Prédios históricos

Proprietários de imóveis tombados investem na reforma das construções

ZH visitou três bons exemplos de prédios históricos que estão conservados

22/04/2015 - 05h07min | Atualizada em 22/04/2015 - 19h02min
Proprietários de imóveis tombados investem na reforma das construções  Félix Zucco/Agencia RBS
Clarissa Rossarola é proprietária de um imóvel na Rua Fernando Machado que preserva a história do prédio e da cidade Foto: Félix Zucco / Agencia RBS  
Quando bem conservadas, construções históricas chamam a atenção não apenas pela beleza que trazem às ruas onde estão localizadas, mas também pela memória afetiva que despertam. Na terça-feira, Zero Hora questionou o descuido com importantes prédios históricos e retratou a série de motivos que os levam a ruir em pleno centro de Porto Alegre. A seguir, seguem três exemplos de como é possível preservar o valor cultural e arquitetônico da cidade.

Prédios históricos sofrem com o descaso no centro de Porto Alegre

Uma das casas que mantêm a arquitetura original e sua história está na Rua Fernando Machado. Entre os sobrados geminados que formam o antigo casario do renomado comerciante Antônio Chaves Barcellos Filho, um esconde bem os quase cem anos que tem.

Quando ZH bateu à porta do número 506, uma construção amarela, de três andares, duas jovens atenderam. E logo mandaram entrar. Elas estão acostumadas com visitas de curiosos, estudantes de arquitetura e interessados pela história. Mas nem sempre foi assim. Clarissa Rossarola, 35 anos, lembra o que sentiu há mais de duas décadas, quando, com a mãe e a irmã, deixou Caxias do Sul para morar “naquela casa velha”.

— Chorei assim que entrei. Imagina abrir a porta e ver tudo destruído, caindo aos pedaços, com roupas de antigos moradores penduradas por todo canto. Enquanto eu me desesperava, minha mãe, que é artista plástica, olhava para a estrutura e se animava imaginando como tudo ficaria — recorda Clarissa.

Clique nos pontos para ver fotos de parte dos imóveis históricos do Centro:



Na época, a casa foi adquirida pelo preço de um apartamento pequeno de dois dormitórios, sem garagem. Após uma reforma simples, ficou “um pouco mais habitável”. Em 2007, antenada nos programas para a preservação do patrimônio histórico da cidade, a família participou do edital do Projeto Monumenta — com recursos do Ministério da Cultura e contrapartida da prefeitura — e entrou na lista dos 15 proprietários particulares selecionados. O plano da restauração foi feito pela arquiteta Marielen de Costa, 32 anos, que é amiga da família e ocupa uma das salas do segundo andar da casa, onde tem seu escritório.

— Incentivos e possibilidades de financiamento como o usado aqui são importantes para a recuperação do valor destes imóveis. Uma reforma já é cara, uma restauração em um prédio antigo, então, pode custar 50% mais — avalia Marielen, que se orgulha de abrir seu primeiro escritório em uma casa tombada.

Donos de imóveis querem preservar memória afetiva do Centro

A reforma completa do imóvel levou dois anos e custou cerca de R$ 80 mil (R$ 10 mil vieram do bolso da proprietária, e R$ 66 mil do financiamento do Monumenta). O valor, disponibilizado por meio da Caixa Econômica Federal, será pago pelo proprietário, sem juros, em um prazo de 10 anos (com carência de seis meses após a conclusão das obras). O dinheiro que irá retornar ao município será incorporado ao Fundo Monumenta, que o reinvestirá na conservação dos prédios de valor histórico e cultural da cidade — o primeiro edital deve ser lançado até o fim do ano.



O funcionário público aposentado Ciro Comiran também acessou parte dos R$ 5 milhões disponíveis pelo Monumenta, em 2006. Os prédios em ruínas na Rua dos Andradas (que levam à porta os números 673 e 683), receberam financiamento de R$ 422 mil.

Em comum com a família de Clarissa, Ciro reconhece a importância dos prédios históricos. Adorador de antiguidades, mora no último andar de um dos imóveis. A casa, uma sala enorme, sem divisórias, que abriga objetos adquiridos em viagens e antiquários, ele define como “um projeto de vida”.

— Esses prédios estavam fechados com tapume havia mais de 30 anos. Quando fiz a reforma, uma moça veio com o avô. O senhor apontou para o segundo pavimento e disse: “Meu pai nasceu aqui, em 13 de maio de 1888, dia da libertação dos escravos” — afirma Comiran, que, apesar de agradecido, reclama da burocracia dos processos na prefeitura.



Há casos também, e esses são a maioria, em que a preservação do patrimônio se dá com recursos próprios. O empresário Valmir Lando, 46 anos, investirá cerca de R$ 1 milhão na recuperação da fachada de um antigo imóvel na Rua dos Andradas, 891, e na construção de um boteco na parte interna do terreno – que, por sinal, nem é dele, mas alugado.

— Aqui abrirá, nos próximos meses, o Boteco do Centro Histórico. E como o próprio nome remete à antiguidade da cidade, nada melhor do que abrir esse empreendimento em um prédio de valor histórico — afirma Lando.

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Para a coordenadora do PAC Cidades Históricas em Porto Alegre (ação intergovernamental para preservar o patrimônio brasileiro), Briane Bicca, os três exemplos citados contribuem não apenas para a paisagem urbanística da Capital, mas também para a memória afetiva de quem vive nela.

— Prédios históricos são objetos de afeto, e esse é um dos critérios para se proteger um espaço. Ali viveram famílias, nasceram pessoas, e outras tantas só de passar pela frente já se lembram de momentos de suas vidas. Isso tem valor, e ele não é financeiro.

Para Briane, a preservação das construções é uma obrigação com o passado e, principalmente, com o futuro:

— Não temos o direito de abandonar o que nossos antepassados nos legaram como patrimônio. Não podemos entregar aos nossos sucessores uma cidade sem história.





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