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Julia Dantas: "Armas pela Vida e cada um por si"

Escritora reflete sobre campanha de vereadores de Porto Alegre

Por: Julia Dantas
21/04/2017 - 10h56min | Atualizada em 21/04/2017 - 11h50min
Julia Dantas: "Armas pela Vida e cada um por si" Marcelo Kervalt/Agência RBS
Manifestação em Porto Alegre, em março, pediu mudanças na lei do desarmamento Foto: Marcelo Kervalt / Agência RBS  

A emoção é muito eficiente para transformar opiniões. Por isso, não surpreende que um grupo de defensores do armamento da população tenha escolhido o slogan "Armas pela vida". Palavras fortes, que não costumam andar juntas, uma estranheza já comentada por bastante gente. Essa escolha de palavras seria absurda não fosse sua facilidade para se transformar em refrão e estampar camisetas. O refrão é a força por trás do movimento que não parece ter muito interesse por uma abordagem racional e desapaixonada.

Não importa que, desde o estatuto do desarmamento, os números mostrem que a taxa de homicídios no Brasil, embora aumente anualmente, se manteve muito abaixo do previsto. Não importa que nos Estados Unidos, nossa inspiração para tantos anseios, os locais com legislação mais permissiva em relação às armas de fogo enfrentem mais crimes, além de aumento nos acidentes fatais com armas e suicídios. Por que aqui haveria de ser diferente?

Talvez um país adolescente sofra do mal de todos os adolescentes ao acreditar que os problemas só acontecem com os outros. São os outros que se acidentam depois de beber, não eu; são os outros que engravidam se não usam camisinha, não eu; são os outros que morrem ao reagir a assaltos, não eu.

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Outra armadilha mental é o confirmation bias. Significa que, quando temos uma opinião formada sobre um assunto, as informações são incapazes de fazer-nos mudar de ideia. Em qualquer texto, tese ou compilado de dados, vamos buscar apenas aquilo que confirma nossa opinião prévia e descartar o que a contradiz. Ou seja, um dos integrantes do "Armas pela vida" pode passar horas me dizendo que acha uma boa ideia ter uma arma no carro, mas eu gastarei as mesmas horas para dizer que acho que haverá mortes nas brigas de trânsito, que uma pessoa pega de surpresa nunca vai ser mais ágil do que um criminoso preparado, que haverá mais crimes passionais.

É improvável que algum de nós mude de ideia.

Se o debate contaminado por emoções tem pouco potencial para mudança, convém aqui prestar atenção no que independe de opiniões. O "Armas pela vida" inclui um grupo de vereadores, mas a legislação sobre porte de armas é definida no âmbito federal, o que significa que o alcance deles na questão não vai muito além de disseminar o medo. Fazer a população acreditar que a questão da segurança deve ser resolvida com suas próprias mãos é diminuir a responsabilidade dos governos. 

O que o grupo parece dizer é que o cidadão tem o direito de se proteger; mas o que ele diz de verdade é que o poder público está lavando as mãos e o cidadão que se vire. Embora a segurança seja responsabilidade do governo estadual, cabe ao município ações de prevenção como boa iluminação, investimento em espaços de lazer e cultura, infraestrutura urbana e habitacional. Por que não trabalhar nessas frentes?

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Emoções à parte, me parece que temos um grupo de vereadores que, ao invés de focar no que o município pode fazer pela segurança pública, decide se dedicar a um discurso de raiva e impotência, fortalecendo a ideia de que o poder público, do qual eles fazem parte, é de uma inutilidade crônica, e cabe ao cidadão tomar para si a questão da segurança, assumindo os riscos inerentes à maior circulação de armas em nome de uma ideia imprecisa e sem garantias de autoproteção. Infelizmente, isso não cabe numa camiseta.


 
 
 
 
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