Coluna

Cíntia Moscovich: A moral do tribunal

A colunista escreve sobre o livro "O Tribunal da Quinta-Feira", de Michel Laub

Por: Cíntia Moscovich
08/05/2017 - 06h00min | Atualizada em 08/05/2017 - 06h00min

Lançado no final do ano passado, O Tribunal da Quinta-Feira (Companhia das Letras, 184 páginas), do porto-alegrense Michel Laub, é um daqueles livros cuja história envolve tão completamente, que se torna difícil não viver os mesmos dilemas morais – e mesmo os sem moral alguma - do protagonista.

Trabalhando com temas ásperos, como a aids, a homossexualidade, a infidelidade, as relações entre sexo e hierarquia no mundo corporativo, os julgamentos sumários e imbecis do mundo virtual, Laub escolheu um registro de linguagem muito adequado a seu narrador – além da precisão, da crueza e da simplicidade do léxico, poucas vezes se viu a escatologia servir tão belamente a uma narrativa. A dinâmica das frases e dos capítulos é quase sempre acelerada, as vírgulas se sucedem e marcam acontecimentos que vêm de roldão, um movimento que lembra o das ruas paulistanas. 

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O narrador é José Victor, um publicitário que trocae-mails há anos com Walter, colega de profissão, que é homossexual e soropositivo. A conversa entre ambos é cheia de confissões picantes e muito pessoais: um é maldoso com a doença e com o mundo gay, outro fala mal da mulher com quem é casado e da nova amante. É quando Teca, já ex-mulher de José Victor– ele agora está namorando uma estagiária –, descobre a senha do e-mail do ex-marido e, com ódio, publica trechos das conversas nas redes sociais. É aí que começa o julgamento propriamente dito, aquela conhecida torrente de comentários e mensagens que correspondem a um linchamento virtual e que, pior de tudo, são recheados de moralismo virtuosístico e de boas intenções.

Fugindo totalmente do tom didático, limitando-se a expor fatos, os personagens de Michel são de uma sinceridade desabrida, coisa que talvez seja inadequada em época em que o privado se tenha tornado domínio público. Um dos jogos de espelho mais impactantes do livro, e que coloca em xeque os muitos juízes de Internet, diz respeito ao verdadeiro rodízio que o autor promove no banco dos réus, porque ninguém é inocente o quanto baste para julgar quem quer que seja.

 
 
 
 
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