Dinheiro pelo bueiro

Moradores de Porto Alegre à espera de serviços realizados pelo DEP

Pedidos de conserto se acumulam sem solução no órgão municipal. Só para bueiros são 4 mil chamados

Por: Adriana Irion
15/07/2016 - 02h00min | Atualizada em 15/07/2016 - 02h00min
Moradores de Porto Alegre à espera de serviços realizados pelo DEP Adriana Franciosi/Agencia RBS
Em dias de chuva, Jeferson e seus colegas já desistiram de sair para almoçar para não precisar enfrentar ruas alagadas Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Para quem tem pedido protocolado no Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) via telefone 156, a notícia não é boa: há 22,5 mil casos esperando atendimento em Porto Alegre desde 2013. Diretamente relacionados a bueiros, são 4 mil chamados abertos, sendo que 2,7 mil são para cobrar a limpeza de bocas de lobo entupidas.

A partir de reportagens publicadas por Zero Hora ao longo da semana, revelando que a empresa JD Construções — contratada pelo DEP para fazer a limpeza de bueiros — cobrava por serviços não realizados, centenas de moradores da Capital se manifestaram, enviando a ZH e Rádio Gaúcha queixas sobre pedidos não atendidos pelo órgão municipal. Os dramas estão espalhados pela cidade.

Leia mais:
DEP substitui todos os engenheiros com cargos de chefia
DEP pagou construção de casa de bombas que não funciona

Um deles chama a atenção pelo histórico de providências dos moradores, até hoje sem resultado. É o caso de um vazamento de esgoto pluvial na Rua Aníbal di Primo Beck, no bairro Boa Vista. O problema já fez aniversário (com direito a festa) e foi duas vezes noticiado por ZH (em setembro de 2015 e em maio deste ano). Mais: foi comunicado pessoalmente ao prefeito José Fortunati e obteve decisão judicial liminar com prazo para resolver o problema. Nada.

Esse é só um exemplo das dificuldades enfrentadas pela população em busca de soluções para problemas corriqueiros, mas que causam transtornos e gastos com serviços privados. Segundo o DEP, os canais de entrada de pedidos no órgão são os mais variados: pelo 156, por associações de moradores, por vereadores, pelo Ministério Público, pelo gabinete da prefeitura e casos noticiados pela imprensa. O DEP diz ter recebido 105,2 mil solicitações desde 2013, e ter atendido 82,8 mil. A qualidade do atendimento, no entanto, não é medida, ou seja, se o problema realmente foi solucionado a contento.

Para a Procuradoria-Geral do Município, que está fazendo uma intervenção no órgão, esse fluxo oriundo de muitos canais prejudica a priorização de casos urgentes e a organização de um cronograma de atendimento. A medida em adoção é centralizar os pedidos em um canal e organizar a resposta ao usuário.

Na quinta-feira, a prefeitura comunicou outras medidas adotadas no DEP: a substituição dos engenheiros chefes e encarregados das seções de conservação Centro, Sul, Norte e Leste.

Veja as irregularidades apuradas por ZH:

Oito protocolos e nenhuma explicação

Em uma empresa situada na Rua Padre Diogo Feijó, no bairro Navegantes, quando chove — e por alguns dias depois da chuva, enquanto a área fica alagada — os funcionários evitam sair para almoçar. O esforço é tanto para não molhar calçados e roupas, que é melhor evitar. O auxiliar de escritório Jeferson Azzi,41 anos, tenta solução desde dezembro. Já fez oito protocolos na prefeitura: seis dirigidos ao Dmae e dois, ao DEP.

— Não sabemos quem é o responsável. Ligo para o Dmae, dizem que é o DEP. Falo com DEP, mandam tratar com o Dmae. No final do ano, foi feita obra na esquina com a Rua 18 de Novembro, colocaram um duto e desde então alaga tudo. Acho que bloquearam as bocas de lobo. Até um simples sereno já faz empossar água. E fica por dias — diz Jeferson.

