Adeus ao palco

Prestes a ser demolido, Cine Teatro Presidente guarda parte da história de Porto Alegre

Desativado na década de 1990, antigo cinema ainda tem projetores, películas e estruturas da época em que era referência cultural

18/06/2015 - 05h05min
Prestes a ser demolido, Cine Teatro Presidente guarda parte da história de Porto Alegre Mateus Bruxel/Agencia RBS
Prédio localizado na Avenida Benjamin Constant foi inaugurado em 1958 Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS  

Um dos principais espaços culturais de Porto Alegre, desativado nos anos 1990 e convertido em igreja, vai ingressar em breve em seu último estágio: a demolição parcial para dar lugar a um empreendimento imobiliário.

Enquanto as máquinas não chegam, o interior escuro e abandonado do Cine Teatro Presidente ainda esconde mobiliário, equipamentos de projeção e até restos de película do tempo em que exibia lançamentos de Hollywood, peças teatrais do centro do país e shows que ajudaram a formatar a dramaturgia e a música do Estado.



Relembre como eram e onde ficavam famosos cinemas de rua de Porto Alegre

Nos últimos anos, o prédio localizado na Avenida Benjamin Constant em que já se apresentaram de Elis Regina a Al Di Meola, de Glória Menezes a Dercy Gonçalves já não era nem mais templo religioso. Fechado, abrigava moradores de rua e era alvo de furtos de materiais e cabos de energia. Apesar disso, para surpresa dos empreendedores que compraram a área para construir um edifício de uso residencial e profissional, o interior do Presidente preserva resquícios da era de ouro dos cinemas de rua na Capital.

Projetores ainda estão no lugar


Antigos projetores apontam para tela que não existe mais
Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Por trás da fachada modernista coberta por pastilhas — que será mantida —, está a sala de projeção que, em 15 de novembro de 1958, irradiou as imagens do filme A Mais Bela Mulher do Mundo, com Gina Lollobrigida, em sua inauguração. Ainda estão lá dois projetores Gaumont-Kalee, mesmo que avariados e cobertos por fezes de pombos, duas décadas depois de iluminarem uma película pela última vez.

— Foi incrível descobrir que ainda estavam aqui. Queremos recuperar pelo menos um deles para exibir como decoração — conta o sócio da incorporadora wikihaus Alexandre Almeida.


Rolos de filmes antigos, danificados, foram encontrados no local
Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Restaram também um quadro de Charles Chaplin que provavelmente servia de inspiração aos operadores e, curiosamente, um mictório — indício de que nem mesmo a vontade de ir ao banheiro podia interromper o manejo das máquinas. No chão, foram localizados pelo menos dois rolos deteriorados de filme. Um deles foi identificado como o clássico western O Dólar Furado, de 1965, mesma época em que a meninada de Porto Alegre se reunia diante das portas acolchoadas de acesso à plateia, que também resistiram ao tempo, para trocar gibis de Zorro e Tarzan antes do início das matinês.

Plateia testemunhou show antológico


Cadeiras, hoje vazias, foram disputadas aos empurrões nos anos 70
Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Na plateia, localizada além dessas portas e ao fim de uma escadaria, milhares de frequentadores assistiram a filmes de bangue-bangue nos anos 1950, peças musicais nos anos 1960 e a shows nos anos 1970. Um deles ajudou a formar uma geração de músicos gaúchos. As mesmas cadeiras onde hoje proliferam teias de aranha foram disputadas aos empurrões em 1975 durante o show coletivo idealizado pelo comunicador Júlio Fürst chamado Vivendo a Vida de Lee. O cartaz de divulgação dizia: "Muito som. Muita gente boa. Muita cuca genial".

— Eu fazia um programa de rádio popular na época, que tocava bandas gaúchas, e pensei em fazer um concerto com elas. Aluguei o Teatro Presidente, mas o sucesso superou em muito as nossas expectativas — lembra o radialista, que adotava o apelido Mr. Lee.

Eram esperadas pouco mais de mil pessoas. Mais de 3 mil compareceram, e a Brigada Militar teve de fechar a avenida para o trânsito. O público chegou a arrombar uma entrada lateral para ver as performances de artistas emergentes como Almôndegas e Hermes Aquino. Naquele 13 de agosto, Aquino apresentou a música Nuvem Passageira, que se tornaria sucesso nacional no ano seguinte. O espetáculo seria repetido outras vezes, em outras cidades e com outros músicos como Nelson Coelho de Castro, e deixaria marcas permanentes no movimento musical urbano do Estado.

Palco recebeu grandes nomes


Palco espaçoso e plateia para mais de mil pessoas atraíam espetáculos
Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

No mesmo teatro pelo qual passaram os Almôndegas e Hermes Aquino, desfilaram grandes nomes do teatro e da música nacional graças à característica híbrida do Presidente de combinar cinema e ponto de apresentações. O grande palco, hoje escuro e coberto por restos de materiais de construção, também teve papel importante na consolidação do teatro gaúcho.

Ali, em 1977, o grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone apresentou a peça Trate-me Leão. Na plateia, boquiaberto com a irreverência da trupe, estava o então estudante Flávio Bicca Rocha. Naquele momento, quando se deu conta de que a dramaturgia não precisava seguir padrões rígidos, Rocha decidiu de vez seguir a carreira teatral. Ele se tornaria um dos responsáveis pela montagem de Bailei na Curva, o grande clássico dos palcos gaúchos, além de compor a música Horizontes para a trilha sonora — outro clássico da cultura riograndense.

— Eu pensei: se isso é teatro, quero fazer isso. O Bailei (na Curva) é cria desse despojamento — relembra Rocha.

Pelos camarins localizados no subsolo, onde hoje há pedaços de forro caídos no chão, passaram Lilian Lemmertz, Glória Menezes, Egberto Gismonti, Fafá de Belém. Cazuza fez seu último show em Porto Alegre no Presidente.

Agora, se aproxima a hora do velho cine teatro sair de cena em definitivo e levar consigo para a posteridade os últimos resquícios do tempo em que vivia na ribalta.


Entrada principal do cine teatro, por onde se chegava à plateia hoje deserta
Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

* Zero Hora

 
 
 
 
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