ouro, ele propôs políticas protecionistas como instrumento de defesa à indústria britânica, uma vez que nesse sistema a taxa de câmbio era fixa e a política monetária não era autônoma.
Nos anos 1930, como consequência da Grande Depressão, ele sugeriu a expansão de investimentos públicos (o que Keynes chamou de "socialização do investimento") para expandir os níveis de produto e emprego. Não é demais ressaltar que, recentemente, os EUA e o resto do mundo implementaram medidas econômicas efetivamente keynesianas para reduzir os impactos da crise financeira internacional sobre suas economias.
Voltando aos devaneios econômicos de Trump, se não bastassem baterem de frente com a agenda econômica do Partido Republicano e a economia global, eles são propostos em um contexto econômico inapropriado para os EUA. Por quê? Por um lado, porque o Banco Central dos EUA está sinalizando a elevação da taxa básica de juros (fed funds) e, por outro lado, porque o dólar tende a se valorizar no mercado internacional. Nesse cenário, o déficit público e as exportações tenderão, respectivamente, a recrudescer e a diminuir. Em outras palavras, os "déficits gêmeos" podem voltar à cena e, assim, protagonizar outra crise na economia norte-americana.
Diante dessa perspectiva, uma questão surge: como evitar que os devaneios de Trump conduzam os EUA para outra crise? Duas são as possibilidades: por um lado, apesar de o governo possuir maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, o que, teoricamente, facilitaria a aprovação das proposições do presidente, a combinação de votos dos dissidentes republicanos e da oposição poderia impedir a implementação delas; e, por outro, não se concretizando essa hipótese, caberá ao Mercado, mais especificamente aos consumidores e empresários, "frear" o trumpeconomics.
Por que o Mercado? Porque o Mercado tem ciência de que os devaneios econômicos de Trump trarão externalidades negativas, quais sejam, perdas de bem estar para os consumidores e redução de market share e queda dos lucros para os empresários. Neste particular, a recente decisão de empresas multinacionais norte-americanas, entre as quais Starbucks, Google, Uber e Airbnb, que adotarão políticas de apoio a imigrantes por dependerem desta mão de obra, contrariando, assim, a iniciativa de Trump de restringir a imigração, principalmente aquela procedente de países muçulmanos, não deixa de ser uma forma de o Mercado começar a reagir.
Enfim, cedo ou tarde, Trump perceberá que o real world não é um reality show.