Neste ano, o DEP compareceu ao local uma vez e, sem explicar qual era o problema, informou que seria resolvido. Jeferson segue esperando.

Calçada cedendo e DEP sem sistema

Losch observa um dos buracos na calçada da Rua Gastão Englert Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Quando um buraco surgiu na calçada, em fevereiro, na frente da entrada da garagem dos pais idosos, a socióloga Elaine Losch confiou que abrir um protocolo pelo 156 resolveria. Notando a falta de ação, apelou para outros canais, como a rede colaborativa virtual (colab.re). Sem resposta, telefonou para o DEP, em abril. Foi quando descobriu que seus pedidos nem sequer tinham chegado à seção responsável pelo bairro.

— Me disseram que o DEP da Sertório estava sem telefone e sem sistema desde o temporal de 29 de janeiro. A pessoa no DEP disse que ia imprimir meu pedido e mandar por motoboy para a Zona Norte. Peguei o carro e fui lá pessoalmente. Nada até hoje — desabafa Elaine.

Preocupada que os pais pudessem se machucar ou uma criança — ao lado funciona uma escola infantil —, Elaine pagou R$ 300 para um pedreiro fechar o buraco. Outros estão abertos ao longo da calçada, como mostra Raimundo Losch (foto), e o localizado na frente da casa dos pais, na Rua Gastão Englert, já ameaça ceder novamente.

Água que brota pela boca de lobo

Bueiro na rua da casa de Izabel despeja água ao invés de recolher o excesso de chuva Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

O imóvel onde moram a mãe, Izabel De Bem Schafer (foto), e outros familiares da técnica em nutrição Elaine Schafer tem como ameaça uma boca de lobo, situada na Rua Maria Josefa da Fontoura, bairro Sarandi. Ao contrário de dar a tranquilidade de que sugará o excesso de água da chuva, o dito bueiro é um vilão que cospe muita água. E o que jorra dele alaga o imóvel da família e de vizinhos. Desde novembro do ano passado, Elaine contabiliza dezenas de ligações para o 156 — cada vez, um novo protocolo.

— A cada ligação, parece que estamos começando do zero. E me dizem que já foram, que já limparam e continua tudo igual. O bueiro tem refluxo.

Em fevereiro, quando a mãe perdeu vários bens por causa do alagamento na casa, Elaine ligou para o gabinete do vice-prefeito Sebastião Melo.

— Mandaram ligar para o DEP e falar com a engenheira Cristiane. Já falei várias vezes e não resolvem. Às vezes, vão lá e dizem que está limpo, nem fazem nada. Digo que o problema é outro. Não adianta — conta Elaine.

Nem ordem de juiz resolve

Bing fez até "festa" para comemorar aniversário de um ano de problema de esgoto a céu aberto Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Já é com cansaço que os moradores da Rua Aníbal di Primo Beck, no bairro Boa Vista, relatam o problema do esgoto que corre a céu aberto desde 2015. De lá para cá, o DEP já apareceu para consertos, sem solução. Até causou mais problemas.

— Vieram e enfiaram uma retroescavadeira que estourou a rede de energia, telefone e internet. E não voltaram para arrumar. Fui no DEP e estava como resolvido. O condomínio gastou R$ 13,5 mil com uma empresa especializada. Protocolei pedido de ressarcimento e estou esperando — conta o engenheiro Fernando Bizarro.

Também morador da rua, o engenheiro civil Alberto Bing (foto) foi o mentor da festa de aniversário do buraco, com convite à prefeitura. Na época, em 13 de maio, o então diretor-adjunto do DEP, Francisco Mellos, disse a ZH que não iria à festa, mas que em uma semana a obra estaria concluída. Só canos foram depositados lá.

Bing apelou ao Judiciário. Em maio, a Justiça deu prazo para a prefeitura resolver o problema em cinco dias. O município foi notificado da ordem em 8 de junho. Mais uma vez, nada mudou.

 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.